O Teatro da Privatização: Como o Consenso de Washington Serviu de Senha para o Saque das Estatais

Foto de Tramujas Jr.

Tramujas Jr.

Por Francisco Tramujas

 

O discurso sempre foi bonitinho: Estado inchado, ineficiência, déficit público. A receita veio dos Estados Unidos, embalada em power point e boa intenção — o tal Consenso de Washington, 1989. Países pobres e endividados deveriam cortar gastos, abrir o mercado, vender o que fosse público e confiar no capital privado. O resto, o mercado resolve.

 

Só que o mercado resolveu do jeito dele: comprando estatais estratégicas com dinheiro emprestado… pelo próprio BNDES. E ainda ganhando isenção de imposto de renda.

 

O “Estado mínimo” que virou “Estado caixa eletrônico do capital”

No papel, o Consenso de Washington pregava o minimal state — Estado pequeno, fora da economia. Na prática, o Estado nunca saiu. Ele só trocou de função: deixou de prestar serviço público para bancar a privatização.

 

O roteiro é velho, mas sempre renovado:

  1. Governo diz que não tem dinheiro para investir em saneamento, energia, saúde.
  2. Vende estatal a fundo privado (muitas vezes estrangeiro).
  3. Oferece financiamento público para o comprador pagar a compra.
  4. Dá incentivos fiscais — a estatal privatizada não paga Imposto de Renda.
  5. Anos depois, o novo dono não investe, o serviço piora, a tarifa sobe.
  6. E o Estado volta para socorrer o investidor com mais dinheiro público.

 

Pronto. O que era para ser Estado mínimo virou Estado de-risking: o Estado socializa o prejuízo e privatiza o lucro.

 

Exemplos de sobra — e de dar vergonha (Brasil)

 

Light (RJ): Privatizou, quebrou, pediu socorro

A Light – Companhia de Energia Elétrica -, no Rio de Janeiro, é um caso exemplar do modelo de “privatização com financiamento público seguido de recuperação judicial”. Privatizada nos anos 1990, a distribuidora de energia passou anos sem investimento adequado, acumulou dívidas, e em 2023 pediu recuperação judicial — algo impensável para um serviço essencial.

 

O que aconteceu? O novo controlador privado priorizou o lucro e o pagamento de acionistas. A manutenção da rede ficou em segundo plano. Apagões se tornaram rotina. E quando a empresa quebrou? O governo federal foi acionado para socorrer — com dinheiro público, claro. A população, que já pagava tarifas altíssimas, ainda paga o pato duas vezes.

 

Copel (PR): A venda que veio com “bônus” e isenção fiscal

A Copel foi privatizada pelo governo Ratinho Junior em 2023, numa operação que virou piada pronta para economistas sérios. O Estado vendeu sua participação majoritária, mas — adivinhem — deu isenção de imposto de renda para a empresa privatizada. Além disso, distribuiu “bônus” para acionistas com dinheiro da própria empresa.

 

Resultado: o consumidor paranaense continuou pagando a mesma tarifa (ou maior), o controle acionário migrou para fundos de investimento (inclusive estrangeiros), e o Estado perdeu a capacidade de investir no setor. O lucro foi privatizado. O prejuízo, socializado.

 

Sabesp (SP): Dinheiro público para proteger investidor

A privatização da Sabesp, concluída em 2024, foi um primor de engenharia financeira reversa. Criou-se um fundo com dinheiro público — sim, do próprio governo de São Paulo — para proteger investidores privados de prejuízo com as tarifas. Em outras palavras: o Estado garante que o privado não perca dinheiro, mesmo que o serviço seja mal prestado. Se der lucro, o acionista embolsa. Se der prejuízo, que paga é o contribuinte.

 

Iguá Saneamento: BNDES comprando ações, e esgoto na praia

A Iguá Saneamento é o exemplo mais cínico de todos. O BNDES — banco público que deveria desenvolver o país — comprou ações da empresa a partir de 2011. A Iguá opera concessões de saneamento em seis estados. Em 2025, a agência reguladora do Rio processou a empresa após despejo de esgoto sem tratamento na Barra da Tijuca e a secagem de um lago.

 

Ou seja: o dinheiro do BNDES ajudou a financiar uma empresa que poluiu a orla carioca. E a conta? O consumidor pagou tarifa, o BNDES perdeu dinheiro (ou não), e o acionista embolsou dividendos.

 

O dado que assusta (e que a mídia não mostra)

Os 20 maiores fundos de investimento do mundo controlam 47% de toda a infraestrutura do planeta.

 

Isso não é mercado livre. Isso é monopólio global de ativos estratégicos — água, energia, rodovia, porto, saneamento. E o Consenso de Washington foi a chave que abriu a porta dos países pobres para esse saque.

