Hora de confidenciar mais um mico existencial.
Existia um personagem no velho programa humorístico A Praça é Nossa — que, confesso, nem sei se ainda passa — chamado Aparício. Ou Explicadinho. A memória já não ajuda muito, mas o bordão ficou:
“Eu gosto de tudo explicadinho nos miiiiinimos detalhes!”
E talvez esse tenha sido o meu primeiro erro.
Pra explicar isso e fazer você entender, precisamos voltar no tempo.
1991.
O jovem Geison já trabalhava… e investia com disciplina todo o seu suado dinheirinho em histórias em quadrinhos, na banca do seu Wilson.
Sim… bancas existiam. E eram ótimas. O mundo era um tanto menos imediatista e, majoritariamente, off-line. Pelo menos no quesito manchetes, pois todos os dias, os últimos fatos vinham impressos em papel jornal que era vendido muito rapidamente. Arrisco dizer que naquele local, nasciam muitos leitores. Eu fui um deles.
Homem-Aranha, X-Men, Wolverine. A felicidade era tanta que quase gritava “Avante!” a cada nova edição de Vingadores.
Diferente da geração atual, em que a atenção se perde quando o video do TikTok passa dos 15 segundos, os gibis me prendiam por horas. Eu não apenas lia. Eu observava. Analisava. Consumia. Devorava. Me prendia aos detalhes com um zelo total. Atenção quase científica. Os detalhes de cada quadradinho em cada página. Toda nuance tinha valor. É curioso como a vida, às vezes, acaba cobrando caro por esse tipo de zelo.
O almoço em casa era um ritual. Família reunida. Presença. Conversa. Não era só sobre comer. Era sobre estar. Conviver.
Até aquele sábado.
Eu estava completamente imerso em um gibi quando veio o chamado:
— O almoço está pronto!Fui. E levei o gibi junto. Não por rebeldia. Mas por pura incapacidade momentânea de sair daquele universo. Sentamos todos à mesa.
Menos eu… meu corpo até estava ali, mas minha mente estava em Nova York testemunhando o confronto épico do Homem-Aranha com o vilão da vez.
Meu pai, com toda a razão do mundo, chamou minha atenção:
— Nada de revista na mesa!E foi ali… exatamente ali… como diz aquela música: “naquele maldito momento”, que entrou em cena o meu lado “explicadinho”. A necessidade quase patológica de corrigir o detalhe. De ajustar a nomenclatura. De colocar cada coisa no seu devido lugar.
— Não é revista… é gibi.
Existe uma frase que diz: “Palavra falada é pedra lançada.”
Naquele momento… eu arremessei um pedregulho que errou o alvo por quilômetros de distância. Porque o que veio depois não foi uma bronca. Foi muito pior.
Foi um bordão.
A partir daquele dia, qualquer tentativa minha de argumentação… qualquer uma, era imediatamente desarmada com:
— É, Geison… não é revista… é gibi…
E não importava o assunto. Podia ser trivial. Podia ser profundo. Podia ser existencial. Era eu abrir a boca… e lá vinha a pedra, de volta.
Com precisão.
Com timing.
Com efeito devastador.Aquilo atravessou anos. Décadas. E acabou chegando ao conhecimento da psicóloga em uma das sessões de terapia. A doutora, com toda a serenidade que só quem não viveu aquilo pode ter, sugeriu:
— Se isso te incomoda… você precisa dizer.
E eu disse.
Munido de coragem… e de alguma humildade, procurei meu pai. Expliquei. Abri o jogo e o coração. Falei do incômodo, da dor, da vergonha, do peso, de todo histórico que acompanhava o pacote.
Ele ouviu. Com atenção. Com respeito. E, sendo um ser humano incrível e um pai excepcional, respondeu da forma mais honesta possível:
— Eu não fazia ideia de que isso te machucava tanto. A partir de agora… não falo mais isso.
Naquele momento… eu senti paz, acompanhado de um grande alívio. Um sentimento de libertação.
E, de fato, a frequência diminuiu. Drasticamente. Só acontece que algumas coisas não acabam.
Elas só… entram “stand by”.
Naquele estado de dormência.
Esperando o momento oportuno.
Espreitando.Porque, vez ou outra… quase sempre com um leve sorriso no canto da boca… quando os planetas se alinham e o timing é perfeito, ele ainda solta:
— Pois é… Não é revista, Geison… é gibi.
Ainda dói… e aí eu entendo duas coisas.
A primeira: algumas lições realmente ficam.E a segunda… talvez a mais importante: existem batalhas que você vence… mas nunca deixa de perder.