— A Caminhonete —
No capítulo anterior, finalmente “o último primeiro beijo” rolou.
E, como se o universo tivesse decidido colaborar, surgiu a possibilidade de passarmos mais tempo juntos — uma viagem oportuna de amigos em comum.
Na manhã seguinte — ou, sendo mais honesto, perto do meio-dia — liguei pra ela:
— Oi, estou indo buscar o Shadow. Posso passar pra te buscar?
— Pode sim. Vou estar te esperando.Descobri depois que ela não acreditava que eu realmente manteria a palavra. Achou que era daquelas promessas leves… que a gente faz e deixa evaporar. Quando percebeu que eu realmente iria, se apressou. E ficou surpresa. De um jeito bom.
Peguei emprestada a caminhonete do meu pai. Guarde esse detalhe. Ele é importante.
Passei na casa do Shadow e segui até o apartamento dela. Antes mesmo de parar, o cheiro das esfirras — obra da minha futura sogra — já dominava a rua inteira. Enquanto isso, do lado de dentro… Gihane apareceu na janela, atendendo a buzina e confirmando que era eu. E foi ali que nasceu um problema que eu nem sabia que existia.
— Nossa, que cara mané, Suelen… Por que ele está se mostrando desse jeito? Tá querendo aparecer chegando com carro diferente? Não precisa disso… acabou de cair no meu conceito… — caminhonete do meu pai, lembra? Ela achou que eu estava me exibindo. E eu… não fazia a menor ideia. Segura aí que você já vai entender.
Entrou no carro. Beijo xoxo. Estranhei e não entendi. Tentei quebrar o gelo falando do cheiro das esfirras. Ela respondeu que eram feitas pela mãe. E que, por estar viajando sem a aprovação dela… não poderia levar nenhuma. Ali, sem aviso, uma pequena tensão entrou no carro. E ficou.
A estrada estava tranquila. O trânsito fluía. O clima dentro da caminhonete, não. Eu, que nunca fui exatamente um especialista em comportamento feminino, optei pela estratégia mais covarde e mais segura ao mesmo tempo: o silêncio respeitoso. Até que o Shadow, do banco de trás, resolveu salvar o roteiro.
— Geisão… por que a gente tá de caminhonete e não de Mégane?
Respirei e expliquei:
— Meu carro tá com problema na suspensão. Pegar estrada assim seria arriscado. Não queria, mas peguei a caminhonete do meu pai pra não colocar ninguém em risco.
E foi ali que tudo virou. Não de forma barulhenta. Mas definitiva. O gelo derreteu e o olhar mudou. Depois, ela me contou: tinha me julgado. Achou que eu estava tentando impressionar e percebeu que estava completamente errada.
Seguimos ouvindo Rammstein. E ali descobrimos mais uma coincidência. Chegamos e nos instalamos.
Começamos a conversar e o tempo desapareceu. Até que, em algum momento, Suelen e Shadow anunciaram que iam dormir. E foram. Mas eu e ela… ficamos.
Acordados.
Presentes.
Interessados.E foi ali que, talvez, tudo realmente começou. Conversamos por horas. Sobre tudo. Gostos, histórias, pessoas em comum… Descobrimos que já tínhamos dividido o mesmo espaço por anos. Pegávamos o mesmo ônibus, no mesmo ponto e no mesmo horário. Mas, ainda assim… Não nos percebemos. Porque o destino — como sempre, esse velho calhorda — tem um senso de humor bem peculiar. Quando demos conta… os pássaros estavam cantando.
Tinha amanhecido.
E, até ali, eu nunca tinha passado tanto tempo conversando com alguém… e gostando de cada segundo disso. Resolvemos dormir pelo menos um pouco. Só o suficiente pra fingir que tínhamos energia no dia seguinte.
O fim de semana foi… absurdo. No melhor sentido possível. Praia, riso, romance, conexão.
Voltamos pra Curitiba. E, ao deixá-la em casa, eu não fazia a menor ideia… do tamanho que aquela pessoa ganharia na minha vida. Começamos a nos falar todos os dias. Pelo saudoso MSN Messenger — Saudade de um mundo que fazia barulhinho antes de alguém entrar na sua vida — Até que, em uma dessas chamadas… eu resolvi ser criativo.
Recém saído do banho, o MSN tocou. Era ela. Tive uma ideia inusitada:
“por que não atender só de toalha?”Parecia uma boa ideia. Jurava que parecia. Atendi.
Descobri, em tempo real, que além dela… a mãe também estava no quarto. Não existe palavra suficiente pra descrever o meu nível de constrangimento.
Os dias passaram. Os encontros ficaram mais frequentes. A presença, mais natural. Até que, um dia, ela sugeriu:
— A gente podia almoçar juntos qualquer dia desses.
— Eu gostaria muito.
Marcamos. Centro de Curitiba. Um restaurante que ela gostava em uma galeria, perto da loja dela. Fui até o shopping. Procurei. Rodei. De corredor em corredor… até achar. Nos cumprimentamos. Ela me apresentou à assistente. E disse, como se não fosse nada demais:
— Vamos só passar na loja da minha mãe avisar que estamos indo.
Ali… eu congelei. Porque, além do episódio da toalha… eu já sabia de mais uma coisa: a Dona Soraia não via com bons olhos relacionamentos fora da cultura árabe. E, de repente… eu estava indo me apresentar.
O detalhe? Eu já tinha passado por ela antes. Sem saber. Sem perceber. Sem chance de uma primeira impressão decente.
Quando chegou a hora… tudo que consegui foi um: “muito prazer” carregado de uma mistura honesta de timidez, vergonha… e puro constrangimento.
Fomos almoçar. Restaurante simples. Comida boa, daquelas que não precisam impressionar.
Depois, dentro da galeria, parei diante de uma placa de “aluga-se” em uma loja vazia. E, meio sem pensar, disse:
— Engraçado… não vi nenhuma copiadora por aqui. — Como se eu fosse algum tipo de especialista em observar o mundo. O que claramente não sou. Ela respondeu, na lata:
— E por que você não monta uma aqui?
Eu ri de leve.
— É… quem sabe.
Sem convicção. Sem plano. Sem a menor ideia… do que aquela frase ainda ia causar.
Mas isso… fica pro próximo capítulo. Porque é ali que entram: parceria, dúvidas… e, claro, mais alguns momentos embaraçosos. Acredite… eles não seriam poucos.
Ficou curioso? A parte 4 já está pronta e estreia por aqui dia 8 de junho!