– Crianças, vou contar uma história incrível para vocês. A história sobre como conheci a sua mãe.
– Nós estamos sendo castigados?
– Não…
– É… isso vai demorar muito?É assim que começa a série americana How I Met Your Mother. A história que começo a contar hoje é justamente sobre isso, aproveitando o fato de que ontem, fizeram exatos 19 anos que nossa história começou, achei que era o momento de contar como tudo aconteceu.
E, respondendo à última pergunta: Sim. Vai demorar.
Talvez cinco ou seis partes. Porque certas histórias simplesmente não cabem em uma única coluna.
Em 2005, eu tinha acabado de terminar a faculdade e, quase ao mesmo tempo, um relacionamento. Eu estava emocionalmente quebrado.
Hoje entendo melhor: eu acreditava que um relacionamento só funcionava se eu me moldasse completamente ao outro. Eu me adaptava, cedia, ajustava… até desaparecer. Na época parecia dedicação. Com o tempo percebi: era um caminho que só conduzia à exaustão.
E toda fórmula que exige que um dos lados deixe de existir… uma hora quebra. Foi o que aconteceu.
Pra tentar me entender melhor, comecei a fazer terapia. Algo que pretendo abordar em uma coluna em um futuro extremamente próximo.
Ainda naquele ano conheci outra garota.
Bonita por fora. Mas, por dentro… a personificação do caos. Na convivência, tudo era instável. Havia conflitos constantes, uma dinâmica que me colocava para baixo e uma sensação permanente de estar tentando ajustar algo que não tinha ajuste possível.
Eu ainda carregava aquela ideia de que dava para “consertar” as coisas. Não dava. No processo, só fui me desgastando.
Durou pouco.
E lá estava eu de novo: Sozinho.
Mas dessa vez com uma decisão diferente: antes de tentar entender alguém, talvez fosse hora de tentar me entender. Decisão tomada por conta da terapia.
Olhando em retrospecto, foi uma das decisões mais importantes da minha vida.
Em 2006, a internet brasileira vivia um momento curioso. Existia uma rede social chamada Orkut. Criada por um indiano, ela funcionava como uma espécie de versão primitiva do que hoje é o Facebook. Curiosamente, ela tem um papel decisivo nessa história.
No Orkut, existiam comunidades. Grupos de pessoas reunidas por interesses em comum:
“Nascidos em 1977”
“Eu odeio filme dublado”
“Todo jacu faz joinha na foto”E, no meio desse universo, encontrei uma comunidade chamada:
“Solteiros de Curitiba”
Eu atendia perfeitamente aos requisitos. Entrei. Logo percebi algo interessante: aquelas pessoas não ficavam apenas no online. Elas se encontravam. Quase todos os dias. Celebravam a vida de solteiro com uma certa disciplina informal. Minha primeira incursão foi em um sábado à noite.
Detalhe importante: eu estava em um forró com um amigo. E não gosto de forró. Normalmente eu ficaria ali, por educação, esperando o tempo passar. Mas naquele dia aconteceu algo raro. Um lampejo de amor próprio. Simplesmente pensei: “o que eu estou fazendo aqui?”
Deixei meu amigo no forró e fui sozinho encontrar aquela turma.
Cheguei no bar. Fui bem recebido.
Olhares femininos curiosos — alguns, inclusive, bastante receptivos.
E olhares masculinos mais cautelosos. Aquela avaliação silenciosa de quem tenta entender rapidamente se você entra na conta… ou atrapalha na conta.Nada pessoal.
Só dinâmica de grupo.
Com o tempo, tudo se ajustou.
As mulheres, descobrindo que eu não era apenas mais um rosto bonito, mas um sujeito de boa índole e personalidade.
Os homens perceberam que eu não era um competidor… mas sim, mais um membro da irmandade.Como o nome da comunidade sugeria, todos ali eram “almas livres”. E isso naturalmente gerava conexões.
Algumas breves.
Outras nem tanto.Mas essa parte da história eu prefiro deixar de lado. Por elegância. E porque a parte que realmente importa começa agora.
O Orkut tinha uma função curiosa: você sabia exatamente quem tinha visitado seu perfil.
Nome. Sobrenome. Link para o perfil. Delação completa!
Foi em um dia qualquer que apareceu um nome ali:
Gihane Khalil.
Visitei o perfil de volta e deixei uma mensagem que, hoje reconheço, foi meio… ousada:
– Achou o que estava procurando? Se não achou, conto o que você quiser…Sim. Eu sei. Ju-ve-nil!
Ela não estava interessada em mim – pelo menos foi o que ela disse na ocasião… – Ela só tinha entrado no meu perfil para convidar para a festa de despedida de uma amiga em comum. Simples assim. E eu… já tinha criado um roteiro inteiro na minha cabeça.
Fiquei constrangido. Tudo que consegui responder foi:
– Ah… legal. Estarei lá.O fato é que, naquele momento, eu estava em um envolvimento leve. Com uma garota linda, de personalidade cativante, simpática e sabia festejar como ninguém… mas não havia ali aquela conexão que sustenta algo mais profundo. Era uma história que simplesmente não apontava para frente.
E foi assim que acabei indo à festa. E foi lá que eu a vi.
Gihane.
Me olhando de um jeito que me deixava… sem jeito. Como já disse, eu era juvenil demais. Mesmo que ela dissesse claramente, em alto e bom som, que eu tinha chamado sua atenção, provavelmente eu acharia que era engano. E, naquela mesma festa, também estava a garota com quem eu vinha me envolvendo.
Em certo momento da noite, eu estava sentado ao lado dela.
Gihane, um pouco mais afastada, continuava me olhando. E eu… retribuindo. Até que, em determinado momento, ela soltou:
– Tá esperando o quê? Ela tá aí, sentada do seu lado… beija ela de uma vez!
“Ah, é?”, pensei.
E fui.
No fim da festa, acabei dando carona para três pessoas: a garota com quem eu estava, a Gihane e uma amiga dela. Por uma questão puramente logística, deixei primeiro a garota e depois segui com a Gihane e a amiga, que ficavam no caminho. No carro, conversamos.
Bastante.
E, quando chegamos, ela abriu a porta, olhou para mim e disse:
– E pensar que eu estava muito a fim de ficar com você…Fechou a porta.
E entrou.
Fiquei ali.
Parado.
Alguns minutos.
Tentando entender.
“Como foi que eu não percebi isso antes?” – Eu já disse que eu era juvenil? –
Nos encontramos novamente depois. E, dessa vez, a história tomou um rumo completamente diferente.
Mas isso… fica para o próximo capítulo.