Adolescência não vem com manual… e varia conforme o indivíduo.

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Geison Vendramin

Descobri, muito tardiamente, algo que para alguns parece óbvio, mas que para mim foi quase uma revelação espiritual, quase uma epifania. Antes de informar qual a minha grande revelação, preciso contextualizar você com algo um tanto embaraçoso: eu nunca fui um adolescente problemático. Nunca mesmo.
Não me rebelei, não bati portas, não questionei regras. Obedecia. Sempre. Talvez até demais. Eu era o filhinho da mamãe em sua forma mais pura e concentrada.

Sabe a expressão “vaca de presépio”? Pois é. Eu não só sabia o caminho, como caminhava em silêncio, mastigando resignação e olhando para frente, sem jamais cogitar que havia pasto além da cerca.

Sem opinião formada.
Sem ação.
Sem atitude.

Eu apenas passeava pela vida. Uma folha solta, à deriva, navegando com elegância passiva ao sabor da corrente do rio. Se a água ia para a esquerda, eu ia junto. Se estagnava, eu boiava. Nunca pensei em remar.

Hoje, sendo pai de um adolescente “padrão”, consigo mensurar com clareza o quanto a minha adolescência foi um verdadeiro bálsamo para meus pais. Nenhuma ligação da escola, nenhuma reunião emergencial, nenhum “precisamos conversar”. Zero surpresas. Um investimento emocional de baixo risco.

Acho que, para equilibrar o karma familiar, meu irmão assumiu a rebeldia por nós dois. Mas isso é história para outro dia. E provavelmente para outra sessão de terapia.

A adolescência, como se sabe, é um território instável. Um campo minado emocional. Pra quem não sabe, tenho 2 filhos: Uma pré-adolescente de 12 anos e um adolescente padrão, no auge dos seus 16 anos… Há dias em que meu adolescente preferido é um doce: reconhece seu potencial, ajuda, conversa, troca ideias com uma lucidez que muito adulto por aí não consegue sustentar por cinco minutos sem um café forte.
E há outros dias… bem, há dias em que tudo parece invertido. O mundo anda para trás, o humor azeda, a iniciativa entra em greve e o funcionamento geral passa para o modo econômico: poucas ideias, nenhuma pressa e zero colaboração.

Eu estranho. Estranho muito. Porque eu não fui assim.
E é justamente essa ausência de vivência que, vez ou outra, me tira do prumo. A falta de compreensão vira impaciência. A impaciência vira destempero. E, quando percebo, já estou discursando como se estivesse numa assembleia da ONU, tentando negociar a paz mundial com alguém que só quer ficar no quarto.

É aí que entra a Gihane. Que foi adolescente típica em sua época. Experiente. Vivida. Ela assume o papel de apaziguadora, ponte diplomática e tradutora simultânea. Enquanto eu falo em “responsabilidade”, ela traduz para “calma”. Enquanto eu penso em “consequências”, ela aplica “panos quentes”. Funciona. Quase sempre.

De fato, eu não fui assim.
Bem… na verdade, houve uma única exceção.

Um episódio isolado no ensino médio. Uma traquinagem. Pequena, em intenção. Gigantesca em desdobramentos. Daquelas tão absurdas que, se contadas fora de contexto, parecem mentira. Envolveu decisões questionáveis, timing ruim e, de forma absolutamente involuntária, acabou envolvendo alguém que chegou a circular como sub-celebridade da mídia contemporânea.

Nada criminoso.
Nada heroico.
Mas suficientemente constrangedor para merecer uma crônica própria.

Prometo voltar a esse assunto em um futuro muito próximo. Com nomes trocados. Ou não.

Fora esse desvio estatístico, minha ficha seguiu limpa.

Até que um dia, como se alguém tivesse ligado um luminoso de neon piscando em cores berrantes bem na minha frente, a mensagem finalmente apareceu! A grande revelação tardia:

“VOCÊ PODE SER O QUE QUISER NA VIDA.”

Demorei para entender. Muito.
Lembro exatamente o momento em que a ficha caiu: dois dias depois de casar. Eu já tinha 30 anos. Talvez isso tivesse mudado tudo se tivesse acontecido antes. Talvez não tivesse mudado absolutamente nada.

Fico me perguntando:
O que teria sido de mim se soubesse, mais cedo, da autonomia que cada ser humano carrega? Teria atravessado oceanos? Me tornado cidadão do mundo? Descoberto desejos que eu nem sabia que tinha? Ou estaria exatamente aqui, escrevendo estas linhas, só que com histórias mais ousadas para contar?

Essa é uma incógnita insolúvel. O que passou, passou. E o passado, como sabemos, não aceita edição. Apenas interpretação.

Com medo de que meus filhos vivam essa mesma descoberta tardia, coisa que não recomendo a ninguém, faço questão de repetir a eles, como um mantra, sempre que a oportunidade surge:

— Sonhem. Sonhem alto. Tenham grandes objetivos. Vocês podem ser o que quiserem na vida.

E, honestamente, completo mentalmente:

— Desde que eu aprove.

No fim, fica a pergunta que insiste em não calar: até que ponto educamos nossos filhos para serem livres… e até que ponto apenas os treinamos para escolher bem dentro das cercas que nós mesmos, cheios de boas intenções, construímos?

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