Todo jovem do sexo masculino, pelo menos no Brasil, passa por um rito de passagem peculiar. Algo que, oficialmente, o aproxima da vida adulta. O abençoado alistamento do Serviço Militar Obrigatório. E esta é a história de como aconteceu o meu.
Era julho, década de 1990, e Curitiba fazia questão de oferecer aquele frio característico que entra pela manga da blusa, sobe pela espinha e faz qualquer obrigação patriótica parecer ainda menos convidativa. Mesmo assim, lá fui eu. O quartel onde deveria me apresentar ficava do outro lado da cidade, e meu pai fez questão de me levar. Fomos conversando durante o caminho.
Isso, por si só, já era incomum. Meu pai sempre foi um homem muito calado ao volante. Dirigia concentrado, quase em silêncio, como se qualquer conversa pudesse interferir mecanicamente no funcionamento do carro. Na época, achei estranho.
Hoje entendo.
Ele estava levando o filho mais velho para um daqueles rituais que os pais conhecem muito melhor do que os filhos. Talvez soubesse exatamente o que aquilo significava. Eu, definitivamente, não.
Chegamos ao quartel.
E descobri logo de cara que tínhamos entrado pelo portão errado. Nada como começar uma obrigação patriótica com um pequeno erro logístico. Fomos então orientados a embarcar na carroceria de um caminhão do Exército, junto de outros jovens na mesma situação. Seguimos todos ali atrás, sacolejando como se já fizéssemos parte da tropa. No caminho, dois soldados varriam a rua. Assim que nos viram passar, começaram a provocar.
— Olha aí! Carne nova!
— Vocês estão ferrados!
— Agora vocês vão ver como é bom!
Aquilo imediatamente transformou um grupo de adolescentes nervosos num carregamento de condenados a caminho da execução. Só que a diversão dos dois durou pouco. Surgiu um militar aparentemente mais graduado e aplicou nos sujeitos uma reprimenda tão monumental que, de dentro do caminhão, tudo o que conseguíamos ouvir eram berros sobre disciplina, serviço e a possibilidade bastante concreta de eles receberem ainda mais tarefas caso estivessem insatisfeitos em varrer.
O Exército havia acabado de nos dar a primeira aula. E nós nem tínhamos descido do caminhão. Chegamos então ao lugar onde de fato aconteceria o processo seletivo. Era uma espécie de grande galpão sem paredes. O problema é que estávamos em Curitiba. No inverno. E, como parte importante do exame exigia que vários jovens ficassem praticamente nus, alguém teve a brilhante ideia de improvisar paredes de lona. No melhor estilo militar: não impediria o frio. Mas pelo menos organizaria o sofrimento.
Fomos separados em grupos e conduzidos às etapas. A primeira seria o exame de saúde. A ordem foi simples:
— Tirem a roupa. Fiquem apenas de cueca.
Até aí, tudo certo. Então veio a segunda instrução. Um militar passou pela fila e explicou, com absoluta naturalidade:
— Quando o médico parar na sua frente, abaixe a cueca, levante o pênis e tussa.
Existem frases que você jamais imagina ouvir às sete da manhã. Essa estava certamente entre elas. Eu era o terceiro da fila. O médico parou diante do primeiro rapaz. O sujeito seguiu o protocolo.
Cueca. Pênis. Tosse.
O médico olhou e perguntou:
— Você quer servir?
— Quero.
— Infelizmente não vai poder. Você não tem altura suficiente.
O rapaz se vestiu.
Segundo candidato, mesmo protocolo.
Cueca. Pênis. Tosse.
— Você quer servir?
— Não quero.
O médico respondeu:
— Mas vai. Parabéns. Pode se vestir e seguir para o teste de esforço.
Foi exatamente nesse instante que meu cérebro começou a trabalhar contra mim. Pensei:
“Então, se eu disser que quero servir, talvez ele me dispense.”
Mas imediatamente surgiu a segunda hipótese:
“E se ele perceber que estou tentando ser esperto e me colocar para servir justamente por isso?”
Em poucos segundos, meu exame militar havia se transformado numa partida de xadrez psicológico. Não tive tempo de concluir a estratégia. O médico já estava na minha frente. Antes que ele dissesse qualquer coisa, comecei obedientemente a baixar a cueca. Não chegou sequer à metade da coxa.
— Não precisa. Não precisa.
Congelei. Dentro da minha cabeça, uma única pergunta ecoava: “Mas por quê?”
— Você não pode servir.
— Por quê?
— Pé chato.
Naquele momento descobri que existem diagnósticos médicos desfavoráveis capazes de proporcionar alegria. Poucas pessoas na história da ortopedia devem ter recebido uma deformidade nos pés com tamanha gratidão. Fui orientado a me vestir e aguardar nos bancos em frente a uma televisão. Depois faria os procedimentos para a dispensa.
Pronto.
