Comunicação em Libras

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Mais uma da série “Causos da Copiadora”. Pois a firma, ainda tem muita tinta pra imprimir suas histórias.

Em 2008, eu tinha aberto mais uma copiadora no centro de Curitiba. Expandindo o empreendimento, sempre com o apoio e incentivo da Gihane.

A loja ficava dentro de uma galeria que ficava ao lado de uma instituição de ensino voltada a pessoas com necessidades especiais. Era comum ver grupos de jovens pela região, conversando em Libras com uma intensidade que, muitas vezes, parecia mais expressiva do que qualquer discussão em voz alta. Eles faziam parte da paisagem. Até o dia em que a paisagem resolveu adentrar a porta.

Um desses jovens entrou na copiadora. Não conheço Libras, mas sou versado no “Imagem e Ação”, então mimica é comigo mesmo. Pelos gestos, entendi o que ele queria: usar o computador com acesso à internet. Na época, eu tinha apenas um terminal.

Liberei. Era uma da tarde.

Meia hora depois, me chamou emitindo os sons que podia, e apontou para um chocolate no balcão. Entreguei. Relação comercial simples. Eu forneço. Você consome. Você paga. A base invisível que sustenta qualquer tentativa de civilização.

Às duas, outro chocolate.
Às duas e meia, outro.
Às três, mais um.
Às três e quinze, mais outro.

E assim sucessivamente, como se estivéssemos participando de um experimento social sobre até onde vai a boa vontade alheia.

Enquanto isso, clientes chegavam.

– Tem computador disponível?

– Infelizmente, não.

E iam embora. Educadamente e visivelmente frustrados.

O jovem permanecia. Concentrado. Produtivo. Rodeado por um crescente cemitério de embalagens de chocolate.

Às cinco da tarde, ele simplesmente levantou. E começou a ir embora. Sem olhar para trás.

Sem pagar. Sem culpa aparente.

Foi nesse momento que meu senso de realidade, sempre alguns segundos atrasado, finalmente decidiu entrar em operação. Corri até a porta.

– Amigo, você precisa pagar.

Ele me olhou com calma. Com cara de alface plantado. Apontando para os ouvidos e dando a entender que não escutava.

– Computador! (apontei o computador) Você! (apontei pra ele) Comeu! (fiz sinal de levar chocolate na boca) Dinheiro! (fiz o gesto universal do dinheiro, esfregando o polegar e o indicador) Cadê?  (fiz gesto de um “e aí?”) Confesso que minha capacidade de comunicação em Libras é algo inexistente, especialmente em momentos onde a pressão arterial atinge níveis preocupantes devido ao stress.

– Ah-ba-ba! – verbalizou ele, fazendo o mesmo gesto do dinheiro com uma mão e, com a outra mão, sinalizou:

não.

Não havia dinheiro. Não havia negociação. Não havia, sequer, constrangimento. Naquele instante, fui tomado por um sentimento raro: confiança no sistema.

Pedi para a Gihane segurar a situação e fui até um módulo policial. Chegando lá, encontrei o guarda e expliquei tudo. Convicto. Esperando justiça. Ou, no mínimo, coerência.

O policial ouviu. Pensou. E disse:

– Volta lá e libera ele.

Achei que não tinha sido claro. Reexpliquei.

Ele manteve a resposta.

– Você está cometendo cárcere privado.

– Mas ele não pagou – insisti, ainda apegado a uma lógica que, aparentemente, não tinha validade jurídica naquele momento.

– Eu sei. Mas, se isso virar problema, o problema vai ser maior pra você.

Saí dali com uma descoberta incômoda: em determinadas circunstâncias, a linha que separa vítima e infrator não é exatamente uma linha. É uma sugestão.

Voltei para a copiadora. Caminhando mais devagar do que o normal. Com um gosto amargo na boca.

Não por medo. Por reflexão.

Expliquei a situação para a Gihane e, obedecendo ao bom senso… ou ao instinto de autopreservação… liberamos o jovem.

Ele foi embora. Com a tranquilidade de quem nunca esteve em conflito com nada. Nem com a lei. Nem com a lógica. Nem com o conceito de pagamento.

Fiquei ali. Olhando para o prejuízo. A montanha de embalagens que se acumulava por cima do teclado. Para o tempo perdido e, principalmente, para a sensação desconfortável de que, em algum nível, eu tinha acabado de ser educado.

Naquele dia, aprendi algumas coisas.

A primeira: nem toda transação envolve dinheiro. Algumas envolvem aprendizado.

A segunda: justiça e lógica raramente dividem o mesmo espaço.

E a terceira, talvez a mais importante: existem situações em que você está absolutamente certo… e ainda assim é você quem está errado.

Desde então, sempre que alguém entra na minha loja – ou na minha vida – com muita tranquilidade e pouca explicação… eu fico atento.

Não ao que a pessoa está dizendo. Mas ao que, muito provavelmente, eu ainda não entendi.

Porque, como descobri naquele dia… às vezes o prejuízo não está no que você perde.

Está no momento exato em que você percebe que nunca teve controle nenhum da situação.

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