Um Abraço em Mim Mesmo

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Lá por 2002, eu tinha conta em um banco. Informação que não parece particularmente importante, eu sei. Mas foi graças a ela que conheci uma garota que, para preservar sua identidade — e também porque ela não precisa saber que ainda figura nesta história —, chamarei de Adelaide. Ela trabalhava nesse banco e, por uma dessas coincidências que costumam parecer muito mais significativas quando temos vinte e poucos anos, também estudava na mesma faculdade que eu.

Fazíamos cursos diferentes, mas frequentemente nos encontrávamos pelos corredores. Começamos a conversar. E eu fui me afeiçoando. É importante esclarecer desde já que Adelaide jamais havia demonstrado qualquer interesse romântico por mim.

Nenhum.

Nunca disse que gostava de mim. Nunca tentou me beijar. Nunca sugeriu qualquer coisa que pudesse ser razoavelmente interpretada como interesse. Mas estamos falando de um jovem exemplar do sexo masculino no começo dos anos 2000. Não precisávamos exatamente de evidências. Precisávamos de oportunidades. Certo dia, aconteceria uma festa. Acho que relacionada à faculdade, embora eu honestamente não me lembre. Adelaide perguntou:

— Você vai? A gente poderia ir junto!

Então veio a informação verdadeiramente importante. Ela morava em Santa Felicidade. Eu também. Eu não ia… mas vendo a oportunidade de que alguma coisa pudesse acontecer, em algum lugar dentro da minha cabeça, uma pequena central de monitoramento entrou imediatamente em estado de alerta.

OPA.

Talvez… Vai saber. Respondi sem pensar duas vezes:

— Claro! Estou contando os dias! Vamos juntos sim…

No sábado à noite passei na casa dela. Não lembro se eram nove e meia, dez horas ou algo próximo disso. Lembro da conversa no carro. Foi agradável. Gostoso até. Nada aconteceu. Nenhuma mão encostou acidentalmente na outra. Nenhum olhar demorou dois segundos além do necessário. Nenhuma trilha sonora começou a tocar misteriosamente no rádio. Mas eu estava indo a uma festa com uma garota de quem gostava. Para o Geison de 2002, aquilo já era material suficiente para alimentar algumas expectativas. Precisamos falar sobre esse sujeito.

Vou chamá-lo de Geison do Velho Testamento.

O Geison do Velho Testamento era um rapaz bem-intencionado. Extremamente cavalheiro! Daqueles que abrem a porta para as donzelas… Só que também era inexperiente. Ingênuo. Inseguro. Tinha pouquíssima malícia. E, como veremos em breve, possuía uma capacidade absolutamente extraordinária de permanecer em lugares dos quais qualquer ser humano minimamente dotado de amor próprio já teria ido embora.

Chegamos à festa. O problema é que aquilo parecia ser muito mais relacionado ao curso dela do que ao meu. Ela conhecia gente. Eu não conhecia praticamente ninguém. No começo ficamos juntos. Conversamos. Circulamos. Mas, conforme a noite avançava, Adelaide começou a desaparecer.

— Vou ao banheiro com as meninas.

E lá ia ela. Eu ficava. Depois ela voltava. Algum tempo mais tarde surgia outra coisa para fazer, outra pessoa para encontrar, outro lugar para ir. E eu ficava novamente. Não interpretei imediatamente aquilo como alguma coisa. Resolvi circular também. A festa era grande. Dei algumas voltas tentando encontrar algum conhecido. Não encontrei. Quando voltei, porém, encontrei Adelaide. Aos beijos com outro cara.

Aqui é necessário interromper a história para fazer uma defesa dela. Adelaide não era minha namorada. Não era minha ficante. Não era minha pretendente. Não havia combinado comigo absolutamente nada além de uma carona para uma festa. Como disse no começo, ela nunca havia me dado qualquer sinal concreto de interesse. Portanto, não houve traição. Não houve quebra de acordo. Até porque, não havia acordo. Não houve sequer um acordo para ser quebrado. A maior parte do romance daquela noite provavelmente estava acontecendo em um lugar muito específico: dentro da minha cabeça.