 

O modelo não é só brasileiro: o mesmo fracasso nos Estados Unidos e na Europa

Agora, atenção: os defensores da privatização adoram dizer que o modelo deu certo nos Estados Unidos e na Europa. Mentira!!! O que deu certo foi a regulação forte e, em muitos casos, a manutenção da propriedade pública. Quando tentaram o modelo brasileiro — privatização pura e simples com Estado ausente — o resultado foi o mesmo caos: estrutura piorada e custos mais caros para o consumidor.

 

Estados Unidos: onde o discurso não se aplica à prática

O economista Gregory Palast revela um segredo que os consultores americanos não contam quando vão vender privatização para o mundo: nos EUA, 78% da população é atendida por sistemas públicos de água. O governo norte-americano controla cerca de 2.000 dos 3.000 sistemas elétricos do país. E a regulação sobre os privados é draconiana — o lucro típico de uma utility americana é limitado a 3% ao ano, contra 30% que as privatizadas britânicas embolsaram.

 

Quando os Estados Unidos tentaram desregulamentar, deu no que deu. A Califórnia, em 2000-2001, viu o preço da energia elétrica disparar, as distribuidoras privadas quebrarem, e o governo ter que intervir com bilhões de dólares públicos para evitar o colapso. Exatamente o mesmo roteiro: privatização, crise, resgate público.

 

Reino Unido: o laboratório do fracasso

Os britânicos privatizaram a água sob Margaret Thatcher. Resultado? O preço da água subiu 88% em sete anos. Hoje, um terço da água tratada vaza pelos canos envelhecidos porque as empresas privadas cortaram 7 mil empregos na manutenção. Os consumidores ingleses pagam 59pence (59 centavos de libra esterlina) por metro cúbico de água; nos Estados Unidos, onde o sistema é majoritariamente público, pagam 22pence — menos da metade.

 

E não é só água: a eletricidade britânica é 50% mais cara que a americana. O lucro foi privatizado; a qualidade do serviço, não.

França: os monopólios privados que ninguém fiscaliza

A França é o país das gigantes privadas de água — Veolia, Suez — que hoje dominam o mercado global. Mas poucos contam que o modelo francês é de concessão com regulação fortíssima, e que em muitos casos as cidades estão retomando o controle público após décadas de preços abusivos e falta de transparência. Em 2025, a discussão na Europa não é “privatizar mais”, mas sim “como reestatizar o que foi vendido”.

 

O fracasso das empresas norte-americanas na Europa

Num estudo publicado na ScienceDirect, pesquisadores mostram que dezenas de empresas americanas de energia invadiram a Europa nos anos 1990, comprando ativos públicos recém-privatizados. Resultado: uma década depois, estavam saindo aos trancos, com destruição massiva de valor e falências. O motivo? Subestimaram o risco político e a complexidade regulatória. Acharam que “privatização” era sinônimo de “fazer o que quiser”. Não era.

 

Enquanto isso, na Coreia do Sul e na China…

Eles fazem o oposto:

  • Estado forte, com estatais eficientes.
  • Parceria com o setor privado, sim — mas com prazos curtos, regras duras e punição severa para quem descumpre.
  • Infraestrutura desenvolvida sem se curvar ao capital estrangeiro.

 

O resultado? Eles têm saneamento, trem-bala, energia estável. Nós temos esgoto a céu aberto e ação judicial contra empresa que poluiu de graça.

 

A França, mesmo com empresas privadas fortes, manteve a EDF (eletricidade) como estatal até 2004 — e ainda hoje o Estado tem controle indireto. O resultado: a França tem 80% de energia nuclear, a eletricidade mais estável e uma das mais baratas da Europa. Como disse o ex-presidente da EDF: “Se não fosse assim, não teríamos 80% de energia nuclear nem o padrão europeu de eletricidade”.

 

A conclusão que o mercado não quer que você leia

O modelo de privatização vendido pelo Consenso de Washington — e agora recauchutado como Consenso de Wall Street — não é um modelo de eficiência. É um modelo de transferência de ativos públicos para fundos de investimento estrangeiros, com financiamento do próprio Estado e risco socializado.

A Light quebrou. A Sabesp deu isenção fiscal. A Iguá poluiu. A Copel foi vendida com bônus. No Reino Unido, a água custa o dobro e vaza pelos buracos. Nos Estados Unidos, quando tentaram desregulamentar, o governo teve que socorrer.

 

Enquanto isso, a Coreia do Sul, a China e até a França (parcialmente) mantêm o controle estatal sobre o essencial — e suas populações pagam menos por serviços melhores.

 

Cabe a nós, cidadãos brasileiros, decidir: queremos continuar pagando a conta do banquete dos fundos estrangeiros? Ou vamos aprender com os exemplos que realmente deram certo — e manter o público onde ele pertence?

 

O Consenso de Washington não acabou. Ele só mudou de nome. Chama-se agora Consenso de Wall Street. E a única coisa que ele consente é a nossa subordinação.

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