A Travessia

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Tem três coisas que, na minha humilde opinião, todo ser humano deveria saber minimamente:

Ler.
Escrever.
E nadar.

As duas primeiras ajudam você a sobreviver à burocracia da vida. A terceira ajuda você a sobreviver à própria vida.

Meu pai nadava desde muito antes de eu aprender qualquer uma das três. E, como filho de peixe, peixinho é, eu sempre soube que mais cedo ou mais tarde chegaria a minha vez.

Era 1990. Eu tinha doze anos quando fui apresentado ao maravilhoso mundo da natação. E, desde então, minha relação com as piscinas foi feita de idas e vindas. Começos e recomeços. Treinei bastante. Participei de algumas competições. Mas havia um pequeno problema.

Eu nunca fui competitivo. Ou melhor… eu sempre fui competitivo do jeito errado. Gostava de tentar ganhar do sujeito da raia ao lado. Mas, se perdesse, tudo bem também. O que me encantava não era o pódio. Era o simples ato de nadar.

Onze anos depois, em 2001, surgiu um cartaz no mural da escola de natação anunciando um evento que imediatamente chamou minha atenção. 2º Troféu Jasmine de Natação – Travessia de Porto Belo. O desafio era simples: Sair nadando da costa. Atravessar aproximadamente mil e quinhentos metros de mar aberto e chegar a uma ilha. Pronto.

Quando a gente resume assim, parece perfeitamente razoável. Mas experimente colocar um ser humano dentro do mar e dizer:
“Agora vá até aquela ilha lá longe.”

Subitamente a coisa ganha outra proporção. Levei a ideia para meu pai. Ele achou interessante. E lá fomos nós. Três meses de treinamento específico.

Mais resistência.
Mais fôlego.
Mais preparo.

Afinal, piscina é uma coisa. Mar é outra completamente diferente. Foi também nessa fase que meu pai decidiu inovar. Os óculos tradicionais de natação nunca foram exatamente seus melhores amigos. Então resolveu utilizar uma máscara de mergulho daquelas maiores. Na teoria, parecia brilhante. Na prática…

Bom… Chegaremos lá.

Finalmente chegou o grande dia. Um sábado de manhã que jamais esquecerei. Lembro perfeitamente das toucas sendo distribuídas, dos números sendo escritos nos braços dos participantes e daquela mistura de ansiedade com empolgação que só existe antes de uma aventura.

Estávamos lá. Eu e meu pai. Lado a lado. Esperando a largada. Primeiro saíram os atletas PCD. Um pouco depois, o bloco feminino e por último mas não menos importante, todos os demais participantes. Inclusive nós. Assim que entramos na água, ficou evidente que algumas pessoas estavam tratando aquilo como uma disputa olímpica.

Vi gente disparando na frente com tanta velocidade que parecia ter instalado um motor de popa na sunga. Eu e meu pai seguimos no nosso ritmo. Lado a lado. Braçada após braçada. Respiração após respiração. De vez em quando trocávamos um olhar para confirmar que estava tudo bem.

Até que deixou de estar.

Mais ou menos na metade do percurso, olhei para o lado. Meu pai não estava mais ali. Estranhei. Olhei para frente. Nada.

Não fazia sentido.

Eu teria percebido se ele tivesse acelerado. Parei de nadar e comecei a procurar. Foi então que olhei para trás. E avistei uma touca. Seguindo firme. Determinado. Convicto.

Na direção completamente oposta da ilha.

Confesso que levei alguns segundos para processar a cena. Aparentemente, a revolucionária estratégia da máscara de mergulho não estava funcionando exatamente como planejado. Comecei a gritar:

— PAI! PAAAAAIIII!

Nada. Ou melhor… Nadando. Mas me ignorando completamente. Disparei na direção dele. Consegui alcançá-lo. Toquei seu pé. Ele parou.

— O que foi, pai? Vai desistir?

Ele me olhou sem entender absolutamente nada. A máscara já estava com água pela metade.

— Não! Estamos indo pra ilha!

Apontei.

— Mas a ilha é pra lá!

Ele olhou. Pensou. Processou. E respondeu com uma tranquilidade admirável:

— Ah! Então vamos!

E seguimos. Mais uma vez lado a lado. A partir dali, assumi oficialmente o papel de sistema de navegação. De tempos em tempos, como um golfinho particularmente preocupado, eu dava uma cutucada nele para corrigir a rota. Finalmente chegamos. Quando meus pés tocaram a areia da ilha, braços e pernas formigavam por causa do esforço. Eu estava exausto. Mas absurdamente feliz.

Estávamos logo atrás de um dos atletas PCD… que não possuía as duas pernas.

Aquilo atingiu meu pai em cheio. Ele ficou frustrado. Muito frustrado. A ponto de nunca mais querer participar de uma travessia.

Eu, por outro lado, estava vivendo um dos momentos mais felizes da minha vida. Porque não estava pensando em colocação. Não estava pensando em desempenho. Não estava pensando em quem chegou antes. Eu só conseguia pensar:”Eu nadei no mar.”

Saí de um ponto.
Cheguei em outro.
Atravessei.
Ganhei uma medalha.
Ganhei uma camiseta.
E, de quebra, uma memória que me acompanha até hoje.

No fim das contas, brincamos que tínhamos ficado em primeiro e segundo lugar. Só que de trás para frente. Hoje mal lembro nossa colocação verdadeira. Não lembro o tempo que fizemos. Não lembro quantas pessoas participaram. Mas lembro perfeitamente de um homem usando uma máscara de mergulho, seguindo determinado para o lugar errado em pleno mar aberto. E de um filho nadando atrás dele para corrigir a rota.

Talvez porque algumas memórias simplesmente se recusem a afundar.

Ou talvez porque, ao escrever essas linhas, eu percebo que aquela travessia nunca foi sobre natação. Foi sobre dividir uma aventura com meu pai. Durante toda a minha infância, foi ele quem me ensinou o caminho. Foi ele quem me levou às piscinas. Foi ele quem me ensinou a nadar. Foi ele quem ficou atento para que eu não me machucasse, não me perdesse e não acabasse indo parar onde não devia.

Mas naquele dia aconteceu algo curioso. Em pleno mar aberto, por alguns minutos, os papéis se inverteram. Fui eu quem precisou parar. Procurar. Encontrar. E apontar a direção correta.

Não porque ele estivesse perdido de verdade. Apenas porque a vida, de vez em quando, gosta de nos mostrar o futuro em pequenas cenas aparentemente sem importância. Na época eu não percebi. Hoje percebo.

Conforme os anos passam, todos nós acabamos chegando nesse ponto. Um dia nossos pais nos ensinam o caminho. Depois, sem que ninguém anuncie oficialmente a mudança, chega o momento em que começamos a caminhar ao lado deles.

E, eventualmente, há ocasiões em que somos nós quem precisamos ajudá-los a encontrar a direção. Talvez seja por isso que eu guarde essa história com tanto carinho.

Não por causa da medalha.
Nem da camiseta.
Nem dos mil e quinhentos metros.

Mas porque, sem saber, naquele dia eu vivi uma das primeiras demonstrações de que crescer não significa deixar de ser filho. Significa apenas aprender a retribuir o cuidado.

Em 2018, voltei às piscinas tentando reencontrar aquela mesma sensação de felicidade ao concluir um desafio desse tipo.

Mas esse causo… fica para outra ocasião. Prometo!

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