Compreender isso hoje, entretanto, não altera em absolutamente nada o que o Geison do Velho Testamento sentiu naquele momento. Eu estava arrasado. Sentia-me rejeitado. Humilhado. Inferior. Se existisse uma escala oficial para medir autoestima, naquele momento eu estaria localizado em algum ponto entre o cocô do cavalo do bandido e o cocô da mosca que pousou sobre o cocô do cavalo do bandido. Talvez um pouco abaixo. E tomei a atitude madura que se esperaria de um jovem adulto diante daquela situação. Fiquei por perto para que ela pudesse perceber que eu tinha visto.

Sim. Esse era o meu plano.

E funcionou! Ela me viu. Só não aconteceu absolutamente nada depois disso. Era algo entre onze e meia e meia-noite. Eu poderia ter ido embora. Deveria ter ido embora. Qualquer versão minimamente funcional de mim provavelmente teria ido embora. Mas o Geison do Velho Testamento tinha outros planos. Fui para o bar. Tomei alguma coisa. Depois outra. Fiquei sozinho numa festa onde não conhecia ninguém enquanto a garota que eu havia levado estava se divertindo com outra pessoa. E aguentei. Até umas duas da manhã. O que, olhando retrospectivamente, considero uma demonstração impressionante de resistência aplicada à finalidade completamente errada.

Finalmente resolvi tomar uma atitude. Fui até ela. Esperei uma oportunidade entre uma carícia e outra e disse:

— Olha, estou indo embora. Vamos?

Eu gostaria que você reservasse alguns segundos para apreciar a grandiosidade dessa cena. Eu havia levado uma garota para uma festa. Ela passou boa parte da noite me deixando sozinho. Eu a encontrei beijando outro sujeito. Esperei aproximadamente duas horas. E então fui até o casal perguntar se ela gostaria de ir embora comigo. Existem momentos em nossa vida que justificariam a invenção da máquina do tempo apenas para que pudéssemos voltar e dar uma surra em nós mesmos.

Esse é um dos meus.

Mas ainda pioraria. Adelaide respondeu:

— Ah, ainda é muito cedo. Não dá para esperar um pouquinho?

Veja bem. Eu era ingênuo. Inexperiente. Bobo. Talvez até um completo cabaço emocional. Mas é preciso reconhecer que, naquele instante, Adelaide também não conquistaria exatamente o prêmio Nobel da Sensibilidade Humana. Ela poderia ter dito:

— Pode ir. Eu volto com alguém.

— Não se preocupe comigo.

— Obrigada pela carona.

Qualquer coisa. Mas não. Ela pediu para eu esperar. 

E agora chegamos à parte da história que, mesmo depois de mais de vinte anos, continua provocando em mim uma mistura muito específica de vergonha, indignação e vontade de agredir fisicamente meu próprio passado. Eu esperei.

Voltei para o bar. Esperei mais um pouco. Até que me injuriei. Paguei minha conta. Fui embora. Finalmente. Caminhei até o carro. Abri a porta. Entrei. Sentei. E…

esperei dentro do carro.

Não existe justificativa. Não existe atenuante. Não existe recurso em segunda instância. O Geison do Velho Testamento estava sentado sozinho dentro de um carro no estacionamento de uma balada, no meio da madrugada, esperando uma garota terminar de ficar com outro sujeito para poder levá-la confortavelmente até a porta de casa.

Se eu algum dia conseguir construir uma máquina do tempo, existem acontecimentos históricos que a humanidade provavelmente gostaria que eu impedisse. Azar da humanidade. Tenho prioridade. Vou para 2002. E vou me socar até aquele infeliz encontrar algum amor próprio. Adelaide finalmente apareceu por volta das três da manhã. Entrou no carro. E fomos embora.

