Escrevo estas linhas ainda sob o impacto da notícia.
Um amigo do tempo do 1º grau — hoje ensino fundamental — se foi.
A morte, quando chega assim, não pede licença nem oferece preparo.
Ela apenas chega e deixa silêncio.Na sétima série, fui transferido de escola.
Tudo era novo demais.
Nunca tive facilidade para começar amizades — sempre precisei de tempo, de afinidade, de algum reconhecimento silencioso.
Foi assim que me aproximei de Flávio e Alexandre.
Moravam perto, pensavam parecido, riam das mesmas coisas.
A amizade não precisou ser combinada. Ela simplesmente aconteceu.A adolescência tem esse dom: cria laços que não fazem barulho, mas ficam.
Risos, conversas jogadas fora, pequenas aventuras que hoje parecem grandes justamente porque não sabíamos disso na época.Depois, como quase sempre acontece, a vida nos separou.
Ensino médio concluído, caminhos diferentes.
Tentamos manter contato, mas trinta anos atrás o mundo não facilitava.
Não havia redes sociais, nem mensagens instantâneas, nem essa falsa sensação de presença contínua.
Havia apenas o tempo — e ele seguiu.A vida aconteceu.
Cada um foi vivendo o que precisava viver.
Mesmo assim, sempre guardei por eles um afeto intacto, uma gratidão silenciosa.
Quando o acaso nos colocava frente a frente, era como se nada tivesse sido interrompido.
Amizades verdadeiras não enfraquecem.
Elas apenas dormem.Há cerca de quatro anos, soube que Alexandre havia partido, vítima de um acidente de moto.
A notícia me atingiu de forma brusca, quase física.
Como alguém tão presente em um pedaço importante da minha história pôde ir embora sem que eu soubesse?
A dor veio acompanhada de culpa — essa sensação estranha de ausência tardia.
Demorei a aceitar.
Ainda hoje, quando penso nele, lembro das gargalhadas, das brincadeiras, da leveza que só existe quando a vida ainda não pesa.Agora, descubro que Flávio também se foi.
Não sei como, não sei quando exatamente.
Soube pelas redes, novamente por um amigo em comum.
O sentimento retorna, mais denso: culpa por não ter insistido, por não ter mantido o fio esticado.
Perda por saber que não haverá outro encontro casual, outra chance de reacender aquela chama antiga, mesmo que em poucas palavras.É fácil dizer “a vida aconteceu”.
Talvez seja verdade.
Talvez seja também uma desculpa confortável demais.
O que sinto agora parece um tipo de castigo que aceito sem revolta — consequência direta do que deixei passar.Engraçado como a gente acredita que aprende observando, mas só entende quando dói.
Espero, sinceramente, ter aprendido.
Amizades precisam de cuidado.
Presença, mesmo que simples.
As pessoas que nos querem bem — e aquelas a quem queremos bem — precisam ser lembradas enquanto ainda estão aqui.Este texto não é um lamento.
É um gesto.
Um agradecimento tardio, mas sincero, pela amizade que tivemos, pelo tempo que foi, pelo que ficou.Obrigado, Flávio.
Obrigado, Alexandre.Que, em algum ponto além do tempo, o universo nos permita um reencontro.