Durante algum tempo fiz terapia com uma psicóloga. Sempre me sentei na poltrona em frente à doutora. Cara a cara. Eu acreditava que o contato visual tornava a sessão mais eficiente. Parecia lógico: duas pessoas conversando, trocando olhares, construindo entendimento.
Ela, por outro lado, insistia no divã.
– Pode se deitar, se quiser.
Eu nunca quis.
Aquele móvel sempre me pareceu teatral demais. Coisa de filme. Um sujeito deitado olhando para o teto enquanto alguém toma notas silenciosas ao fundo. Preferia o formato tradicional: conversa civilizada entre dois adultos sentados.
Mas a doutora era paciente. Não insistia com força; apenas sugeria de tempos em tempos.
Até que um dia apresentou um argumento que, confesso, me desmontou.
Ela explicou que, no confessionário católico, parte da coragem para confessar pecados vergonhosos vem justamente da ausência de contato visual. A pessoa fala mais livremente quando não precisa encarar o olhar do outro.
– Não que você tenha transgressões particularmente vergonhosas – acrescentou com cuidado clínico -, mas às vezes o divã ajuda exatamente nisso. A falta de contato visual pode trazer coisas importantes à tona.
Achei o raciocínio interessante.
E cedi.
Deitei no famigerado móvel padrão dos consultórios de psicologia.
Confesso que, no início, foi estranho. Ficar olhando para o teto enquanto alguém escuta sua vida inteira sendo despejada em parcelas semanais exige certo desapego da própria dignidade.
Mas logo me acostumei.
Comecei a falar.
Falei das inquietações, das dúvidas, das pequenas paranoias cotidianas, das grandes questões existenciais, das minhas falhas, das minhas convicções e das minhas teorias improváveis sobre a vida.
Falei bastante.
Aliás, falei muito.
Em determinado momento, senti que tinha chegado a um ponto particularmente interessante da reflexão. Algo que merecia, no mínimo, um comentário técnico da especialista.
Parei de falar e esperei a avaliação da doutora.
Silêncio.
Esperei mais alguns segundos.
Nada.
Achei estranho.
Foi quando, no recém-instalado silêncio do consultório, ouvi um sucinto, discreto e quase inaudível ronco. Levantei levemente a cabeça para olhar.
Foi então que percebi que, enquanto eu relatava meus dramas e mazelas mais profundas, a boa doutora havia adormecido.
Dormindo profundamente.
Algo longe de ser um cochilo discreto. Cabeça inclinada, respiração longa e tranquila, aquela paz que geralmente só aparece depois de um almoço reforçado de domingo.
E foi nesse momento que uma dúvida terrível começou a surgir.
O quão tediosa é a minha vida?
Afinal de contas, ali estava uma profissional treinada justamente para escutar as pessoas. Uma especialista em ouvir dramas alheios. Uma verdadeira professional listener.
E ela dormiu.
Enquanto.
Eu.
Falava.Isso inevitavelmente me levou a uma reflexão ainda mais incômoda e que persiste ao longo dos anos. Às vezes, quando estou escrevendo minhas crônicas, um velho fantasma, que me assombra desde então, aparece nos cantos da minha mente e sussurra:
“Por que exatamente alguém se interessaria por isso?”
Talvez minha vida seja realmente tão tediosa que consiga colocar uma terapeuta para dormir.
Se for esse o caso, talvez eu devesse parar de escrever e investir em algo mais útil para a sociedade.
Tipo gravar áudios de meditação guiada para combate à insônia.
De qualquer forma, naquele momento específico, não tive coragem de acordá-la.
Levantei devagar, aplicando técnicas ninja de deslocamento silencioso e saí do consultório.
Sem fazer barulho.
Hoje, olhando em retrospecto, ainda não sei exatamente o que aconteceu naquela sessão.
Apesar de o ocorrido ter plantado a semente da insegurança – que poderia florescer rendendo muitas outras sessões -, reconheço que esta, em particular, teve um efeito terapêutico importante.
Pelo menos para a doutora.