Minha memória funciona de um jeito curioso — para não dizer aleatório. Ela guarda coisas que eu não pedi, não precisava e que não fazem muito sentido no roteiro da minha vida. Tenho, por exemplo, lembranças nítidas dos meus dois anos de idade. Não de choro ou mamadeira, mas do meu Nono subindo as escadas do prédio, da minha mãe levando eu e meu irmão — ele ainda de colo — para brincar na terra de um terreno próximo, e de mim sozinho na varanda, como se já estivesse ensaiando para virar adulto introspectivo.
Eu tento encontrar um padrão nisso tudo. Uma lógica. Um critério. Mas parece que minhas sinapses funcionam como repartição pública: arquivam qualquer coisa que aparece e ainda se orgulham do serviço prestado.
Além dessas memórias triviais, existem os ACONTECIMENTOS — em caixa alta mesmo, porque eles se acham importantes. São episódios que encerram capítulos, bagunçam a alma e reorganizam a vida. Foi pensando nisso, depois de ter escrito meu último texto para a coluna, num desses momentos filosóficos de chuveiro, que resolvi visitar um setor específico dessa biblioteca: minhas interações com o universo feminino.
Antes, um aviso necessário: a dona do meu coração, minha alma gêmea — às vezes metade da laranja, às vezes a laranja inteira — está comigo todos os dias. Sou quem sou porque tudo o que veio antes ajudou a construir quem sou hoje.
A primeira lembrança dessas interações tem nome e sobrenome: Keith Sato. Eu devia ter uns sete ou oito anos e, como todo menino idiota dessa idade, achava que implicar com alguma menina era uma forma interessante de existir. Resultado? Um tapa histórico na sala de música da Escola Imaculada Conceição. Lembro da ardência no rosto, do espanto e da Keith saindo chorando. Keith, se um dia ler isso: desculpa. Eu era insuportável. Você foi justa.
O resto do repertório dispensa detalhes — seria deselegante e, em alguns casos, comprometedor. Mas cada experiência deixou sua marca, como fósseis emocionais escavados sem muita delicadeza.
E se essa história começou com um tapa, era natural que terminasse com um soco.
Uma das minhas últimas incursões amorosas antes de conhecer minha esposa envolveu alguém emocionalmente… imprevisível. O relacionamento era tranquilo — se por “tranquilo” você entender furacão, tsunami e terremoto acontecendo ao mesmo tempo. A máxima diz “Fé nas malucas!”, mas eu nunca tinha visto uma maluca de verdade funcionando em potência máxima até conhecer essa.
Numa noite, ao deixá-la em casa, ouvi:
— Acho que eu não sirvo para você.
E eu, na minha habilidade nata de piorar tudo:
— Pelo visto quem não serve sou eu.Eu deveria ter ficado em silêncio. O silêncio, veja bem, não soca ninguém.
PAFF!
Não um mero tapa, mas um direto de direita preciso demais para amadorismo. Ah! Um detalhe importante a ser citado: ela fazia boxe. Boxe de verdade. O que veio depois foi uma chuva de golpes e eu só consegui levantar a guarda para preservar minha integridade física, moral e tributária.
Consegui sair do carro e pedir que ela sumisse da minha vida. Foi então que presenciei o fenômeno psicológico mais rápido já registrado: a fúria desligou e o choro ligou como um interruptor. A violência virou súplica. E eu só queria ir embora antes que alguém chamasse a polícia — porque se fosse atualmente, certamente essa história estaria presente na forma de vídeo de alguma rede social. A fim de resolver, o mais rápido possível, fiz o que qualquer homem desesperado faz: Menti! Disse que estava tudo bem – mas não estava – só para encerrar o capítulo e preservar o que restava da minha dignidade.
Fui para casa com o rosto latejando, mas com o orgulho intacto. Não revidei. Não devolvi violência.
A pedra fundamental da construção que sou tem incrustado o seguinte mandamento: Em mulher não se bate. Nunca!
E por mais estranho que pareça, minha honra seguiu inteira. Esse evento virou mais uma viga estrutural no conceito mais importante que aprendi: amor próprio. Foi ali que tudo começou a se encaixar.
E por mais absurdo que seja admitir, sou grato por aquela mulher maluca e suas excentricidades. Às vezes a gente se envolve com pessoas cheias de defeitos, cheias de alertas piscando, e mesmo assim insistimos em encarnar o Chris Martin, acreditando piamente que “♫ I’ll try to fix you ♪” vai resolver alguma coisa.
Não resolve.
Nunca resolveu.
Mas rende história.
Essa doida me mostrou o pior que alguém pode oferecer e, ao mostrar o pior, me preparou para “a” melhor.
E “a” melhor… dorme ao meu lado todas as noites.
Termino este texto desejando a você, que está comigo aqui, um feliz Natal! Muita paz, felicidade, amor e boas lembranças. Que suas sinapses abracem com força somente os bons momentos. Para saber dos meus votos para o seu ano novo, volte na semana que vêm!