Apagão

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Você certamente conhece aquela velha piada de salão sobre o sujeito que toma todas na bodega, chega em casa de madrugada fazendo um escândalo público, destrói os móveis da sala, vomita no tapete e, mesmo assim, acorda no dia seguinte com um copo d’água e uma aspirina no criado-mudo. O milagre? É que no auge do delírio alcoólico, quando a esposa tentou tirar a calça suja dele no chuveiro, ele chorou desesperado: “Para, moça! Você é linda, mas eu sou casado e amo a minha mulher!”.

Como quase todo causo de churrasco, a história só faz rir porque, no fundo, a gente se identifica com a lógica do delírio etílico. É o tipo de presepada leve que a gente conta para animar a mesa. No entanto, deixando a ficção de lado, decidi usar o espaço desta coluna para abrir o meu prontuário mais honesto e confidenciar o verdadeiro soco no estômago que me convenceu a parar de beber definitivamente. A minha verdade biográfica não teve nenhuma graça, não teve finais românticos no chuveiro e aconteceu com data marcada: 7 de dezembro de 2017.

Eu nunca fui um sujeito dotado de uma respeitável resistência ao álcool; o meu físico definitivamente não veio blindado de fábrica para maratonas. O cenário do meu colapso foi a festa de encerramento de ano do grupo de vôlei da minha esposa. Como eu era o único ali que não praticava o esporte, decidiram por conveniência que eu seria o candidato ideal para cuidar da grelha.

Fui assando e bebendo. No começo, apenas cerveja gelada para aguentar o calor do carvão. Tudo sob relativo controle, até que um rapaz cruzou o portão trazendo uma garrafa de vodca de baunilha. Enxerguei ali a oportunidade perfeita para chapar o coco fazendo o perigoso “submarino” — aquela mistura atômica que consiste em embutir uma dose de vodca direto no copo de cerveja.

Daquele momento em diante, o meu sistema operacional entrou em pane geral. Minha última lembrança consciente na beira do fogo foi por volta das três horas da tarde. O resto do sábado sumiu em um breu absoluto.

A primeira imagem pós-apagão só se materializou às três horas da manhã. Acordei na minha própria cama com uma baita dor na perna e uma vontade avassaladora de fazer xixi. No banheiro, passei a mão pela panturrilha e senti um relevo áspero: havia dezenas de pedrinhas grudadas na pele. Minha perna estava inteira, absurdamente ralada, no vivo. Naquele momento fiquei em dúvida qual ferimento seria maior: o da minha perna ou da minha dignidade. Voltei a dormir sofrendo por antecipação pelo tamanho do sermão que me aguardava.

Quando o sol nasceu, a minha esposa entregou o relatório completo do vexame: a carne tinha queimado sob o meu comando, eu declarei amor eterno para perfeitos desconhecidos e, na hora de ir embora, ela foi avisada por uma amiga que o churrasqueiro estava estatelado de cara no chão, desmaiado sobre a brita do estacionamento.

Mas o detalhe que fez o meu sangue congelar na veia veio logo em seguida. No auge do pileque, quando fui de encontro ao chão totalmente incapacitado, estava tentando caminhar em direção ao carro carregando no colo a minha filha, que na época tinha apenas dois anos de idade. Juro que cada vez que penso nesse exato momento da minha vida, minha alma tem calafrios só de imaginar o pior cenário que poderia se desenrolar.

Segundo a minha esposa, antes mesmo de o efeito do álcool passar, eu já demonstrava sinais claros de arrependimento. Mesmo ébrio, eu tive a exata e apavorante noção do abismo que quase causei por pura irresponsabilidade. Um bêbado consciente, veja só…

Foi assim, encarando o erro mais perigoso da minha história, que desde aquele dia abandonei os prazeres alcoólicos. Não que eu tenha me transformado em um abstêmio monge radical; às vezes, em um dia de calor senegalesco, uma única cerveja trincando é muito mais refrescante do que o copo de água mais gelado. Mas a trava de segurança foi instalada com sucesso: eu nunca mais passo de um copo. Não deixo mais o álcool entorpecer minha mente.

Algumas piadas a gente conta para fazer a sala rir. Mas certas verdades a gente vive para aprender, de uma vez por todas, a proteger o que realmente importa.

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