Economistas afirmam que a Selic elevada e os altos spreads bancários praticados no país têm contribuído para o aumento do endividamento das famílias. Diante desse cenário, o governo federal lançou nesta semana o Novo Desenrola Brasil, programa voltado à renegociação de dívidas e à recuperação do acesso ao crédito. A informação foi publicada em 9 de maio de 2026, em Brasília.
Selic e spread bancário no centro da pressão
O spread bancário é a diferença entre os juros que os bancos pagam e os que emprestam aos consumidores. No Brasil, o spread foi de 34,6 pontos percentuais (p.p.) em março, ante 29,7 p.p. no mesmo mês de 2025. Para comparação, o Banco Mundial calcula que a média mundial gira em torno de 6 p.p.
Para a professora Maria Lourdes Mollo, da Universidade de Brasília (UnB), quanto maior a taxa Selic definida pelo Banco Central (BC), maiores tendem a ser os juros cobrados dos consumidores. Ela também citou a precarização dos empregos como agravante para as famílias, associando o problema à reforma trabalhista do governo de Michel Temer.
Segundo Mollo, muitas pessoas recorrem ao crédito para completar o orçamento e pagar despesas de saúde e do dia a dia. Na avaliação dela, o Novo Desenrola pode aliviar parte do orçamento e, eventualmente, estimular a economia.
Brasil tem juros reais entre os mais altos do mundo
O Brasil tem a segunda maior taxa básica de juros reais do mundo, descontada a inflação: 9,3%. Fica atrás apenas da Rússia (9,6%), e à frente do México (5,0%), de acordo com dados do site Moneyou.
Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o BC reduziu a Selic em 0,25 p.p., para 14,5%, patamar ainda considerado elevado. O BC sustenta que a taxa é necessária para controlar a inflação, embora críticos questionem o nível da Selic.
Endividamento das famílias atinge 80% em abril
Pelo quarto mês consecutivo, o total de famílias com dívidas cresceu no Brasil e alcançou 80% em abril, uma “nova máxima histórica”, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A inadimplência — famílias com contas em atraso — ficou em 29,7%, em relativa estabilidade.
De acordo com a CNC, as famílias com renda de até três salários mínimos registram o maior nível de endividamento (83,6%) e o maior índice de contas em atraso (38,2%).
Juros ao consumidor e a “bola de neve” das dívidas
A professora Juliane Furno, da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirma que o endividamento das famílias pode ser explicado pelas “altíssimas” taxas de spread bancário. Ela observa que bancos citam a inadimplência como justificativa para o spread elevado, mas pondera que a inadimplência também pode ser consequência dos juros altos.
Um ranking da World Open Data, com dados de 2024, coloca o Brasil como o país com as maiores taxas de spread do planeta, seguido por República Tcheca, Sudão do Sul, Serra Leoa, Moçambique, Angola, Ucrânia e Timor Leste.
Dados do BC de março indicam que a taxa média de juros cobrada das pessoas físicas foi de 61% ao ano, enquanto para empresas a média foi de 24%.
Para a professora Maria Mello de Malta, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o nível da taxa básica — a segunda mais alta do mundo — pressiona as instituições financeiras a elevarem as taxas cobradas da população. Ela afirma que, com a Selic alta, “todas as outras” também ficam mais altas e descreve uma “bola de neve” de endividamento, com famílias buscando novas fontes para pagar dívidas anteriores.
Entre as modalidades mais caras, o rotativo do cartão de crédito pode ultrapassar 400% ao ano.
O que prevê o Novo Desenrola Brasil
O Novo Desenrola Brasil foi lançado para ajudar famílias, estudantes e pequenos empreendedores a renegociar dívidas, limpar o nome e recuperar o acesso ao crédito.
A nova fase terá duração de 90 dias e prevê descontos de até 90%, juros reduzidos e a possibilidade de usar o FGTS para abatimento de débitos.
Fonte: Agência Brasil. Texto reescrito com base na publicação original.