(inclusive eu, quando esqueço disso)
Corroboro as palavras de Regis Tadeu: “Todo fã é um idiota!”
E acrescento: o fã fanático, então, é um caso perdido.Fã é aquele sujeito que pega um ser humano comum, cheio de falhas, mau humor, chulé, que peida fedido e tem caráter discutível, projetando nele uma versão idealizada, limpa, polida, perfeita quase a nível místico. Uma espécie de santo pop com talento específico.
O problema é que talento não é virtude.
Saber cantar, pintar, escrever, atuar ou trocar o pneu do carro sem se sujar não torna ninguém moralmente superior. Torna esse alguém bom naquilo. Ponto. O resto continua sendo humano, no pior e no melhor sentido da palavra.Mas o fã não quer saber disso. O fã acredita. E acreditar cega.
Não digo isso com soberba, mas por experiência própria. Com profundo conhecimento de causa. Pois já fui esse idiota.
Durante um bom tempo acompanhei um influenciador do nicho automotivo. Assistia aos vídeos, comentava, interagia em lives, achava o cara desenrolado, humilde, acessível. Gente como a gente. Na tela, ele parecia aquele tipo de sujeito que você toparia encontrar num boteco e sairia amigo.
Até que resolvi encontrá-lo fora da tela.
Fui a um evento. Levei presente. Comprei os itens de merchandising — porque fã também acha que comprar camiseta cria vínculo afetivo. A proposta era simples: leve seu carro e o influencer daria uma avaliada, um parecer, uma opinião espirituosa.
Meu carro era o terceiro da fila.
O primeiro foi avaliado com atenção, piadas, simpatia. O segundo, mesma coisa. Sorrisos, brincadeiras, aquele personagem carismático que eu conhecia tão bem… pelo YouTube.
Quando chegou minha vez, ele simplesmente pulou para o quarto carro.
Achei que fosse engano. Questionei, totalmente sem jeito:
— E o HR-V?A resposta veio com a delicadeza de um tiro de doze na cara:
— O que que eu vou querer com um HR-V?O lema do canal? “O melhor carro do mundo é o seu!”. Aham…. sei.
Naquele instante, não fui humilhado. Fui acordado.
Fiquei ali mais um tempo, tentando entender o que tinha acontecido. E no momento que entendi, a vontade de tacar fogo na camiseta e no chaveiro foi grande, confesso. Mas a racionalidade falou mais alto. Hoje, a camiseta virou pano de chão. O chaveiro jaz numa gaveta e jamais viu uma chave. Justiça poética silenciosa.
Deixei de seguir o cara assim que digeri o ocorrido. Não por vingança. Por lucidez tardia.
Aquilo não foi sobre carro. Foi sobre pedestal.
Desde então, desenvolvi uma regra pessoal: quanto mais distante o ídolo, mais seguro fica o encanto.
E isso me leva a uma confissão final.
Mesmo sabendo que todo fã é idiota, existe um cantor pelo qual nutro uma admiração controlada, quase clínica: Till Lindemann. Gosto da obra, do personagem, da estética, da entrega artística. Sou fã? Talvez. Mas daquele jeito leve, desconfiado, com um pé atrás e o outro pronto para correr.
Tenho vontade de conhecê-lo? Não sei. Tenho receio do combo “meet and greet + decepção”. Talvez seja melhor assim. Olhar de longe. Consumir a obra. Respeitar o artista. E não misturar com o ser humano que existe por trás da cortina.
Porque, no fim das contas, idolatria é só uma forma elegante de se preparar para a frustração.
E eu já fui idiota o suficiente.