Não lembro se havia música tocando. Não lembro exatamente qual caminho fiz. Não lembro quanto tempo demoramos. Mas lembro do silêncio.

Eu não disse uma palavra.

E isso talvez diga mais sobre quem eu era naquela época do que todo o resto da história. Eu estava magoado. Com raiva. Sentindo-me rejeitado, renegado, inferior. Dentro da minha cabeça provavelmente existiam cinquenta discursos diferentes. Mas o Geison do Velho Testamento possuía outra habilidade extraordinária:  conseguia pensar em cinquenta coisas que deveriam ser ditas e não dizer nenhuma delas.

Chegamos à casa dela. Parei o carro. Adelaide agradeceu pela noite e pela carona. Abriu a porta. Desceu. Entrou em casa. E acabou. Não houve discussão. Não houve declaração. Não houve uma cena dramática em que finalmente revelei meus sentimentos. Nem sequer houve uma grande lição. Eu simplesmente fui embora me sentindo um lixo.

Passaram-se mais de vinte anos. E ainda penso de vez em quando naquele sujeito sentado dentro do carro. Hoje é muito fácil julgá-lo. E, acredite, eu julgo. Às vezes olho para determinadas atitudes daquele Geison e tenho dificuldade até de reconhecer o sujeito.

Como eu podia ser tão ingênuo?
Como conseguia ignorar sinais que hoje me parecem tão evidentes?
Como podia me colocar numa situação daquelas e, pior, permanecer nela voluntariamente por horas?

Parte da resposta talvez seja simplesmente a idade. A gente vive, quebra a cara algumas vezes e aprende. Mas sei que, no meu caso, houve também um divisor de águas importante. Fiz terapia durante cinco anos e muita coisa que antes eu sequer percebia em meu próprio comportamento passou a ficar um pouco mais visível. Não saí de lá transformado num malandrão master, mestre das relações humanas e intérprete oficial do comportamento alheio. Seria ótimo. 

Continuo entendendo muita coisa errado.
Continuo cometendo erros.
Continuo sendo perfeitamente capaz de interpretar uma situação de maneira completamente equivocada.

A vida ensinou algumas coisas. Aprendi um pouco sobre reciprocidade. Sobre limites. Sobre perceber quando minha presença não é exatamente indispensável. Aprendi que ser gentil não significa aceitar qualquer situação. E que ir embora também pode ser uma forma bastante eficiente de amor próprio. Não me tornei, evidentemente, um exímio mestre nas artes dos relacionamentos humanos. Longe disso. Só acho que fiquei um pouco menos bobo. Um pouco menos ingênuo. Um pouco mais capaz de reconhecer quando é hora de pegar minhas coisas e sair. Mas existe uma coisa que ainda não consegui decidir.

Não sei se sinto saudades do Geison do Velho Testamento. Talvez de algumas coisas. Havia uma inocência ali que inevitavelmente se perde pelo caminho. Mas não tenho nenhuma saudade da falta de amor próprio. Da necessidade de agradar. Da incapacidade de dizer o que estava sentindo. Muito menos daquela disposição sobrenatural para permanecer sentado dentro de um carro esperando alguém que claramente tinha coisas mais interessantes para fazer.

Não quero voltar a ser aquele sujeito. Mas, se pudesse voltar àquela madrugada, talvez sentasse alguns minutos ao lado dele. Não para explicar relacionamentos. Não para dar uma palestra sobre autoestima. Não para entregar a ele vinte e quatro anos de experiência e cinco anos de terapia. Talvez eu lhe desse um abraço porque sabia o que ele estava sentindo. Talvez eu só apontasse para a chave do carro e diria:

— Geison… Ela consegue uma carona. Vai embora.

Compartilhe:

WhatsApp
X
Facebook