Minha carreira militar havia terminado antes mesmo de meu pênis participar oficialmente do processo seletivo. Sentei. Na televisão passava um vídeo institucional do Exército. Tanques entrando na água. Paraquedistas. Soldados rastejando na lama. Fuzis. Explosões. Tudo isso ao som de “Go West”, do Pet Shop Boys. Achei a escolha da trilha sonora um tanto peculiar para um vídeo cheio de tanques, fuzis e soldados rastejando na lama, mas quem era eu para questionar a curadoria musical do Exército Brasileiro?
A película vinha carregada de toda aquela iconografia cuidadosamente produzida para fazer um jovem de dezoito anos pensar:
“É disso que minha vida precisa.”
Eu, sentado no banco com meus pés chatos devidamente calçados, assistia tranquilamente. Ou quase. Lembra das paredes de lona? Pois então. A lona possui inúmeras qualidades. Isolamento acústico não é uma delas. Os bancos onde aguardávamos ficavam ao lado da área destinada ao teste de esforço. Em determinado momento, comecei a ouvir:
— Mais força!
— Estou fazendo o máximo que consigo!
— Mais força! Eu sei que você consegue!
— Eu estou tentando!
Houve uma breve pausa e então veio a sentença:
— Está querendo enganar quem? Muito bem, parabéns! Você passou para a próxima fase. Pode ir para a sala do exame escrito.
O sujeito aparentemente estava tentando fingir falta de força para conseguir a dispensa. Só que havia cometido um erro básico:
tentou enganar pessoas que passavam o dia inteiro assistindo jovens tentando enganá-las.
Pouco depois, a sala do exame escrito, localizada atrás de mim, também começou a fornecer entretenimento. Ouvi um militar chamar:
— Fulano de tal, quem é?
Alguma movimentação. Imagino que todos no recinto tenham imediatamente voltado a atenção para o tal fulano.
— Pode se levantar, por favor. Diga a todos o seu estado civil.
O rapaz respondeu alguma coisa quase inaudível.
— Fale alto! Somos surdos!
Então, num berro:
— PARANÁ!
A gargalhada foi geral. Nem a disciplina militar conseguiu impedir. O jovem, pressionado, havia confundido estado civil com estado federativo. E naquele instante descobrimos que existia pelo menos um homem oficialmente casado com o Paraná.
Fiquei naquele banco durante horas. Quando cheguei ao quartel eram por volta das seis da manhã. Fui dispensado dos exames perto das oito. E permaneci sentado até aproximadamente uma da tarde.
Sem celular. Sem livro. Sem qualquer distração. Apenas eu, um banco de madeira e o mesmo vídeo institucional passando em looping. Repetidamente:
Tanque.
Paraquedista.
Lama.
Fuzil.
Tanque.
Paraquedista.
Lama.
Fuzil.Com a trilha sonora do Pet Shop Boys, o que tornava toda a experiência militar involuntariamente mais sofisticada.
Quando finalmente fui liberado, saí do quartel completamente desnorteado. Tão desnorteado que nem sequer consegui fazer uma pergunta bastante simples:
— Que ônibus eu pego para voltar para casa?
Então fiz o que qualquer jovem racional faria depois de passar sete horas num quartel. Voltei andando. Do Bacacheri até Santa Felicidade. Algo em torno de dez ou doze quilômetros.
A pé.
Saí por volta de uma da tarde. Cheguei em casa perto das seis. No caminho, tive bastante tempo para pensar. Talvez até demais. E havia um sentimento estranho comigo. Eu não sabia exatamente se estava feliz ou triste. Estava aliviado por não precisar servir. Mas, ao mesmo tempo, havia uma sensação curiosa de ter sido excluído de alguma coisa. Durante anos nos contam que aquilo é uma espécie de rito de passagem. Um momento em que o menino começa a atravessar a fronteira para a vida adulta. E o meu rito havia terminado com um médico olhando para os meus pés e dizendo:
— Você está dispensado.
Fim.
Décadas depois, essa história ganhou outro significado. Meu filho está com dezesseis anos. Daqui a pouco chegará a vez dele. E, quando penso nisso, inevitavelmente me lembro daquela manhã gelada. Do meu pai me levando até o quartel. Da conversa incomumente longa dentro do carro.
Na época não percebi. Hoje percebo.
Talvez aquele exame não fosse um rito apenas para mim. Talvez também fosse para ele. Era um pai levando o filho até a porta de uma experiência que, dali em diante, pertenceria exclusivamente ao filho.
Em breve vou ocupar o outro banco. Vou dirigir. Ele estará ao meu lado. Não sei se vou falar muito. Não sei se vou ficar calado. Talvez conte a história do sujeito cujo estado civil era Paraná. Mas espero ter a mesma sabedoria que meu pai teve naquela manhã. Levá-lo até lá. Estar presente. E entender que existem caminhos que nossos filhos precisam percorrer sozinhos. Eu fui levado ao quartel pelo meu pai.
Voltei sozinho.
A pé.
Dez quilômetros.
Com pé chato.Talvez tenha sido esse, afinal, o verdadeiro exame.