Como conheci sua mãe – Parte 2

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

— O Último Primeiro Beijo —

No capítulo anterior, deixamos um Geison parado dentro do carro, em completo estado de perplexidade, tentando entender como conseguiu ignorar, com tamanha eficiência, todos os sinais que estavam diante dele.

E aquela frase…
“E pensar que eu estava muito a fim de ficar com você…”

…não ajudava.

Ela ecoava. Sem descanso. Dia e noite. Sem aviso, nas mais variadas horas dos dias que se seguiram. Simplesmente do nada. Sem piedade. Quase como um castigo pela minha inaptidão no convívio social.

Como já contei, a turma da comunidade era bastante ativa. Sempre tinha alguma coisa acontecendo. Encontros quase diários, cada dia em um lugar diferente. E, por algum tipo curioso de alinhamento cósmico — ou sabotagem do destino, este velho calhorda —, nós simplesmente não nos encontrávamos.

Teve noite em que eu chegava… e ela tinha acabado de ir embora.  Minutos. Às vezes menos. Eu entrando por uma porta e ela saindo por outra. E isso não aconteceu uma ou duas vezes. Foram tantas que comecei a cogitar uma possibilidade:

“Ela está me evitando.”

E mesmo com o Orkut continuando com a delação de suas visitas constantes ao meu perfil, com todos os sinais mostrando o contrário, minha mente adora teorizar o pior. Imaginei que talvez fosse vergonha. Talvez arrependimento. Talvez aquele tipo de situação que a pessoa prefere fingir que nunca aconteceu. Eu só fui descobrir muito tempo depois que não era nada disso.

Era logística.
Era compromisso.
Era responsabilidade.
Era ela sendo motorista da vez.
Era algum compromisso que não podia desmarcar.
Era, inclusive, um filhote que não aceitava bem a ausência (sim, isso também aconteceu).

Ou seja: enquanto eu criava teorias mirabolantes… a vida real só estava sendo… vida real.

Até que, em um fim de semana, rolou um churrasco na Graciosa. Tudo perfeito. Comida, bebida, risadas… aquele pacote completo da boa e velha vida descompromissada de solteiro. Na volta, dentro do carro, meu amigo Edio atende o telefone. Eu, educado, segui dirigindo sem prestar atenção, respeitando a privacidade do meu amigo. Minutos depois, já chegando, ele solta:

— Geisão… você conhece a Gih, né?

— Conheço.

— Cara… ela é a guria mais gente boa que eu conheço.

Talvez ele estivesse esperando alguma observação, mas como ela não veio, reafirmou:

— Sério. Muito gente boa!

Olhei de lado.

— Tá… e?

— Nada, pô… só tô falando. Você devia conhecer melhor.

— Você tá sabendo de alguma coisa que eu não sei?

— Eu??? Nada! Nem falo com ela direito… tô só dizendo… a guria é firmeza, rapá…

Hoje eu posso afirmar com tranquilidade: eu não perceberia uma emboscada nem se viesse com placa de sinalização em neon brilhante e aviso sonoro. Porque, naquele momento, mal sabia eu que, no carro, quem estava do outro lado da linha… era a própria Gihane. Pedindo ajuda. Pra ver se, finalmente… eu acordava.

Mas não acordei. Claro que não. E mais algumas semanas se passaram.

Até que chegou o dia.

5 de abril de 2007.

Mesmo bar da primeira vez em que nos percebemos. Mesmo cenário. Mas, dessa vez… algo diferente.

Naquela ocasião especifica, eu travei. Completamente. Qualquer resquício de espontaneidade, carisma ou coragem… tirou férias e desligou o celular. Sem aviso prévio. Meu lado tímido, vendo o cockpit vazio, assumiu o controle total da operação.

Durante a festa, aconteceu um fenômeno curioso: sempre que ela se aproximava… eu desaparecia. Sério, acho que faria inveja aos dois Davids – Copperfield e Blane!

Eu.
Virava.
Vapor.

Saía da roda. Abandonava conversa no meio. Fingia ter lembrado de ter deixado o forno ligado em casa.

Hoje, olhando de fora, sendo otimista e alienado, pode até parecer estratégia. Mas não era. Era puro instinto de sobrevivência emocional.

Na minha cabeça, eu estava em um documentário do National Geographic sobre vida selvagem. E, de alguma forma inexplicável… eu era a presa.

Em determinado momento da noite, ela perdeu a paciência. Foi até o Edio e desabafou:

— Que cara mané! Eu chego perto e ele vai embora! Nem disfarçando ele está!

Edio ouviu e esperou o que mais ela tinha a dizer.

— Se é assim, melhor deixe! Vai que é livramento…

Foi aí que aconteceu algo curioso. Naquele exato momento, todos os astros do firmamento se alinharam e Edio, sem ter a menor noção do que estava fazendo… soltou uma frase. Uma dessas frases que, na hora, passam despercebidas… mas que o tempo se encarrega de transformar em profecia:

— Então é isso? Vai jogar a sua felicidade fora?

As palavras atingiram Gihane com todo o peso existencial que elas carregavam. De maneira simples e irreversível. Aquilo bateu e deixou marca. E, pelo que sei, foi ali que ela decidiu:

“Última tentativa. Se fugir, ele que vá catar coquinho na descida.”

A festa já estava terminando. Todos indo embora aos poucos, pessoas se despedindo. E foi nesse momento que ela veio diretamente até mim, em passadas decididas, me deixando sem ter pra onde fugir. Se aproximou. Com o pretexto de se despedir, me deu um beijo no rosto. E, antes de se afastar… encostou no meu pescoço, inspirou de leve — como quem guarda o momento — e disse:

— Nossa… como você é cheiroso… (Joop Nightflight — injustamente descontinuado, diga-se de passagem)

Alguma coisa dentro de mim fez “clique”. Talvez uma faísca. Talvez instinto. Talvez, finalmente… consciência. Sem pensar, em um movimento de reflexo puro, falei:

— Se você fizer isso de novo… eu não me responsabilizo.

Era exatamente o que ela queria ouvir. Sem hesitar… ela fez de novo. Mas não foi qualquer “de novo”. Foi daquelas que atravessam a alma e arrepiam todos os cabelos da pessoa mais insensível. E, como eu sou um homem de palavra… quando o rosto dela surgiu na minha frente… eu a beijei.

Aqui preciso voltar um pouco no tempo.
Eu lembro do meu primeiro beijo, aos 15 anos.
A sensação nítida era de que o mundo tinha parado.
A gravidade desaparecido.
O tempo… suspenso.

Voltando, para 2007… aconteceu de novo.

Meu último primeiro beijo.

Ficamos ali. Beijando. Rindo. Vivendo. Como se o resto do mundo tivesse, gentilmente, decidido esperar.

Já de madrugada, fui levá-la em casa. Antes de ela descer, falei:

— Amanhã vou pra praia com uns amigos… que, por coincidência, também são seus amigos. Você também vai?

Ela sorriu.

— Acho que sim.

— Vamos juntos?

— Pode ser.

Me deu um último beijo… e saiu. Fui descobrir depois… que ela achou que eu não estava falando sério. Mal sabia ela… que, pela primeira vez naquela história inteira… eu estava.

E o que aconteceu na manhã seguinte… bem… isso fica pro próximo capítulo. Porque, como já ficou claro… essa história ainda tem muito chão pra percorrer.

Ficou curioso? A parte 3 já está pronta e estreia por aqui dia 18 de maio!

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