Há algumas semanas escrevi sobre idolatria, esse culto meio estranho à personalidade alheia. E confessei, ali mesmo, que já fui um desses idiotas.
No começo dos anos 2000, eu era um admirador doentio do U2. Do tipo que acha perfeitamente razoável mandar um e-mail para um programa de televisão dizendo que faria qualquer coisa para ver a banda. Qualquer coisa mesmo. Inclusive me vestir de Bono.
Dizem para tomar cuidado com o que se deseja.
Eu não tomei.
Dias depois, recebi uma ligação. Do outro lado da linha, Vinicius Lantz, nome que jamais esqueci, foi direto: se eu aparecesse caracterizado de Bono, poderia assistir à apresentação. Desliguei o telefone tomado por uma euforia que antecede os grandes erros e algumas boas histórias.
Começou então a operação “cosplay”. Roupas pretas justas, daquelas que hoje me fariam pedir desculpa ao espelho. Óculos estilosos. Dois brincos, porque o Bono tinha dois e eu só um. Resolvi furar a outra orelha. Eu era loiro. O Bono não. Solução? Pintar o cabelo de azul-petróleo. O resultado final era algo entre “Bono da Shopee” e “sujeito que claramente perdeu uma aposta”.
Faltava convencer meus pais a me deixar ir ao Rio de Janeiro. Usei uma estratégia simples e eficiente: menti. Disse que já tinha tudo organizado. Hospedagem, alimentação, transporte. Só faltava a permissão e a passagem aérea. Eles, tocados pelo meu entusiasmo juvenil e por um excesso de confiança em mim, compraram a ideia.
Literalmente.
Cheguei ao Rio com uma mala, duas mudas de roupa e absolutamente nenhum plano. Pedi ao taxista para me deixar na esquina do Copacabana Palace, onde a banda estava hospedada. Ele presumiu que eu também estivesse. Me deixou na porta. Desci, peguei a mala e fui para o lado, tentando parecer alguém que sabia exatamente o que estava fazendo, enquanto começava a entender que estava completamente sem eira nem beira. Foi nesse momento que ativei uma habilidade raríssima, que só manifestei uma vez na vida: extroversão extrema.
Conversei com absolutamente todo mundo que estava ali. E quando digo todo mundo, não é força de expressão. Até conhecer Elaine de Agustini, uma jovem tão sem planos quanto eu, mas que, diferente de mim, parecia versada na arte da “extroversão extrema”. A filosofia era simples: se estamos sem lugar pra ficar, vamos arrumar juntos. De desconhecido em desconhecido, na mais pura cara de pau, surgiu uma hospedagem improvisada através de uma amizade recém adquirida que dura até os dias de hoje: Vanessa di Blassi. Acabei dormindo num quarto na companhia de mais cinco mulheres. Posso dizer que fui o mais perfeito cavalheiro e o hóspede mais agradecido do hemisfério sul. De quebra, após a garantia de hospedagem, ainda conseguimos um esquema de vans até o Projac.
No dia seguinte, lá estava eu, totalmente paramentado, no famigerado complexo de estúdios da Globo.
Encontrei o Vinicius, que me olhou de cima a baixo e perguntou, visivelmente decepcionado:
— Isso foi o melhor que você conseguiu fazer?
Mesmo assim, me entregou a pulseira de acesso. Vi bastidores. Vi famosos. Vi a banda tocar a três metros de mim. Meu cérebro provavelmente estava mergulhado num coquetel químico ilegal de dopamina, serotonina e ocitocina que certamente me proporcionou alguma espécie de delírio.
Mas ainda não tinha acabado.
Após o show, uma amizade com um segurança, uma informação privilegiada, uma carona solidária (em tempos que Uber sequer era imaginado pela mais criativa das mentes e o custo de uma corrida de taxi tinha quase o valor de um assalto ao banco central) e fomos parar nos Arcos da Lapa, onde a banda gravaria um clipe.
Vi Bono, Adam Clayton e Larry Mullen de perto. Apertei mãos. Pedi autógrafos. Apareci num vídeo exibido na televisão.
Ainda houve uma micro-aventura romântica, improvável para alguém que, até então, nunca “pegava ninguém”.
Não dormi naquela noite.
Na sexta-feira, voltei ao Galeão. Tirei foto com o saudoso Pedro de Lara.
O voo para Curitiba enfrentou turbulência pesada durante todo o percurso, mas naquele momento isso não me causava medo algum. Eu tinha certeza absoluta de uma coisa: tinha zerado a vida.
Hoje, quando lembro dessa história, tenho a sensação de que aquilo não aconteceu comigo. Foi algum conhecido distante, emocionalmente desregulado, que tomou meu corpo. Um sujeito capaz de mentir para os pais, pintar o cabelo de azul-petróleo e chamar isso de plano.
Aquele era o Geison do Rio. Um cara que acreditava que o mundo recompensa ousadia.
O Geison de hoje sabe que, muitas vezes, o mundo apenas observa enquanto você faz papel de idiota com convicção.
E, curiosamente, daquela vez funcionou.
Não sinto exatamente vergonha daquele sujeito. Sinto estranhamento.
O Geison do Rio falava com estranhos, pedia ajuda, improvisava, arriscava.
O Geison atual é mais sensato, mais organizado, mais responsável e muito mais cauteloso, mais econômico com a própria coragem.O Geison do Rio viveu pouco. Teve uma vida de 48 horas. Mas viveu intensamente.
O Geison atual vive mais tempo, porém com mais freios e amarras.O Geison do Rio dizia “sim” antes de pensar no desastre.
O Geison atual pensa no desastre antes mesmo de considerar o “sim”.O Geison do Rio era audacioso.
O atual, é prudente.E talvez o erro não tenha sido ser idiota por 48 horas.
Talvez o erro seja nunca mais ter sido o Geison do Rio.