Produtores da agricultura familiar e líderes de cozinhas solidárias comemoram o Dia Mundial da Alimentação nesta sexta-feira (16), com a avaliação de que é possível manter o Brasil fora do Mapa da Fome por meio do esforço coletivo. Em julho deste ano, a Organização das Nações Unidas reafirmou que o país manteve abaixo de 2,5% o percentual da população subnutrida nos últimos três anos.
Em Brasília, o trabalho de combate à fome é exemplificado pela atuação de dona Maria do Cerrado, liderança comunitária à frente da Cozinha Solidária Cantinho da Vovó, que alimenta mais de 800 pessoas em situação de vulnerabilidade e também entrega 200 cestas básicas a famílias cadastradas.
Voluntariado e acolhimento na Cozinha Solidária
Três vezes por semana, dona Maria e outros 37 voluntários se revezam na separação, armazenamento e preparo dos alimentos, além da arrumação das mesas e da recepção de quem chega em busca não só de comida, mas também de acolhimento. Segundo ela, muitos problemas familiares e até casos de violência são solucionados em volta da mesa.
“É o momento em que a gente se aproxima para conversar aqui dentro desse espaço que alimenta, onde a gente cultua o alimento como sagrado, como cura. Por isso, é feito com muito zelo”, afirma.
Articulação com agricultura familiar amplia acesso a alimentos
A ampliação das doações e entregas ganhou força quando a Cozinha Solidária passou a receber frutas, verduras, legumes e hortaliças diretamente de produtores como Hosana Alves do Nascimento. Filha de agricultores familiares, ela transformou uma área urbana em São Sebastião, cidade-satélite do Distrito Federal, em um sistema agroflorestal com culturas de curto prazo, como hortaliças, verduras e raízes, junto com árvores frutíferas e oleaginosas.
“Como é uma área pequena, então a gente otimizou para dar muita coisa. A nossa produção é considerada agroecológica, porque não usa veneno”, diz Hosana.
Programas públicos conectam produção e atendimento social
A ligação entre quem produz e quem prepara a refeição ocorre por meio do Programa de Aquisição de Alimentos, política pública do Ministério do Desenvolvimento Agrário que compra os alimentos e os fornece às cozinhas solidárias. Essas cozinhas, por sua vez, integram outra política pública, do Ministério do Desenvolvimento Social, voltada ao atendimento de pessoas em situação de vulnerabilidade alimentar.
De acordo com Lilian Rahal, secretária de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social, esse elo entre diferentes pessoas permite que o alimento chegue a quem precisa e amplia a oferta de alimentos saudáveis e variados. “Essa parceria faz com que nós consigamos entregar comida de verdade, alimentos produzidos pela agricultura familiar, alimentos saudáveis, em regiões onde nem sempre o Estado consegue estar presente por meio da sua institucionalidade”, afirma.
Hosana relata que a experiência a fez perceber limitações de acesso a itens comuns. “Em uma das entregas, um menininho perguntou à mãe: ‘Nós vamos comer melancia?’ Aquilo me doeu por dentro, de a criança não ter acesso a uma simples melancia”, conta.
Iniciativas surgiram da sociedade civil durante a pandemia
A ministra do Desenvolvimento Agrário, Fernanda Machiaveli, lembra que o trabalho de enfrentamento à insegurança alimentar começou quando o Brasil ainda estava no Mapa da Fome e partiu da própria sociedade civil, “que se organizou durante a pandemia e criou esses espaços da cozinha solidária”.
Fonte: Agência Brasil. Texto reescrito com base na publicação original.