— Mudança(s) —
No capítulo anterior, uma proposta irrecusável surgiu à mesa. Depois de uma épica batalha interna entre meu orgulho e o amor que sentia pela Gihane, o orgulho resolveu jogar a toalha e se render à vontade de fazer feliz aquela que viria a ser minha esposa.
Só que então entrou em cena mais um elemento recorrente na vida de qualquer ser humano:
o tempo.
Era uma terça-feira quando soubemos que a Tia Irani bancaria a cerimônia e a festa de casamento. O pequeno detalhe era que tudo precisava acontecer em velocidade terminal, porque uma viagem previamente marcada para o Oriente Médio fazia parte da agenda dela.
— Sábado da semana que vem. — disse Gihane, com a tranquilidade de quem sugere pedir pizza.
— Daqui onze dias??? — respondi num misto de espanto e pane sistêmica.
— É! Essa semana já vamos ver roupa, dá tempo de falar com o Sheik e a tia disse que do resto ela cuida.
Na cabeça da Gihane, tudo parecia simples. Planejado. Sob controle.
Na minha, o macaquinho que bate prato simplesmente parou de funcionar e ficou me encarando com expressão de:
“Oi?”
Fui pra casa naquela noite carregando a missão de contar aos meus pais que eu iria casar.
Em onze dias.
Cheguei no quarto deles. Luz apagada. TV ligada. Assistiam alguma coisa que honestamente não lembro o que era. Anunciei minha chegada e entrei.
Parei aos pés da cama.
— Pai… mãe… vou casar.
Meu pai respondeu com uma calma quase sobrenatural:
— Ah, que bom, filho… e pra quando é?
Num tom tão casual quanto quem pergunta: “Como foi o seu dia?”
Respirei fundo.
— Sábado.
— Legal… mas de que mês?
— Da semana que vem.
A TV foi mutada.
A luz acesa.
E meus pais, que segundos antes assistiam televisão tranquilamente deitados, agora estavam sentados na cama olhando pra mim como quem presencia alguém anunciar espontaneamente uma viagem só de ida para Marte.
— Como assim semana que vem, Geison? Assim… do nada? Questionou minha mãe com notável espanto.
Expliquei toda a sequência caótica de acontecimentos. O sobrado. O ultimato involuntário da Tia Irani. A questão religiosa. O casamento relâmpago.
Eles aceitaram. Meio assustados. Meio contrariados. Mas aceitaram.
Durante muito tempo, meus pais acreditaram que eu tinha arquitetado tudo escondido deles só pra causar impacto. Até hoje me pergunto: por que eu faria isso comigo mesmo?
Mas, como quase tudo na vida, o tempo foi assentando a poeira e colocando as coisas nos eixos.
E então… os onze dias passaram.
Ou melhor: desapareceram.
Tudo aconteceu exatamente conforme os planos da Gihane e da Tia Irani. Magistralmente orquestrado. Roupa. Convites. Organização. Cerimônia.
Eu apenas assistia os eventos acontecendo em velocidade absurdamente superior à minha capacidade emocional de processamento.
Chegou “o” sábado.
Naquele dia, não fui trabalhar.
Passei o dia fazendo a mudança para o sobrado. Três viagens com o Megane abarrotado até o teto foram suficientes. Também não tinha muita coisa.
Roupas. Computador. TV. Livros. CDs. Um baixo com a caixa acústica.
Basicamente os itens essenciais para a sobrevivência de um adulto funcional de vinte e poucos anos.
Me arrumei na casa dos meus pais.
E lembro perfeitamente de parar na porta do quarto antes de sair.
Fiquei alguns minutos olhando aquele ambiente.
Dezessete anos da minha vida estavam ali dentro. As paredes. Os móveis. Os silêncios. As fases. Os medos. As versões anteriores de mim mesmo.
Naquele momento, ao apagar a luz e virar as costas… mais uma versão minha ficava pelo caminho.
Saí daquele quarto pela última vez como filho.
E segui para a casa da Tia Irani, onde aconteceria a cerimônia.
A festa seria no salão de festas da casa dela. Algo mais íntimo. Família na grande maioria. Poucos convidados da minha parte e muitos da parte da Gih. A comunidade árabe é extremamente unida.
Marcada para começar às 19h30, a cerimônia começou efetivamente às 21h.
E preciso confessar uma coisa:
eu sempre achei exagero aquela história do noivo esperando a noiva e pensando: “Meu Deus… será que ela desistiu?”
Até viver aquilo.
Porque conforme o relógio avançava, meu cérebro começava lentamente a produzir cenários catastróficos em escala industrial.
Nada que eu não estivesse tentando desesperadamente disfarçar.
Foi então que ela chegou.
E, quando a vi…
todo o resto desapareceu.
Meu coração simplesmente transbordou.
Que mulher linda.
Ali tive a confirmação definitiva de algo que já suspeitava fazia tempo:
eu definitivamente tinha mais sorte do que juízo.
A cerimônia foi sensacional. Celebrada em árabe por um Sheik recém-chegado do Oriente Médio. Nem preciso dizer o quanto minha família tradicionalmente católica estranhou tudo aquilo.
Mas como todo bom casamento, teve música, risadas, danças árabes, dançarinas do ventre, fartura gastronômica em níveis que só quem convive com árabes entende… e lágrimas.
Muitas lágrimas.
Chegou inclusive a circular a teoria de que tínhamos acelerado tudo porque a Dona Cegonha já estaria fazendo hora extra.
O que se mostrou completamente falso, já que o Geisinho só viria a surgir quase dois anos depois.
No fim da festa, ao contrário do que normalmente acontece, não fomos os primeiros a ir embora.
Fomos os últimos.
Porque a Gihane — ainda vestida de noiva — fazia questão de ajudar a Tia Irani a organizar tudo antes de sair.
E talvez isso explique muita coisa sobre quem ela é.
Quando finalmente fomos embora, seguimos para o sobrado explodindo de felicidade.
Conversando. Rindo. Empolgados com o futuro que se revelava diante de nós.
Finalmente: marido e mulher.
E, obviamente, na primeira vez em que entramos em casa como tal…
ela entrou carregada nos meus braços.
Como manda a tradição.
De lá pra cá, muita água passou por baixo dessa ponte.
Momentos de felicidade. Angústia. Mal-entendidos. Companheirismo. Cumplicidade. Doação.
Ontem mesmo, exatamente no dia 21 de junho, completamos dezoito anos de união.
Essa saga chega ao fim aqui.
Mas nossa história… essa seguimos escrevendo.
Juntos.
Se você gostou da saga de “Como Conheci Sua Mãe”, talvez fique feliz em saber que ela acabou crescendo além do que cabia na coluna.
Como resultado, nasceu um livro: Como Conheci Habibti.
Com versões estendidas dos capítulos, histórias inéditas, detalhes que ficaram pelo caminho e algumas situações que provavelmente jamais sobreviveriam ao limite de caracteres da coluna semanal. No fim das contas, percebi que certas memórias mereciam um lugar um pouco mais permanente que a internet.
Pra quem quiser mergulhar um pouco mais fundo nessa bagunça toda, o livro pode ser encontrado clicando aqui!
