RIP do jornalismo: Quando a estratégia é destacar os R$ 6 bilhões em prejuízo dos Correios e “esquecer” de mencionar o lucro de R$ 111,90 bilhões das 4 principais estatais?

Foto de Tramujas Jr.

Tramujas Jr.

Por Francisco Tramujas

 

O jornalismo econômico brasileiro não está em crise por falta de dados. Está em crise por excesso de preguiça analítica. Manchetes sobre a “crise dos Correios” se repetem como um mantra, sempre apontando o mesmo culpado conveniente: a gestão pública.

 

O problema não é falar do prejuízo. O problema é parar nele — como se economia fosse moral, não estrutura; ideologia, não mercado.

 

Quando a análise ignora concorrência, transformação tecnológica, mudança de comportamento do consumidor e colapso de modelos de negócio históricos, ela deixa de ser jornalismo econômico. Passa a ser opinião travestida de informação, repetida à exaustão até parecer verdade absoluta.

 

E o mais grave: essa “análise” seletiva não é inocente. Ela escolhe o que mostrar, o que omitir e quem culpar. Enquanto uma estatal é usada como espantalho, outras empresas federais batem recordes de lucro e simplesmente desaparecem do debate. Não por falta de relevância, mas por falta de conveniência narrativa.

 

O que o jornalismo econômico finge não enxergar

Os Correios acumulam cerca de R$ 6 bilhões em prejuízos. Isso é fato, a análise mais acurada sinaliza um déficit total de R$ 12 bilhões e deve ser investigado.

O que não é fato — mas é repetido à exaustão — é que isso se explica exclusivamente por “má gestão pública”.

 

O que quase nunca entra na conta:

  • O fim estrutural das cartas como base de receita.
  • A digitalização total de boletos bancários, notificações e comunicações oficiais.
  • A migração do e-commerce para logística própria e verticalizada.
  • A explosão de marketplaces globais com capital, escala e tecnologia.

 

Nada disso cabe em manchete simples. Porque exige análise. E análise dá trabalho.

 

Mercado mudou. O discurso, não.

Mercado Livre, Amazon, Shopee e Shein não apenas competem com os Correios. Eles redesenharam a lógica logística, transformando o last mile –   a última milha da entrega – em ativo estratégico e internalizando operações que antes sustentavam a estatal.

 

Comparar uma empresa com obrigações universais, capilaridade nacional e função pública com plataformas globais financiadas por capital internacional não é análise econômica.
É desonestidade intelectual.

 

A pergunta que o jornalismo evita fazer

Se a gestão pública é, por definição, incompetente, por que o mesmo jornalismo omite sistematicamente os resultados das estatais que dão certo?

 

Em 2024 – dados mais recentes de balanço anual fechado:

  • Petrobras: cerca de R$ 36,6 bilhões de lucro.
  • Banco do Brasil: aproximadamente R$ 35,4 bilhões.
  • BNDES: cerca de R$ 26,4 bilhões.
  • Caixa Econômica Federal: cerca de R$ 13,5 bilhões.

 

Somados somente as 4 principais estatais brasileiras lucraram R$ 111,90 bilhões, esses números pulverizam completamente o prejuízo dos Correios (ou seja, pouco mais de 5,3% do lucro destas). Ainda assim, quase nunca viram manchete ou análise comparativa.

 

Por quê?

 

Quem controla o discurso econômico no Brasil

Aqui está o ponto que o jornalismo econômico foge deliberadamente:
quem são os donos de quem “analisa” a economia.

 

  1. InfoMoney – O InfoMoney pertence à Infostocks, controlada pela XP Controle Participações S.A., braço do ecossistema XP Inc. — corretora, banco, gestora e plataforma de investimentos.

 

  1. Valor Econômico – O Valor Econômico é 100% controlado pelo Grupo Globo, após a compra da participação da Folha. O Grupo Globo pertence à família Marinho, um dos maiores conglomerados de mídia da América Latina e que hoje controla fundos de investimentos.

 

  1. O Globo / Globo.com / Editora Globo – Também pertencem ao Grupo Globo, controlado pela família Marinho, com interesses diretos em concessões públicas, publicidade estatal, mercado audiovisual e plataformas digitais.

