O parcelamento sem juros oferecido em compras rotineiras — como supermercado, posto de gasolina e farmácia — tem se tornado mais comum e, segundo especialistas, ajuda a elevar o volume de endividamento ao incentivar o uso do crédito em despesas ordinárias. O alerta foi feito em avaliação publicada nesta quarta-feira (13), em Brasília.
De acordo com a socióloga Adriana Marcolino, diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), há um crescimento do uso do crediário para pagar contas do orçamento mensal. Para ela, o risco é desorganizar as finanças e transformar o crédito em complemento de renda, quando deveria ser um recurso voltado a itens de vida longa e maior utilidade.
Ansiedade de consumo e estímulos à compra
A economista Katherine Hennings, pesquisadora associada da Fundação Getulio Vargas (FGV) e analista da BRCG Consultoria, avalia que a oferta fácil de crédito pode agravar a “ansiedade de consumo”. Segundo ela, o comportamento de antecipar o consumo não está restrito a uma faixa de renda e muitas vezes responde a estímulos da propaganda, tanto em meios tradicionais quanto nas recomendações de influenciadores na internet.
Hennings destaca que, diante da grande oferta de produtos, falta a parte “menos glamourosa” de fazer as contas e avaliar os efeitos do endividamento.
Juros altos e o risco de comprometer o orçamento
Quando o consumidor não calcula o impacto das parcelas, a consequência pode ser assumir compromissos acima do que consegue pagar e recorrer a modalidades com juros mais altos, como cheque especial, parcelamento direto na operadora do cartão de crédito ou o rotativo — quando se paga apenas parte da fatura.
O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes, afirma que é necessário considerar os custos das dívidas antes de comprar, verificando quanto será pago de juros em compras parceladas. Ele observa que muitos consumidores comparam preços de produtos, mas, ao tomar financiamento, focam apenas em encaixar a prestação no orçamento.
“Crédito não é renda”, dizem economistas
Outro erro apontado é somar o limite do cheque especial ou do cartão de crédito à renda mensal. A economista Isabela Tavares, responsável pelo acompanhamento de crédito e endividamento da Consultoria Tendências, afirma que o limite não é uma renda extra e que o cartão deve ser pago com o salário recebido ao fim do mês.
Educação financeira e Desenrola 2
Isabela Tavares, Fabio Bentes e Katherine Hennings defendem mais educação financeira para orientar decisões sobre o que, quando e como gastar. Nesse sentido, o planejador financeiro Carlos Castro atua com educação financeira e elaborou uma cartilha e uma calculadora para ajudar pessoas a decidirem como aderir ao Desenrola 2 e se devem usar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) no refinanciamento previsto no programa do governo federal.
Para Castro, o Desenrola 2 é uma medida de emergência e de curto prazo, mas a solução do problema, segundo ele, é estrutural: evitar que o brasileiro volte a se endividar e permaneça no nível atual de endividamento.
Inadimplência chega a 81,7 milhões, segundo Serasa
Dados do Banco Central mostram que, em março, a inadimplência das famílias no Sistema Financeiro Nacional atingiu R$ 238,5 bilhões, o equivalente a 5,3% do crédito total cedido a elas (R$ 4,5 trilhões). O indicador não inclui todos os credores, como comércio e prestadores de serviço.
Já a Serasa Experian informou que 81,7 milhões de pessoas estão inadimplentes. Segundo a empresa, 47,1% da dívida em atraso é com bancos e financeiras, e, a cada 100 devedores, 78 recebem até dois salários mínimos. O grupo com renda mais baixa, dizem os especialistas, tende a ficar mais vulnerável a empréstimos e dívidas mais caras.
Para Adriana Marcolino, o efeito das opções de crédito com juros elevados é “drenar uma parte da renda do trabalho para o sistema financeiro”, já que, quanto maiores os juros, maior a parcela que fica com o banco.
Fonte: Agência Brasil. Texto reescrito com base na publicação original.