Não sou muito de participar de trends. Ainda assim, uma delas recentemente me chamou a atenção. A proposta era simples: um comparativo fotográfico com dez anos de diferença. #2016vs2026. Como já deve ter ficado claro pelas imagens desta coluna, sou entusiasta do uso de IA no tratamento e na criação de imagens. Arregacei as mangas e o resultado até foi satisfatório.
Mas a trend fez mais do que divertir. Ela me colocou diante de uma pergunta antiga, dessas que costumam chegar tarde: o que muda, de fato, em uma década? O tempo altera apenas o rosto ou também aquilo que sustenta o olhar? Foi nesse ponto que a brincadeira virou reflexão. Surgiu, então, um diálogo (im)possível — e talvez inevitável — entre duas versões minhas: o Geison de 2016 e o de 2026.
2016:
Caaaaara… o que aconteceu com você? Tá meio diferente.2026:
Normal. Eu dormi.2016:
Dormiu? Desde quando isso virou prioridade?2026:
Desde que eu descobri que acordar cansado todo dia não tem vantagem nenhuma. Pelo contrário.2016:
Você tá mais quieto. Antes falava mais alto.2026:
Ainda falo alto. Mas hoje escolho melhor quando. Antes eu precisava ocupar espaço. Agora eu prefiro ocupar sentido.2016:
Olha aí… começou com essas frases bonitas. Em 2016 você resolvia as coisas na hora. Sem pensar demais.2026:
Eu sei. E resolvia mesmo. O problema é que resolvia dez… e criava quinze novas.2016:
Mas tinha energia! Eu aguento o tranco. Se dá pra socar, ainda dá pra resolver.2026:
Aguentava porque não se escutava. Hoje eu escuto. Às vezes o corpo, às vezes a cabeça. E, de vez em quando, aquele silêncio que você insiste em ignorar.2016:
Ah… você ficou medroso?2026:
Não. Pelo contrário. Acho que fiquei até mais corajoso. Só aprendi a ser seletivo. Medo paralisa. Critério direciona.2016:
E a felicidade? Você parece… mais sério.2026:
Sou mais calmo. A felicidade continua aqui. Só não faz mais escândalo. Ela chega, senta, fica um pouco e vai embora sem quebrar nada.2016:
Quebrar as coisas que podem – e devem – ser quebradas é da hora! Tem que mostrar entusiasmo!2026:
Eu também acho. Mas aprendi que tenho que limpar toda a bagunça depois. E sinceramente, cansei.2016:
A família ainda é prioridade?2026:
Como sempre, mais do que nunca.2016:
Então pelo menos isso você não estragou.2026:
Não. Isso a gente acertou cedo.2016:
Confessa: você sente falta de mim.2026:
Sinto. Da coragem meio inconsequente. Da energia bruta. Do jeito que você acredita que tudo tem jeito.2016:
Daqui dez anos, acho que vou querer ter a sua calma. Na real, você parece saber onde pisa.2026:
Ainda tropeço de vez em quando. As vezes, cair é inevitável. Mas tomo mais cuidado. Cada escorregão é uma oportunidade nova para aprender. E muito! Você também, inevitavelmente, vai. Escorregar, cair e aprender…2016:
Então quer dizer que eu vou virar você?2026:
Não… eu já estou aí. Dormente. A essência não muda. Mas admito, você virou parte de mim.2016:
Bom… podia ser pior.2026:
Sem dúvida. A gente podia não ter aprendido nada. Saúde!(Os dois brindam. Um vira tudo num gole só. O outro degusta vagarosamente.)