Há algumas semanas, resolvi abrir a caixa-preta da minha rotina e inaugurei por aqui a série “Causos da Copiadora” — um acervo de episódios que provam que a vida real tem roteiristas ousados. Hoje trago mais um capítulo. É tudo absolutamente verídico. Tão verídico que há testemunhas dispostas a confirmar… embora algumas talvez prefiram manter o anonimato ou fingir que não estavam presentes.
E como dito anteriormente: isso é só o começo. A copiadora ainda tem muita história pra imprimir.
O rapaz chega apressado, com aquela pasta debaixo do braço que denuncia estudante de engenharia ou arquitetura. Pede a impressão de meia dúzia de projetos em grande formato. Aqueles mapas técnicos que parecem a planta baixa de uma usina nuclear.
Arquivo aberto. Impressora roncando. Papel saindo como se estivesse parindo concreto armado.
Enquanto as folhas gigantes vão tomando forma, faço a pergunta padrão do balcão:
– Quer que eu corte?
Ele me olha sério e responde:
– Paulo!
Pensei: “Paulo? Quem é Paulo?” Talvez eu tivesse falado baixo. Por ter uma perda auditiva considerável, então sempre parto do princípio de que o problema pode ser meu.
Repito:
– Quer que eu corte?
Ele franze a testa.
– Morte?
Pronto. A coisa degringolou.
Começo a suspeitar que das duas, uma: ou estou participando de um telefone sem fio profissional ou o sujeito sofre do mesmo mal que me acomete. Aumentei o volume da voz e fiz o gesto universal da tesoura com a mão, abrindo e fechando os dedos no ar.
– Cortar?
– Ahhhh! Sim! Por favor!
Respirei aliviado. Comunicação restabelecida. Ou assim pensei.
Com os projetos devidamente refilados, faço a próxima pergunta padrão:
– Quer que dobre?
Ele arregala os olhos.
– Se eu sou pobre?
Nessa hora, eu parei.
Parei porque o cérebro precisa de alguns segundos para entender se está diante de um problema auditivo ou de um enigma existencial.
“Quer que dobre?”
“Se eu sou pobre?”Eu não sabia se ria, se explicava, se pedia desculpa ou se oferecia um abraço.
Respirei fundo. Fiz novamente a mímica. Dessa vez, dobrando o ar com as mãos como quem faz um aviãozinho imaginário.
– Dobrar… o papel.
– Ah! Sim, sim. Pode dobrar.
Pronto. Missão cumprida. Projetos cortados, dobrados e entregues.
Ele saiu satisfeito. Eu fiquei refletindo.
Existe uma linha muito tênue entre ruído e conflito. Às vezes não é que as pessoas discordam. Elas simplesmente não estão ouvindo a mesma coisa.
No balcão da copiadora, isso gera piada. No mundo real, gera briga.
E, no fim das contas, talvez a maior lição daquele atendimento não tenha sido sobre corte ou dobra. Foi sobre como duas pessoas podem estar a menos de um metro de distância… e ainda assim falando idiomas completamente diferentes.