A coluna desta semana já estava pronta. Era mais uma história da minha adolescência – dessas que misturam pouca maturidade e muitas decisões equivocadas. Mas, em pleno domingo de Carnaval, resolvi assistir Green Book: O Guia. E algo mudou.
O filme me atravessou de um jeito que tornou impossível guardar a reflexão para depois. A história adolescente fica para a próxima semana. O que eu senti ao terminar o filme tinha um certo senso de urgência.
Baseado em uma história real, Green Book conta a história de Tony Lip e do pianista Don Shirley, durante uma turnê que fizeram em 1962 pelo sul dos Estados Unidos – um território onde a segregação racial não era apenas cultural, era institucional.
Terminei o filme com um peso estranho no peito.
Fiquei pensando: por que o mundo precisa ser assim?
Por que é tão difícil entender que somos todos da mesma espécie? Não importa cor, credo, nacionalidade, religião ou até o time para o qual torcemos.Por que é tão complicado conviver em paz?
A nacionalidade de alguém o torna melhor? A cor da pele o torna pior?
Eu, sinceramente, não consigo conceber isso.Enquanto o filme ainda ecoava na minha cabeça, pensei na guerra entre Rússia e Ucrânia. Interesses econômicos, estratégicos, políticos. Claro. Sempre há explicações racionais. Mas, no fundo, continuo achando completamente sem sentido. Todos partilhamos o mesmo planeta. Todos dependemos do mesmo chão. Ainda assim, insistimos em dividi-lo como se fosse propriedade privada da nossa vaidade coletiva.
No nosso antigo podcast, O Pior do Brasileiro (que hoje virou o Primeira Pessoa do Singular Podcast), Ediney e Duda já disseram algumas vezes que eu “tenho bom coração”. Sempre ouvi isso com uma ponta de desconfiança. “Bom coração” muitas vezes soa como sinônimo de ingênuo. Como quem não entende como o mundo funciona. Como quem não tem malandragem suficiente.
E quer saber? Talvez seja isso mesmo.
Eu não consigo entender comportamento passional a ponto de alguém espancar outro por causa de futebol. Não consigo entender como alguém pode odiar outra pessoa simplesmente pela cor da pele. Não entra na minha cabeça.
Fala-se muito em reparação histórica – e com razão. Foram séculos de escravidão, de violência, de desumanização. Um erro moral tão absurdo que chega a ser difícil compreender como foi normalizado em algum momento da história.
Mas a verdadeira reparação talvez não esteja apenas em compensações financeiras ou políticas públicas – ainda que elas sejam necessárias. Talvez ela só esteja completa quando o tratamento deixar de ser diferente. Quando a igualdade deixar de ser discurso e virar ambiente.
Enquanto houver ressentimento, injustiça e desigualdade estrutural, a conta não fecha.
Às vezes eu me sinto um completo tolo por não conseguir compreender o ódio racial. Eu realmente não consigo. Não é que eu finja que ele não existe. Ele existe – e muito. Mas eu não consigo acessar esse tipo de sentimento. Não consigo entender como alguém pode odiar outra pessoa apenas por ela ser diferente.
Talvez isso seja ingenuidade.
Talvez seja apenas humanidade.O filme terminou, e a pergunta permaneceu.
John Lennon escreveu: “You may say I’m a dreamer…”
Talvez eu seja mesmo. Mas gosto de acreditar que não sou o único.E se isso for ingenuidade, tudo bem.
Prefiro pecar por excesso de esperança do que por falta de humanidade.