 

  1. Folha de S.Paulo – A Folha é controlada pela Família Frias, por meio da Folha da Manhã S.A e investe pesado em fundos de investimento.

 

  1. UOL – O UOL pertence majoritariamente ao Grupo Folha (Família Frias), com histórico de parcerias estratégicas e investimentos ligados ao mercado financeiro e tecnologia.

 

  1. Exame – A revista Exame foi adquirida pelo BTG Pactual, banco de investimentos com forte atuação em mercado de capitais, privatizações, M&A e gestão de ativos.

 

  1. Veja – A revista Veja pertence ao Grupo Abril, que passou por profunda reestruturação financeira, com participação de fundos e credores institucionais após sua recuperação judicial.

 

  1. Grupo Abril – O Grupo Abril hoje opera sob influência direta de fundos financeiros, após vender ativos estratégicos e reestruturar dívidas com bancos e investidores.

 

 

O silêncio também é editorial

Quando o jornalismo econômico:

  • Não contextualiza mercado.
  • Não compara setores.
  • Não explica mudanças estruturais.
  • Não revela conflitos de interesse.
  • Não mostra quem ganha com determinada narrativa.

 

Ele não informa.
Ele orienta.

 

Quem pauta quem?

Os grandes financiadores da mídia econômica brasileira são:

  • Bancos.
  • Fundos de investimentos.
  • Gestoras de fundos.
  • Conglomerados empresariais.

 

Esses mesmos agentes têm interesse direto em:

  1. Demonizar empresas públicas.
  2. Fragilizar a percepção da gestão estatal.
  3. Criar ambiente favorável à desestatização.
  4. Comprar ativos públicos “na promoção”.

 

Isso não é ideologia.
É economia política básica.

 

Vide o vídeo abaixo do André Esteves que é Chairman e Sócio do BTG Pactual explica de forma muito clara como os fundos operam.

 

O problema, que o debate raso convenientemente ignora, não é a privatização em si — é o modelo de privatização. Comparar o que está sendo feito hoje com o processo conduzido no governo FHC, especialmente nas telecomunicações, é uma desonestidade intelectual. Naquele momento, o Estado privatizou criando empresas-espelho, ou seja, as concessionárias já nasciam com concorrentes regionais e nacionais. O resultado foi óbvio: competição, queda de preços, aumento de investimento, inovação e ganho direto para o consumidor final. Privatização com mercado, não com feudo.

 

Hoje, o que se vende como “eficiência” é, na prática, transferência de monopólios naturais com carteira cativa de clientes. Nos setores elétrico e de saneamento, não se privatiza uma empresa: entrega-se um mercado fechado, exclusivo, sem concorrência real. O novo controlador não precisa conquistar clientes, não disputa preço, não inova — ele simplesmente herda a demanda. É capitalismo de renda, não de risco. Não a toa os caos de empresas que pioram o nível de serviços prestados e aumentam os preços se multiplicam.

 

O próprio André Esteves, Chairman e sócio do BTG Pactual, explica com clareza como os fundos operam: compram ativos previsíveis, com fluxo garantido, baixo risco e alta recorrência. O que ele convenientemente não menciona é que esse modelo só funciona porque o Estado cria artificialmente essas condições ao privatizar sem competição. Diferente das telecomunicações, onde o investidor precisou disputar cliente a cliente, hoje os fundos compram ativos que já vêm com receita garantida por contrato e ausência estrutural de concorrência. Isso não é modernização do Estado — é cartelização legalizada com selo de eficiência.

 

Conclusão incômoda

Os Correios precisam de auditoria? Sim.
Precisam rever o plano de negócios? Urgentemente.
Precisam se adaptar a um mercado que mudou radicalmente? Sem dúvida.

Mas reduzir tudo isso a “gestão pública incompetente” não é análise econômica.
É conveniência narrativa.

O que morreu não foi a economia.
Foi o jornalismo econômico que fazia conta, questionava interesses e explicava causalidade.

RIP jornalismo econômico.

 

Fontes e referências

Estatais

Estatais federais (consolidação)

Mídia e controle societário

 

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