Como conheci sua mãe – Parte 5

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

— Na Planta —

No capítulo anterior, enquanto uma copiadora surgia no centro de Curitiba em meio a poeira, tinta e técnicas de lixamento dignas do Sr. Miyagi, eu também acabava entrando oficialmente em um relacionamento. Não por planejamento emocional ou maturidade afetiva, claro. Mas porque outro sujeito resolveu demonstrar interesse na Gihane… e meu instinto de sobrevivência afetiva finalmente acordou.

A vida foi acontecendo.
O negócio evoluindo.
O relacionamento, mais ainda.
E o compromisso… esse avançava em velocidade perigosamente superior à minha capacidade de processar mudanças drásticas.

Naquela época, um casal de grandes amigos, Marco e Vivian, tinha comprado uma casa. E foi durante um churrasco qualquer — porque decisões capazes de mudar completamente o mundo, ou a vida de um sujeito, sempre parecem começar em churrascos — que o Marco comentou sobre um conjunto de sobrados em construção, perto da casa deles.

— Quer ver?

E nos levou até lá.

Placa de venda na frente.
Imóvel na planta.
Preço aparentemente acessível.

O problema?

Era longe. Muito longe. Pelo menos na minha cabeça.

Hoje acho engraçado pensar nisso, porque eram cerca de quinze quilômetros da casa dos meus pais. Quinze. Mas, naquele momento da vida, aquilo parecia equivalente a emigrar para outro continente.

Era território desconhecido.
Longe da família.
Longe da rotina.
Longe do bairro onde cresci e conhecia tão bem.
Longe da segurança confortável de alguém que ainda não tinha sido obrigado pela vida a crescer completamente.

E, como quase sempre acontecia naquela época, minha primeira reação foi recuar.

Medo. Dúvida. Insegurança.

A clássica trinca que paralisa quem passa tanto tempo dentro da zona de conforto. É como enxergar qualquer mudança como ameaça biológica.

Já a Gihane… bom… a Gihane olhou para aquilo exatamente da mesma maneira que olhou para aquela loja vazia na galeria. Aquele mesmo brilho nos olhos.

A aquela altura, eu já deveria ter aprendido que, quando aquele brilho aparecia, alguma coisa importante estava prestes a acontecer.

Conversamos muito.
Fizemos contas.
Simulações.
Projeções financeiras completamente otimistas e emocionalmente irresponsáveis.

E, mesmo sem termos base financeira sólida nenhuma, ela decidiu pular de cabeça.

E, de quebra… me arrastando junto.

Naquela época, eu tinha:
mais sorte que juízo,
um carro quitado,
um plano de previdência privado,
um computador,
uma copiadora recém aberta,
e a copiadora original, funcionando a pleno vapor garantindo independência financeira suficiente para sustentar uma vida deliciosamente irresponsável.

Morava com meus pais.
Não pagava aluguel.
Não fazia compra do mês.
Balada quase todo fim de semana.
Às vezes no meio da semana também, porque responsabilidade financeira claramente não era meu elemento predominante naquela fase.

A cultura do “guardar dinheiro” infelizmente chegou muito atrasada pra mim. Eu vivia bem. Mas vivia exatamente no limite entre estabilidade e uma tragédia econômica de pequeno porte.

Confortavelmente aconchegado numa zona de conforto extremamente acolchoada. Só que esse ambiente aos poucos se desfazia, por conta das mudanças advindas do “evento Gihane” na minha vida.

Quando entramos em contato com a construtora expressando nosso interesse no imóvel, tudo ficou acertado. Inclusive o valor da entrada.

Foi então que surgiu a pergunta: Como comprar uma casa tendo exatamente R$ 0,00 guardados?

Eu respondo: Na época, o único investimento que eu tinha era uma previdência privada que pagava havia alguns anos. Resolvi sacar. O que se mostrou uma experiência educativa e traumática ao mesmo tempo. Porque descobri, da pior maneira possível, que investimentos de longo prazo ficam profundamente magoados quando você interrompe o plano no meio do caminho.

Resultado: perdi aproximadamente vinte por cento do valor que tinha guardado ao longo desse tempo. Ainda assim, consegui levantar um terço da entrada.

Gihane, por outro lado, sendo a pessoa socialmente funcional da relação, conseguiu algo que até hoje considero feitiçaria bancária. Por ter bom relacionamento no banco, conseguiu um empréstimo com juros razoáveis e prazo generoso. Levantamos mais um terço.

Fizemos as contas. Ainda faltava um terço do valor de entrada. Quando digo que raspamos nossos cofrinhos, não é figura de linguagem poética. Foi literalmente moeda por moeda. Juntando tudo. Espremendo cada centavo. Mesmo assim, ainda não fechava. Ainda faltava dinheiro. Pouco, mas faltava.

Foi então que, mais uma vez, entrou em ação uma das maiores habilidades que já vi alguém ter: a inacreditável capacidade da Gihane de conversar com absolutamente qualquer pessoa.

Ela foi falar diretamente com o dono do empreendimento.

Conversou.
Explicou.
Desenrolou.
Descobriu conhecidos em comum.
Possíveis conexões familiares.
Talvez vínculos diplomáticos internacionais — nunca duvidei dessa possibilidade.

O fato é que conseguiu uma flexibilização. Uma exceção. O suficiente para que dois jovens sem patrimônio, sem planejamento financeiro sofisticado e movidos puramente por coragem inconsequente conseguissem comprar o primeiro imóvel. E foi aí que a vida começou a mudar de verdade.

A obra avançava rápido.
Rápido o suficiente para não nos deixar tempo de desistir.
Acompanhávamos cada etapa quase como quem vigia um milagre em tempo real.

As baladas ficaram em ultimo plano.
Finais de semana em casa vendo filmes viraram programas frequentes.
Todo dinheiro passou a ter destino certo.

Piso. Torneira. Pintura. Móveis. Acabamento.

Adultos.

Sem perceber, nós estávamos lentamente virando adultos. Eu pelo menos… e isso talvez fosse mais assustador do que assinar o mastodôntico financiamento de 20 anos do sobrado.

Incrivelmente, poucos meses depois, o sobrado já estava praticamente pronto. E é exatamente aqui que eu preciso parar.

Porque o próximo capítulo que chega na semana que vem, dia 15 de junho de 2026, entra na reta final desta saga.

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