A Mão Estendida

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Existem decisões ruins. Existem decisões péssimas. E existem aquelas que, mais de vinte anos depois, ainda fazem você olhar para o teto e perguntar:

— Como foi que eu achei que isso daria certo?

Aconteceu numa sexta-feira, 10 de agosto de 2001. Lembro da data com uma precisão que meu cérebro normalmente reserva apenas para traumas e boletos. Nunca gostei muito de agosto. Não que eu seja supersticioso. Muito pelo contrário. Mas, de vez em quando, a vida parece particularmente empenhada em trair nossas convicções. Eu havia entrado fazia pouco tempo na faculdade de Publicidade e Propaganda e estava naquela fase em que todo mundo parece interessante, qualquer conversa pode resultar numa amizade para a vida inteira e frequentar um boteco depois da aula soa como parte indispensável da formação acadêmica. Foi numa dessas incursões que começou a noite mais desastrosa da minha vida até então.

Saí do campus com dois colegas: Samir, que se tornou um grande amigo e continua presente na minha vida, e um sujeito que chamarei de Paquito, por razões que logo ficarão evidentes. Como já mencionado em colunas anteriores, minha resistência etílica sempre foi uma lástima. Algumas pessoas bebem durante horas e ainda conseguem discutir filosofia. Eu, depois de algumas cervejas, já começo a ter dificuldades para localizar a porta. Tenho poucas lembranças daquela noite. Apenas flashes desconexos de uma espécie de peregrinação pelos bares de Curitiba. Em algum momento, deixei Samir em casa. Pelo menos foi o que me contaram depois. A partir daí, porém, minhas lembranças voltam a ficar estranhamente nítidas.

Paquito morava perto da minha casa. O plano era deixá-lo e finalmente encerrar a noite. Antes disso, ele sugeriu que comêssemos um cachorro-quente preparado por um amigo em comum. Como o bairro era tranquilo e meu senso de prudência havia encerrado o expediente, deixei a chave na ignição. Depois do cachorro-quente, Paquito, tão bêbado quanto eu, sentou-se no banco do motorista.

— Eu vou dirigindo até em casa.

Eram apenas duas quadras. Duas. É impressionante como algumas das maiores tragédias pessoais começam com distâncias aparentemente inofensivas. Depois de uma oposição breve e completamente incompatível com a gravidade da situação, acabei cedendo. Afinal, eram só duas quadras. Que mal poderia acontecer?

Partimos. Ele passou pela entrada da própria casa.

— Para onde você está indo?

Em vez de reduzir a velocidade, ele acelerou.

— Relaxa! Vamos procurar algumas profissionais do entretenimento noturno.

Estou preservando a linguagem porque esta ainda é uma crônica voltada à tradicional família brasileira. Comecei a insistir para que ele desse meia-volta. Eu realmente queria ir embora. Talvez meu organismo finalmente tivesse conseguido informar ao cérebro que todas as decisões daquela noite estavam sendo equivocadas. Então surgiu uma curva. Não era perigosa, fechada ou particularmente desafiadora. Era o tipo de curva que uma criança de dois anos provavelmente conseguiria fazer, desde que estivesse sóbria e alcançasse os pedais. Paquito, sendo um exímio braço de foca, passou reto.

O carro bateu num barranco.

Meu Corsa, com apenas quatro mil quilômetros rodados, ficou com a suspensão dianteira destruída e completamente imobilizado.

Durante alguns segundos, houve silêncio. Olhei para ele.

— Você está bem?

Não perguntei pelo carro. Não gritei. Não tentei estrangulá-lo. Perguntei se ele estava bem. Até hoje não sei se isso revela grandeza de caráter ou apenas lentidão para compreender o tamanho do prejuízo. Ele começou a chorar. Disse que havia estragado tudo, que estava ferrado e não sabia o que fazer. Tentei acalmá-lo.

— Se você não se machucou, está tudo certo. O prejuízo a gente resolve.

Ele prometeu que pagaria o conserto. Afinal, prometer é de graça. Voltei para casa de carona no guincho e fui devidamente execrado pelos meus pais. Como havia entregado o volante, não existia muita margem para defesa. O conserto foi uma tragédia por pura incompetência da oficina, o carro nunca mais ficou igual e Paquito sempre tinha uma desculpa para não pagar. Os meses passaram. Até que ele abandonou a faculdade e sumiu. Como morava perto, acabei encontrando-o algum tempo depois e cobrei a dívida. Ele abaixou os olhos e, com a voz embargada, disse:

— Cara, larguei o curso porque perdi meu pai.

Naquele instante, todo o meu ressentimento perdeu força. O conserto pareceu pequeno diante daquilo. Eu me compadeci. Dei mais prazo. Não fazia sentido pressionar alguém que acabara de perder o pai. Meses depois, um colega veio me contar que havia encontrado Paquito. Durante a conversa, ele se gabara de ter batido meu carro, nunca ter pago o prejuízo e inventado a morte do próprio pai para que eu parasse de cobrá-lo. O pai, aliás, gozava de plena saúde.

Existem mentiras que provocam raiva. Outras provocam tristeza. Aquela provocou vergonha.

Não vergonha dele. Vergonha de mim.

Como pude acreditar? Como pude ter sido tão ingênuo? Ou, sendo mais direto, tão idiota?

A última vez que vi Paquito foi numa balada, alguns anos depois. Ele se aproximou como se nada tivesse acontecido e estendeu a mão. Olhei para ele. Depois para a mão. Então voltei a olhar para ele.

Não disse uma palavra. Apenas movi a cabeça negativamente.

Ele deu de ombros.

— Tá bom…

E foi embora. Nunca mais o vi.

Durante muito tempo, achei que a pior decisão daquela noite havia sido entregar meu carro a um bêbado. Evidentemente, foi uma estupidez monumental. Mas hoje percebo que o carro foi apenas o primeiro estrago. Durante anos, considerei minha confiança uma prova de burrice. Achei que a vergonha de ter sido enganado pertencia a mim. Não pertencia.

Eu errei ao beber, ao dirigir e ao entregar a chave. Mas acreditar que alguém cumpriria a própria palavra não deveria ser motivo de vergonha. Muito menos acreditar que uma pessoa não seria capaz de inventar a morte do próprio pai para escapar de uma dívida. A vergonha era dele. Eu apenas a carreguei por engano durante tempo demais.

Talvez tenha sido isso que compreendi quando recusei aquela mão estendida.

Não era vingança. Nem orgulho.

Era apenas o reconhecimento de que algumas distâncias são maiores do que parecem.
Naquela noite, eram só duas quadras.
E levei anos para finalmente chegar ao fim delas.

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