O debate público sobre os rumos do Brasil na eleição de 2026 tem sido esvaziado por um modelo eleitoral distorcido e pela ausência de propostas estruturais, segundo a presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro. Em entrevista publicada em 15 de setembro de 2026, em Brasília, ela afirmou que a discussão dos problemas reais do país tem perdido espaço para a busca por audiência instantânea e para uma lógica de marketing superficial adotada por candidaturas.
Para Samira, o cenário é agravado por um processo que ela chama de “tiktokização” das campanhas. “Sofremos um processo violento de ‘tiktokização’ da campanha eleitoral. Tudo se resume à dancinha”, disse, ao avaliar que, em tempos de atenção pulverizada e consumo superficial de notícias, poucos candidatos parecem dispostos a debater com seriedade.
Crise institucional domina o noticiário
Questionada sobre a crise político-institucional envolvendo denúncias relacionadas ao caso Master, Samira respondeu que a situação “já extrapolou o Poder Judiciário”, envolvendo outras organizações, como a Polícia Federal, e “está dominando o debate”. Para ela, a tendência é que o tema continue no centro do noticiário.
Com a aproximação do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, a presidenta da Fenaj disse não acreditar em um equilíbrio entre a cobertura da crise e o estímulo para que candidatos detalhem propostas. Ela também apontou preocupação com o que chamou de “jornalismo declaratório” e com a superficialidade na abordagem de escândalos.
Propostas ficam em segundo plano, diz Fenaj
Na avaliação de Samira, o foco na crise institucional desloca as pautas comuns do período eleitoral — como programas de governo, demandas da sociedade civil e temas nacionais — para um segundo plano. Ela afirmou que, mesmo quando veículos entrevistam candidatos ou produzem séries sobre problemas do país, o conteúdo perde espaço diante do “cenário de crise” e da disputa por audiência.
Segundo a dirigente, o resultado é que a população não debate com profundidade candidaturas e programas de governo, nem no nível nacional nem no estadual, o que prejudica a sociedade civil organizada, cujas proposições acabam não sendo contempladas.
O que a mídia pode fazer, na visão de Samira
Samira defendeu que a mídia mantenha a cobertura da crise do Poder Judiciário, mas “insista na segunda agenda”, com visão de longo prazo e debate que não se esgota na eleição. Ela citou a necessidade de discutir desafios futuros nos campos econômico, social e geopolítico, mencionando a interferência dos Estados Unidos, além de ampliar fontes, evitar vieses editoriais e ouvir a população afetada pelas decisões políticas.
Ela também avaliou que a imprensa será cada vez mais desafiada em coberturas eleitorais e alertou para o risco de veículos tentarem concorrer com redes sociais em busca de engajamento momentâneo, sem aprofundamento.
Temas urgentes citados para a eleição de 2026
Entre os assuntos que, segundo Samira, deveriam ter mais espaço no debate eleitoral, ela destacou a questão climática, a forma de explorar terras raras e a atração de data centers, que classificou como um tema “complicado e controverso”. Para a presidenta da Fenaj, há inúmeros temas na ordem do dia, mas sem debate aprofundado.
Fonte: Agência Brasil. Texto reescrito com base na publicação original.