Como se fosse a primeira vez

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Quando percebi que tinha acabado de me apresentar para a minha própria concunhada, já era tarde demais para fingir que aquilo era apenas uma pegadinha.

– Oi, prazer! Eu sou o Geison.

Ela me olhou com aquela expressão educada que mistura surpresa, confusão e incredulidade. Um olhar que dizia, sem dizer nada: “Por quê?”

O problema não era ela.
O problema era eu.

Porque eu deveria saber.

Gihane – que, na época, era apenas minha namorada recente – tem dois irmãos. A cena acontecia na festa de noivado de um deles. E, para os árabes, qualquer ocasião já é motivo de festa. Um noivado, então, vira praticamente um evento de proporções bíblicas. Ou melhor, de “proporções alcorânicas”.

Família reunida, clima festivo, gente se abraçando, gente se conhecendo, gente fingindo que conhece gente. Aquela coreografia delicada em que todo mundo sorri e torce para não confundir o nome de ninguém.

Eu, com poucas semanas de namoro, conhecia quase ninguém. E, mesmo assim, lá estava eu participando ativamente da construção de um novo nível de constrangimento familiar.

Porque Karla, a mulher que eu acabara de cumprimentar como se fosse uma completa desconhecida, era ninguém menos que a pessoa que viria a ser minha concunhada: namorada do Nino, o outro irmão da minha então namorada.

E não uma concunhada distante, dessas que você encontra uma vez por década em casamento de primo.

Não.

Uma semana – deixe-me frisar: uma semana – antes nós tínhamos passado uma noite inteira conversando. Eu, Gihane, ela e o Nino, jogando sinuca em um bar, trocando histórias, rindo, discutindo assuntos profundos, rasos e, principalmente, grandes questões filosóficas da humanidade.

Coisas realmente importantes, como por que a bola oito sempre cai quando não deve ou a importância do giz na eficiência da tacada.

Uma semana.
Sete dias.
Cento e sessenta e oito horas.

Foi esse o tempo que meu cérebro levou para arquivar aquela informação na mesma gaveta onde ficam os códigos de área de telefone fixo e a letra do hino da quarta série.

E ali estava eu, cumprimentando a pessoa como se fosse a primeira vez.

Com direito a nome e cargo.

– Prazer, eu sou o Geison, namorado da Gihane.

O curioso sobre constrangimentos sociais é que normalmente eles acontecem em câmera lenta. No momento em que as palavras saem da boca, ainda existe uma pequena janela de esperança. Um espaço microscópico onde você acredita que talvez tenha se enganado. Talvez aquela pessoa seja apenas muito parecida com a sua concunhada. Talvez exista uma explicação plausível.

No meu caso, não houve esperança. Todas as palavras saíram de forma muito natural e autêntica.

Só me dei conta da besteira depois do acontecido – e apenas porque fui avisado pela própria Gihane.

Aí, depois do sarro devidamente aplicado, só então veio a memória.

Atrasada, como sempre. Mas veio.

E quando vem, ela traz junto aquela sensação física peculiar, como se alguém tivesse apertado um botão interno de ativação de um pequeno instrumento de tortura medieval instalado dentro da mente.

Ou, em termos mais técnicos, a chamada “consciência tardia da burrice”.

Foi nesse momento que meu cérebro finalmente ligou os pontos:

Bar.
Sinuca.
Nino.
Conversas.
Risadas.
Karla.
Concunhada.

E eu ali, em pé, tendo acabado de me apresentar para alguém com quem tinha passado horas conversando dias antes.

Que a memória humana é seletiva, todo mundo sabe. O cérebro decide o que guardar e o que descartar. O meu claramente decidiu preservar informações mais relevantes – tipo o password de um antigo jogo de NES de 1990.

Mas o rosto da minha própria concunhada uma semana depois?

Arquivado em algum lugar entre “coisas não prioritárias” e “vamos ver isso depois”.

A verdade é que a minha memória funciona de um jeito peculiar. Guarda episódios inteiros da infância – um cheiro, uma escada, uma varanda – e, ao mesmo tempo, esquece acontecimentos recentes como se alguém tivesse passado uma borracha neles.

Talvez seja um mecanismo de autopreservação muito mal calibrado.

Talvez seja apenas a prova de que o cérebro humano é, no fundo, um grande sistema operacional rodando com vários bugs.

De qualquer forma, depois daquele episódio desenvolvi uma pequena estratégia de sobrevivência social.

Em eventos de família, não digo mais:

– Prazer, eu sou o Geison.

Agora opto por algo muito mais seguro. Algo universal. Algo que funciona tanto para conhecidos quanto para completos estranhos.

Eu apenas sorrio e digo:

– Opa! Tudo certo?

Se a pessoa já me conhece, responde naturalmente.

Se não conhece, acha que deveria conhecer.

E assim seguimos todos vivendo essa grande convenção social chamada convivência humana.

Porque, no fundo, todos nós estamos apenas fingindo que lembramos de tudo.

E torcendo para que ninguém perceba quando esquecemos.

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