Amizades verdadeiras não enfraquecem. Elas apenas dormem.

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Geison Vendramin

Escrevo estas linhas ainda sob o impacto da notícia.
Um amigo do tempo do 1º grau — hoje ensino fundamental — se foi.
A morte, quando chega assim, não pede licença nem oferece preparo.
Ela apenas chega e deixa silêncio.

Na sétima série, fui transferido de escola.
Tudo era novo demais.
Nunca tive facilidade para começar amizades — sempre precisei de tempo, de afinidade, de algum reconhecimento silencioso.
Foi assim que me aproximei de Flávio e Alexandre.
Moravam perto, pensavam parecido, riam das mesmas coisas.
A amizade não precisou ser combinada. Ela simplesmente aconteceu.

A adolescência tem esse dom: cria laços que não fazem barulho, mas ficam.
Risos, conversas jogadas fora, pequenas aventuras que hoje parecem grandes justamente porque não sabíamos disso na época.

Depois, como quase sempre acontece, a vida nos separou.
Ensino médio concluído, caminhos diferentes.
Tentamos manter contato, mas trinta anos atrás o mundo não facilitava.
Não havia redes sociais, nem mensagens instantâneas, nem essa falsa sensação de presença contínua.
Havia apenas o tempo — e ele seguiu.

A vida aconteceu.
Cada um foi vivendo o que precisava viver.
Mesmo assim, sempre guardei por eles um afeto intacto, uma gratidão silenciosa.
Quando o acaso nos colocava frente a frente, era como se nada tivesse sido interrompido.
Amizades verdadeiras não enfraquecem.
Elas apenas dormem.

Há cerca de quatro anos, soube que Alexandre havia partido, vítima de um acidente de moto.
A notícia me atingiu de forma brusca, quase física.
Como alguém tão presente em um pedaço importante da minha história pôde ir embora sem que eu soubesse?
A dor veio acompanhada de culpa — essa sensação estranha de ausência tardia.
Demorei a aceitar.
Ainda hoje, quando penso nele, lembro das gargalhadas, das brincadeiras, da leveza que só existe quando a vida ainda não pesa.

Agora, descubro que Flávio também se foi.
Não sei como, não sei quando exatamente.
Soube pelas redes, novamente por um amigo em comum.
O sentimento retorna, mais denso: culpa por não ter insistido, por não ter mantido o fio esticado.
Perda por saber que não haverá outro encontro casual, outra chance de reacender aquela chama antiga, mesmo que em poucas palavras.

É fácil dizer “a vida aconteceu”.
Talvez seja verdade.
Talvez seja também uma desculpa confortável demais.
O que sinto agora parece um tipo de castigo que aceito sem revolta — consequência direta do que deixei passar.

Engraçado como a gente acredita que aprende observando, mas só entende quando dói.
Espero, sinceramente, ter aprendido.
Amizades precisam de cuidado.
Presença, mesmo que simples.
As pessoas que nos querem bem — e aquelas a quem queremos bem — precisam ser lembradas enquanto ainda estão aqui.

Este texto não é um lamento.
É um gesto.
Um agradecimento tardio, mas sincero, pela amizade que tivemos, pelo tempo que foi, pelo que ficou.

Obrigado, Flávio.
Obrigado, Alexandre.

Que, em algum ponto além do tempo, o universo nos permita um reencontro.

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