Nem todas as histórias desta coluna nascem das minhas desventuras pessoais em série. Algumas brotam diretamente do cotidiano aqui da firma. São os “Causos da Copiadora”: situações tão pitorescas que, de tão absurdas, parecem inventadas.
Não são.
Infelizmente — ou felizmente — todas aconteceram de verdade. Este é o primeiro causo. Outros virão.O cliente chega, explica o serviço com a segurança típica de quem nunca executou nada parecido na vida e, depois de tudo alinhado, faz a pergunta inevitável:
— E o valor? Capricha nesse preço, hein…
Faço as contas, tiro do preço tudo o que dá pra tirar sem transformar meu trabalho em voluntariado e respondo:
— O preço normal é Y. Com o desconto, fica X, senhor.
Ele reage como se eu tivesse apresentado a tabela oficial de um par de rins no mercado negro.
— O quê?! Como assim? Isso tá muito caro! Dá pra melhorar esse preço aí…
Respondo com a paciência protocolar de quem já viveu essa cena mais vezes do que gostaria:
— Veja bem, senhor… este já é um valor justo. É o mínimo a que posso chegar. Já reduzi minha margem ao máximo e, se baixar mais, passo a pagar para o senhor levar.
Então vem o argumento final. Não como informação, mas como salvo-conduto moral:
— Mas é pra igreja, meu filho…
Esse “meu filho” nunca é afeto. É hierarquia. É a tentativa de empurrar o outro para o lugar da obrigação moral, como quem diz: agora você não pode recusar.
— Pra igreja? — respondo, indignado. — Então esquece o desconto… agora vai ser preço cheio. Nenhuma instituição desse porte pode ser chamada de pobre.
Volto à realidade.
Essa última frase aconteceu única e exclusivamente dentro da minha cabeça.— Pois é, senhor… infelizmente não poderemos fazer negócio. Esse é o menor valor que posso praticar.
A incredulidade vem imediata, como se eu tivesse violado uma regra invisível do jogo ou cometido um crime hediondo. Retirando um volumoso maço de dinheiro do bolso, enquanto conta as notas, ele sentencia:
— Mas vai sair do meu bolso! Eu não vou receber nada por isso!
E é aí que a lógica se revela por completo.
Funciona assim: a instituição não paga, o intermediário não recebe e o prestador de serviço é convocado a fazer caridade. Não por escolha, mas por constrangimento.
A boa causa nunca sangra.
Quem sangra é sempre quem trabalha.Não é fé.
Não é solidariedade.É um sistema muito bem ajustado, onde o discurso é altruísta e o custo é terceirizado.
E não, esse mecanismo não é exclusivo da religião. Ele aparece em eventos “pela visibilidade”, projetos “pelo bem maior”, causas “importantes demais para serem pagas”. Sempre há uma nobreza abstrata justificando alguém trabalhar de graça.
A hipocrisia não está na crença.
Está na conta.Porque toda causa é linda… enquanto o boleto é do outro.
Caridade com o chapéu alheio não é caridade. É exploração.
E quando alguém chama exploração de virtude, não está pedindo nem oferecendo ajuda.
Está apenas testando até onde você aceita ser usado.