— O Chuveiro —
No capítulo anterior, uma grande aquisição havia sido feita e o destino — esse velho calhorda — seguia conduzindo o trem sem freio nenhum. O medo de que os vagões descarrilassem era constante. Afinal de contas, estávamos juntos havia pouco mais de um ano e as coisas avançavam numa velocidade que eu jamais tinha experimentado antes.
Pensando bem, “trem” talvez não seja a melhor metáfora.
Montanha-russa descreve melhor.
Porque havia entusiasmo.
Havia frio na barriga.
Havia medo.
E, principalmente, aquela sensação permanente de que, em algum momento, alguma coisa podia muito bem sair dos trilhos.O relacionamento com a Gihane era diferente de tudo que eu tinha vivido até então. Era algo mais… maduro. As famosas DRs praticamente não existiam. Conseguíamos discutir e racionalizar assuntos delicados com uma tranquilidade que eu jamais havia experimentado antes.
Parte disso vinha do amadurecimento emocional que eu tinha adquirido nos últimos anos. Parte… era ela.
Tudo corria muito bem.
Certo dia, Gihane começou a ter uma alergia nos olhos. Como bom namorado que eu tentava ser, a acompanhei até o oftalmologista. Enquanto aguardávamos na sala de espera quase vazia, com a exceção de um casal de idosos sentado algumas cadeiras adiante. Estavam de mãos dadas. Nada extravagante. Nada cinematográfico. Apenas aquele tipo de carinho silencioso que só o tempo parece saber construir.
Cutuquei ela de leve e disse:
— Tá vendo ali? É a gente daqui uns quarenta anos.
Achei a cena bonita.
Ela olhou para o casal. E congelou. Os olhos começaram a marejar discretamente e, segundos depois, ela estava chorando.
Na mesma hora pensei:
“Pronto. Falei alguma besteira.”
Perguntei, meio preocupado:
— O que foi? Falei alguma coisa errada?
Ela balançou a cabeça negativamente.
— Não… é que ninguém nunca me fez enxergar um futuro juntos como você faz.
Ali alguma coisa estalou dentro de mim.
Nos beijamos.
Comportadamente, claro. Afinal de contas, estávamos numa sala de espera de um consultório oftalmológico, não numa cena da novela das nove.Naquele instante, todo o medo que eu sentia da velocidade com que a vida estava acontecendo… simplesmente desapareceu.
O tempo continuou passando… os acabamentos do sobrado iam diminuindo.
Menos caixas. Menos pó. Menos fios pendurados. Mais sensação de lar.
Até que, num domingo qualquer, depois de instalar o chuveiro, olhei ao redor.
Tínhamos cama.
Cozinha equipada.
Banheiro funcionando.Na minha cabeça, aquilo já configurava condições mínimas de sobrevivência humana civilizada. Olhei pra ela e falei:
— Pronto… já temos quarto, cozinha e banheiro. Já dá pra morar aqui.
Falei completamente da boca pra fora. Mas, segundos depois, o pensamento veio:
“…e por que não?”
Olhei de novo pra ela. Dessa vez sério.
— Vamos nos mudar pra cá?
Apesar de toda independência que possuía, Gihane sempre teve enorme respeito pela mãe. E, consequentemente, precisava da aprovação dela. Foi conversar com Dona Soraia. A negativa ao pedido não chegou exatamente a surpreender ninguém. E, honestamente?
Fazia sentido.
— Como vou deixar minha filha morar junto assim com alguém? Sem casar, não tem mudança.
Existia, porém, um pequeno grande detalhe nessa história de casar. Apesar de não ser exatamente um praticante religioso exemplar, eu vinha de uma família católica. Já Gihane, como toda boa família árabe tradicional, era muçulmana. E, para que pudéssemos nos unir sob as bênçãos de Allah, existia um requisito técnico importante: eu precisava deixar de ser um infiel.
Converti-me então ao islamismo. Passei a frequentar a mesquita durante alguns meses para receber instruções sobre a religião. Algo como um estudo bíblico… só que envolvendo o Alcorão, tapetes e uma quantidade considerável de informações completamente novas para um piá de Curitiba.
Depois de todo o processo, finalmente estava apto para casar. Só havia mais um último, pequeno e derradeiro problema… na verdade, um problema recorrente nessa história inteira: dinheiro.
Porque acabamento de casa funciona exatamente como um buraco negro financeiro. Assim que o dinheiro passa do horizonte de eventos, não tem mais volta… ele se transforma em algo que vai te acompanhar pelo tempo que você habitar a casa. E como o acabamento é quiçá a fase mais cara da construção, estávamos completamente zerados.
Quem já organizou casamento sabe: a cerimônia pode até ser simples… mas o rombo financeiro, é algo que consegue atravessar gerações.
Surge então, uma figura importantíssima dessa história: Tia Irani.
Gihane me explicava que, ao tomar conhecimento de tudo que estava acontecendo, Tia Irani simplesmente disse:
— Pois eu dou essa festa de casamento de presente pra vocês.
Minha futura esposa já me conhecia bem. Sabia da possibilidade de que eu deixasse meu orgulho falar mais alto… e de fato, parte minha queria poder fazer aquilo sozinho e sabia que, para conseguir isso sozinho, talvez precisássemos esperar mais alguns meses… outra parte via a empolgação, o brilho no olhar daquela mulher… não conseguia ignorar o quanto isso era importante e a possibilidade de fazê-la feliz…
Depois de muito lutar contra meu próprio orgulho… aceitei. Achei que tinha acabado mas, para a minha surpresa, não tinha. Então, com cuidado, ela prosseguiu:
— Só tem um detalhe…
Quando a junção dessas 4 palavrinhas entra em cena, saiba: vem problema.
— Semana que vem, ela viaja para o Oriente Médio. E vai ficar lá um ou dois meses… então esperamos… ou aceleramos as coisas.
Honestamente? Eu realmente achei que essa saga terminaria neste capítulo. Mas esse último looping da montanha-russa merece uma descrição digna.
Então não perca… na próxima semana, uma grande surpresa acompanha o DESFECHO ÉPICO dessa saga.