Sabe quando o universo resolve te dar um tapa só pra lembrar quem manda? Então… meu carinho do universo veio na forma de mordida de cachorro. E não foi num dia ruim. Foi num dia perfeito. Casamento ótimo, família com saúde, negócios andando… eu estava quase acreditando que tinha hackeado a vida.
De manhã eu e minha esposa — olha o milagre — fomos tomar café juntos. Coisa de casal que parece propaganda de margarina. Café da manhã top. A gente se despede, ela vai pro salão, eu vou pra firma. A firma fica a 400 metros dali. Quatrocentos metros! O que poderia dar errado em 400 metros?
Não é mesmo?
Resolvo ir caminhando. “Vou aproveitar pra fazer exercício”. Já começou errado. O universo ouviu e pensou: “Ah é? Tá se achando fitness? Vem cá! Vamos conversar…”
Aí eu, inocente, atravesso o território de um vira-lata caramelo. O caramelo, essa entidade brasileira. Não é cachorro. É patrimônio histórico. É tipo o Cristo Redentor, só que com sarna e atitude.
Eu tento agir de boa, fazer diplomacia internacional. Olho, desvio, respeito o espaço aéreo… passo, acho que tá tudo certo e penso: “Pronto, sobrevivi.” Mas pra quem não sabe: território de caramelo é tipo favela em filme do Tropa de Elite… você entra só com autorização do dono.
Eu entrei sem pedir.
Baita erro.
O desgraçado do caramelo, silencioso como um monge shaolin e traiçoeiro como um ninja treinado pelo Mestre Pai Mei, veio.
De repente… *NHACK*!
Metade da arcada dele na minha panturrilha. Do nada! Eu só consegui gritar um “NÃO!” tão forte e gutural que deixaria qualquer vocalista de banda gore-trash-metal orgulhoso.
O cachorro largou minha perna com a tranquilidade de quem só queria deixar claro: “O recado está dado, humano… missão dada é missão cumprida. Vai lá refletir sobre a vida.”
Eu sigo andando, adrenalina a mil, e começo a sentir uma quentura ali. Penso: “Ah, legal, tô cozinhando por dentro.”
Caminho quase uma centena de metros e começo a sentir a queimação. Liguei pra minha esposa achando que ia ouvir um “coitadinho”.
Ela manda:
— Você já tá no posto de saúde, né?
Claro. Porque eu, adulto de 47 anos, sou conhecido por tomar decisões sensatas sob estresse.
Me dirijo ao posto. Explico a saga. Me mandam para as vacinas. Fico esperando uns 15 minutos achando que não tinha ninguém trabalhando ali. Aí entra um profissional e a moça do setor aparece, tipo NPC que só é ativado quando alguém abre a porta.
Ela me diz que vou tomar CINCO doses de antirrábica. Uma por semana.
Enquanto ela preparava o injetável, constatei no celular sobre a mesa, o motivo da demora: ela estava conversando com o “amigo tigrinho” no celular.
Tigrinho.
Aparentemente, até meu tratamento médico depende do humor de apostadores.
Sobre a limpeza da ferida?
“Ah, o responsável não tá hoje. O senhor mesmo pode fazer.”
O senhor mesmo.
Eu pensei: “Eu vim tomar vacina, saí daqui com diploma de enfermagem.”
Aí me orientam a procurar o dono do cão.
Volto lá. Bato palmas. Sai o cara. Descrevo o ocorrido ele responde:
— Mas nem é meu cachorro…
Ele mal termina a sentença e quem aparece atrás dele? O bastardo caramelo. Agora com cara de aluno, certo da suspensão, com a mãe sendo chamada na escola.
— Pois é… Ele apareceu aqui, foi ficando e a gente acabou cuidando.
No fim, descubro que as vacinas dele estavam em dia. O que é ótimo pois, pelo menos, fui atacado por um cachorro responsável.
Peço que prendam o bicho. Que mantivessem o guardião preso, acorrentado, enclausurado nos portões de Hades — ou pelo menos dentro do quintal — para evitar que outros incautos passassem pelo mesmo treinamento de ninjutsu que eu recebi.
Volto pra casa com o orgulho e a panturrilha feridos.
E agora, toda vez que passo na rua do Caramelo, O Terrível, eu atravesso pro outro lado.
Não por medo.
Por respeito.
Porque ali é território dele. Eu sou só o turista.