Há algumas semanas, prometi que voltaria ao assunto da adolescência para narrar uma – única – traquinagem realizada por mim. Bem, como dizia aquele velho programa da TV Educativa: “Senta que lá vem história!”
O ano era 1993. Eu tinha 15 anos e pouco juízo. Estudava no Colégio da Divina Providência, que, como o nome já denuncia, era mais um colégio de freiras na minha vida escolar. Eu era um adolescente introspectivo, quieto, com poucas amizades e uma tendência perigosa a me distrair com qualquer coisa que estivesse ao meu redor. Talvez hoje isso tivesse nome, laudo e medicação. Na época, era só “falta de foco”.
Apesar disso, meu histórico escolar era impecável. Nunca dei trabalho. Nunca fui chamado na direção. Até o dia em que resolvi destruir, sozinho, toda a reputação de bom garoto construída com tanto esforço.
Achei que era uma excelente ideia levar para a escola, além do pouco juízo, uma bisnaga de supercola.
Começou pequeno. Colei uma caneta e uma borracha embaixo da minha carteira. Coisas minhas. Eu não tinha vocação para vandalizar o material alheio. Era uma traquinagem ética, dentro dos meus padrões morais adolescentes.
Foi então que Fabiane, colega de sala cujo nome lembro até hoje, observou a cena e disse que tinha uma ideia melhor para o uso da supercola. Pediu apenas que esperássemos o recreio.
No intervalo, todos saímos e o inspetor, como de costume, trancou as salas. Assim que a porta se fechou, Fabiane colocou supercola direto no buraco da fechadura.
Antes tivesse parado aí.
Num surto inexplicável de competitividade infantil, não poderia sair por baixo. Estudávamos no quarto andar. O caminho até o pátio envolvia oito lances de escada, todos com corrimão. Minha ideia brilhante foi simples: passei supercola em absolutamente todos eles.
Não, a cola não era infinita. Mas era suficiente para causar estragos se usada com parcimônia e irresponsabilidade.
O recreio acabou. Os alunos começaram a subir. Nós ficamos concentrados na porta da sala, aguardando o inspetor. Ele tentou abrir. Tentou de novo. Tentou mais uma vez. Nada.
Fomos deslocados para a sala ao lado, enquanto o problema era resolvido. Até que surgiu a coordenadora, Sônia que entrou, olhou para todos e disse, com uma calma assustadora:
— Já sei que passaram supercola na fechadura. E no corrimão também.
Ao dizer isso, levantou a mão completamente colada. Eu e Fabiane nos entreolhamos tentando, inutilmente, não rir.
Foi quando uma aluna pediu para ir ao banheiro e foi… acompanhada da coordenadora. Nossa delatora: Franciely Freduzeski. Nome que o tempo tratou de manter vivo, já que ela viria a se tornar atriz anos depois. Coincidência ou karma seletivo, nunca saberemos.
Assim que Sônia voltou, com sangue nos olhos e sede de justiça, foi direta:
— Geison e Fabiane, venham comigo. AGORA!
Descemos as escadas quase em silêncio. Fabiane sussurrava para eu negar tudo até a morte. Eu concordava com a cabeça, firme no pacto de silêncio e negação que durou exatamente até sentarmos na frente da coordenadora.
— Eu sei que foram vocês. Só quero saber quem fez o quê.
Antes que o “não” saísse da minha boca, Fabiane começou a chorar.
— Eu passei a cola na fechadura e o Geison no corrimão.
Eu queria ter uma foto da minha cara no momento… Continuei negando efusivamente e Fabiane falava:
— Não adianta! Ela já sabe! Melhor admitir…
No fim das contas, me declarei culpado.
Resultado: bronca monumental, suspensão e a informação adicional de que uma aluna havia tentado deslizar pelo corrimão e ficado com a calça grudada. Um detalhe que só aumentou meu pânico.
Fui mandado para casa mais cedo. E passei o resto do dia aguardando a surra que, nos anos 90, era o modus operandi padrão. Quase um ritual educativo.
Uma hora da tarde, medo.
Duas horas, roendo unhas.
Três horas, imaginando o pior.
Quatro horas, aceitação.
Cinco horas, despedida da vida.Às seis, meu pai chegou.
Minha mãe abriu a porta do quarto e disse:
— Seu pai quer falar com você.
Caminhei até o quarto deles como quem segue pelo corredor da morte. Meu pai estava sentado na cama, recém-saído do banho, assistindo televisão. Mutou o som e disse:
— Senta aqui.
Sentei. Ele me olhou e falou:
— Eu já tive a tua idade. E também fiz muita coisa errada.
Então me contou que, aos 12 anos, subiu na sala mais alta do colégio e usou um caderno inteiro para fazer aviõezinhos de papel, só para vê-los planar até o chão. Foi pego. Apanhou. Aprendeu.
— Eu espero que você tenha aprendido também — disse. — Pelo teu histórico, você está escapando de uma invertida hoje.
A alma voltou para o corpo, agradeceu e prometeu nunca mais sair.
Não apanhei naquele dia. Mas aquela conversa me puniu mais do que qualquer cinto. Desde então, toda vez que pensava em fazer algo muito errado, essa história me visitava.
Hoje, tendo dois filhos, penso em todas as traquinagens que deixei de fazer por causa daquela conversa. E espero ter, com eles, a mesma sabedoria que meu pai teve comigo.
Porque se eu conseguir fazer por eles metade do que meu pai fez por mim, tenho certeza de que estarei deixando dois seres humanos — humanos de verdade — para habitar esse planeta.