O Confisco de Collor, a Herança Maldita da Ditadura e o Plano Real: A Verdadeira História da Inflação Brasileira

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Tramujas Jr.

O Confisco de Collor, a Herança Maldita da Ditadura e o Plano Real: A Verdadeira História da Inflação Brasileira

 

Por Francisco Tramujas

 

A história econômica do Brasil é feita de ciclos de esperança e frustração. Mas se há um fantasma que perseguiu gerações inteiras de brasileiros, esse fantasma tem nome: inflação galopante. Muito antes de Collor, Jânio ou Bolsonaro, a inflação já era o sintoma mais cruel de um modelo econômico viciado no improviso, na corrupção e no populismo. E sua raiz mais profunda está na herança maldita do regime militar (1964–1985).

 

Durante a ditadura, o Brasil viveu o chamado “milagre econômico” (1968–1973), período em que o PIB crescia acima de 10% ao ano e a propaganda oficial vendia a imagem de um país que “ia pra frente”. Mas esse crescimento era artificial: sustentado por endividamento externo em dólar barato e por uma política de expansão sem lastro.

 

Quando veio o choque do petróleo em 1979, a fatura chegou. Resultado: inflação acima de 200%, dívida externa que saltou de US$ 6 bilhões em 1964 para mais de US$ 100 bilhões em 1985, e um país à beira da moratória.

 

A década de 1980, chamada de “década perdida”, foi apenas o desfecho desse processo. O Brasil enfrentou uma inflação média de 230% ao ano, chegando a absurdos 1.700% em 1989. Os planos econômicos se sucediam — Cruzado, Bresser, Verão — mas eram remendos em um tecido já apodrecido.

 

Foi nesse cenário que emergiu Fernando Collor de Melo, um político de extrema direita, no mesmo espectro histórico de Jânio Quadros e, mais tarde, de Jair Bolsonaro. Collor chegou ao poder com a promessa de “caçar marajás” e de acabar com a hiperinflação. Sua solução? O confisco da poupança em 1990, uma medida draconiana que congelou depósitos bancários de milhões de brasileiros.

 

A mídia, em especial o Jornal Nacional, tratou o anúncio com sobriedade conivente, sem o questionamento crítico que a democracia exigia. Afinal, Collor atendia aos anseios das elites que sempre moldaram o discurso midiático.

 

O resultado foi trágico: famílias desestruturadas, empresas quebradas, desemprego em alta e uma inflação que continuou acima de 1.600% ao ano. Collor não derrotou o monstro — apenas o alimentou.

 

O alívio só veio anos depois, já no governo de Itamar Franco, um político progressista do MDB. Foi sob sua gestão que, com apoio de ministros como Fernando Henrique Cardoso (centro direitista com sua visão econômica neoliberal) e Ciro Gomes, nasceu o Plano Real em 1994.

Diferente dos pacotes anteriores, o Real atacou a raiz do problema: reorganizou as contas públicas, criou a URV (Unidade Real de Valor) como ponte para estabilizar preços e devolveu ao povo a confiança na moeda.

 

A inflação, que corroía salários e condenava o trabalhador ao eterno atraso, finalmente foi domada. Em 1995 já estava em 22%, e em 1998 havia caído para menos de 10%. Pela primeira vez em décadas, o brasileiro podia planejar o futuro sem medo de ver seu dinheiro evaporar da noite para o dia.

 

O contraste é nítido: enquanto os governos de extrema direita, de Jânio a Collor e depois Bolsonaro, apostaram em aventuras, estelionatos eleitorais e medidas autoritárias, foi um plano técnico, gestado em ambiente democrático, com respaldo político e acadêmico, que de fato salvou a economia. E Incrível, na época FIEP, partidos políticos (de direita e esquerda) e a mídia em geral apostaram contra o Real.

