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Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Existe uma diferença enorme entre começar e voltar.

Quem começa está movido pela curiosidade.
Quem volta… está movido pela saudade.

Em 2018, resolvi voltar, mais uma vez, ao esporte que mais amo: a natação. Como já contei por aqui em outras ocasiões, minha história com as piscinas começou ainda na pré-adolescência. Desde então, foi feita de idas e vindas, términos e recomeços. A vida sempre dava um jeito de me afastar da água por algum tempo, mas, cedo ou tarde, eu acabava voltando.

Talvez isso tenha alguma relação com a minha personalidade. Nunca fui exatamente o que se pode chamar de um jogador de equipe. Não por antipatia ou dificuldade de convivência, mas porque sempre gostei daquela sensação de depender exclusivamente de mim. Na natação é assim. É você… e a água. Ninguém para culpar por uma braçada mal executada. Nenhum companheiro te cobrando por um passe errado. Nenhuma estratégia coletiva. Se você engolir água por calcular mal uma respirada… a responsabilidade é única e exclusiva da pessoa que você vê todos os dias no espelho. Eu gosto dessa honestidade.

Como também já relatei anteriormente, sempre tive uma queda especial pelas maratonas aquáticas, as famosas travessias. Existe algo profundamente fascinante em sair nadando de um ponto qualquer da costa e simplesmente confiar que, depois de centenas de braçadas, outro pedaço de terra aparecerá diante de você. Em 2018, esse desejo voltou a fazer barulho. Eu queria reviver aquela sensação que havia experimentado anos antes, quando fiz a travessia de Porto Belo ao lado do meu pai.

Não pela medalha.
Nem pelo tempo.
Muito menos pela colocação.

Queria apenas reencontrar aquela explosão de felicidade que só quem termina uma travessia consegue entender. O professor daquela vez era o Raoni. Além de treinador, acabou se tornando um grande amigo, parceiro de incontáveis noites de RPG e o sujeito que aceitou a difícil missão de transformar um ex-nadador enferrujado novamente em alguém capaz de enfrentar o mar. Voltei às aulas provavelmente ali nos primeiros meses do ano.

Os treinos passaram a ter propósito. A técnica era corrigida. A resistência trabalhada. As séries ficavam mais longas. Os pulmões reclamavam. Os braços e ombros também. Mas, curiosamente, a cabeça parecia cada vez mais feliz. Até que, em agosto, veio a notícia que eu esperava: As inscrições para a Travessia de Porto Belo estavam abertas.

Não pensei duas vezes. Fiz minha inscrição no mesmo dia. Honestamente?

Eu não me julgava completamente preparado. Mas existe uma verdade curiosa sobre alguns desafios da vida. Às vezes a gente nunca se sente pronto. E, ainda assim… precisa ir. Sabendo que o relógio corria contra mim, intensifiquei ainda mais os treinos.

O tempo passou, os treinos aconteceram e chegou então o grande dia. 21 de outubro de 2018. Um domingo que amanheceu chuvoso, nada convidativo para uma praia. Mesmo assim, lá estava eu, vestindo um neoprene para enfrentar a água gelada, com o número da prova rabiscado nas costas da mão com canetão. Na areia, Gihane e as crianças se espremiam debaixo de um guarda-sol que, naquele momento, desempenhava muito melhor a função de guarda-chuva. Recebi um beijo de boa sorte de cada um deles. Respirei fundo e entrei no mar.

Diferente da prova de 2001, dessa vez não haveria ilha alguma. O percurso consistia em avançar quinhentos metros mar adentro, contornar uma boia e retornar para a praia. Confesso que senti uma pequena frustração. Na minha cabeça, travessia de verdade terminava numa ilha. Mas tudo bem, água é água, braçada é braçada. Enquanto contornava a boia, ouvi alguns caiaqueiros conversando entre si sobre um ataque de tubarão ocorrido poucos dias antes.

Dentro da minha cabeça, a reação foi imediata: “Hunf… estão querendo assustar a gente para nadarmos mais rápido. Aqui não, violão.” Continuei nadando no meu ritmo.

Meses depois descobri que o ataque realmente havia acontecido. Na mesma região, em outra prova similar. Agradeci ao Criador por não ter sabido disso antes.

Faltando algo em torno de trezentos e cinquenta metros para chegar à praia, meu preparo físico começou a cobrar a conta. Os braços pesavam. As pernas pareciam pertencer a outra pessoa. Pela primeira vez pensei seriamente em levantar o braço e pedir que algum caiaqueiro me rebocasse até a areia. Ninguém iria me julgar. Seria só mais um dos poucos desistentes que toda prova possui. Eu mesmo já estava quase me convencendo.

Só que é curioso como a cabeça funciona. Pelo menos a minha faz isso. Em momentos de maior dificuldade, ela vai buscar referências nos lugares mais improváveis. Durante toda a viagem até Santa Catarina, meus filhos insistiram para que uma música tocasse repetidas vezes. “Believer”, do Imagine Dragons. No clipe, o vocalista apanha durante praticamente toda a luta contra Dolph Lundgren. Em determinado momento ele diz:

“I wanna stop.”

E Dolph Lundgren responde apenas:

“We can’t.”

Foi exatamente esse diálogo que começou a acontecer dentro da minha cabeça.

— Quero parar…

— Não podemos.

Sorri sozinho, reuni forças (de onde, não sei) e continuei nadando. Braçada após braçada. Até que finalmente, meus pés tocaram a areia. Vi meus filhos correndo na minha direção. Mas eu estava tão exausto que mal consegui recebê-los como gostaria. Toda a minha concentração estava voltada para uma tarefa extremamente complexa: colocar um pé na frente do outro.

A areia afundava.
As ondas puxavam meus tornozelos de volta para o mar.
Parecia que até caminhar havia se tornado uma modalidade olímpica.

Cruzei a linha de chegada. Dei mais alguns passos. E simplesmente desabei na areia. Ali, ao lado da minha família. Enquanto um verdadeiro coquetel químico tomava conta do meu cérebro.

Endorfina.
Adrenalina.
Dopamina.
Alegria.
Gratidão.

Existe uma felicidade específica que só aparece depois que o corpo acredita sinceramente que não vai conseguir… e, mesmo assim, consegue. Foi então que percebi outra coisa.

Em 2001, atravessei o mar ao lado do meu pai. Naquela prova, era ele quem me acompanhava. Quem dividia comigo aquela memória. Dezessete anos depois, eu olhava para a areia e já não era mais meu pai quem me esperava.

Era a Gihane.
Era o Geisinho.
Era a Gizah.

Foi ali que entendi que eu não estava apenas voltando às travessias. Os papéis também haviam atravessado comigo. Antes, eu era o filho construindo lembranças ao lado do pai. Agora, sem perceber, eu tinha me tornado o pai que construía lembranças para os próprios filhos. E talvez essa seja a maior travessia que a vida nos impõe. A gente nunca volta exatamente ao lugar de onde saiu.

Volta mais velho.
Mais pesado.
Com menos fôlego.
Com alguns cabelos brancos.

Eu achei que estava voltando às travessias. Hoje percebo que estava enganado, eu não estava voltando, estava atravessando outra fase da vida. Porque algumas travessias acontecem no mar. As mais importantes… acontecem dentro da gente.

E algumas das histórias mais bonitas dessa fase… ainda vou contar por aqui.

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