 

A hiperinflação não nasceu nos anos 80, tampouco foi criada por Collor. Ela foi a herança maldita da ditadura militar, fruto de endividamento irresponsável, populismo econômico e ausência de transparência. O confisco de Collor apenas agravou a ferida. O Plano Real, por sua vez, foi o antídoto: uma construção democrática, feita a muitas mãos, que devolveu ao Brasil sua dignidade econômica.

 

A Herança da Ditadura Militar (1964–1985)

O regime militar vendeu ao país o sonho do “Milagre Econômico” (1968–1973), quando o PIB crescia mais de 10% ao ano. Mas esse crescimento era artificial, sustentado por endividamento externo barato e obras faraônicas.

 

Com o II Choque do Petróleo (1979), a farsa ruiu:

  • Inflação acima de 200%;
  • Dívida externa saltando de US$ 6 bilhões em 1964 para mais de US$ 100 bilhões em 1985;
  • Crise fiscal e crescente desigualdade social.

 

Ao final da ditadura, o Brasil carregava uma bomba-relógio econômica: inflação crônica e dívida explosiva.

 

A Década Perdida (1980s)

A transição democrática herdou um cenário devastador.

  • Inflação média: 230% ao ano, chegando a 1.700% em 1989.

  • Planos econômicos (Cruzado, Bresser, Verão) tentaram conter o caos, mas falharam porque atacavam sintomas, não causas.
  • Em 1987, o Brasil declarou moratória da dívida externa — um marco de isolamento e desconfiança internacional.
  • O povo pagava a conta: salários evaporavam, produtos sumiam das prateleiras e a incerteza era regra. Não a toa foi a década das dispensas, freezers e dependência de empregada em domicílios se expandia. Sem contar com o fechamento dos postos de combustíveis durante a noite por falta de combustível.

 

Collor e o Estelionato Econômico (1990–1992)

Foi nesse caldo de frustração que emergiu Fernando Collor de Melo, um político de extrema direita, na tradição de Jânio Quadros e, mais tarde, Jair Bolsonaro.

 

Eleito em 1989 com a promessa de “caçar marajás” e derrotar a inflação, Collor encenou um discurso moralista que encantou parte da elite e foi blindado pela mídia, em especial pelo Jornal Nacional, que tratava seu governo com condescendência.

 

Sua medida mais radical foi o confisco da poupança em 1990: depósitos bancários foram congelados, em um ato autoritário que arruinou famílias e empresas.

 

O resultado? O contrário do prometido:

  • Inflação de 1.620% em 1990;
  • Recessão de -4,35% do PIB;
  • Aumento do desemprego e colapso da confiança.

 

Collor não venceu a inflação — apenas agravou a crise. Seu governo naufragou em escândalos de corrupção e terminou em impeachment em 1992.

 

A Virada: O Plano Real (1994)

Foi no governo de Itamar Franco, político progressista do MDB, que surgiu a verdadeira resposta à hiperinflação.

 

Com Fernando Henrique Cardoso (político de centro direita com uma visão neoliberal da economia) como ministro da Fazenda e apoio de nomes como Ciro Gomes, nasceu o Plano Real.

 

Diferente dos remendos anteriores, o Real foi um projeto técnico e político estruturado:

  • Criou a URV (Unidade Real de Valor) como moeda de transição;
  • Reorganizou contas públicas e deu credibilidade ao ajuste fiscal;
  • Preparou terreno para a nova moeda em 1994.

 

Os resultados foram históricos:

  • Inflação caiu para 22% em 1995 e para menos de 10% em 1998;
  • O PIB voltou a crescer em média 4%;
  • O Brasil recuperou a confiança interna e externa.

 

Foi um divisor de águas: pela primeira vez em décadas, o brasileiro podia planejar sua vida sem medo de ver o dinheiro evaporar.

 

Linha do Tempo da Inflação e Macroeconomia

1964 – Ditadura Militar: inflação moderada, dívida externa controlada.

1973 – Milagre Econômico: PIB >10% ao ano, mas baseado em endividamento.

1979 – II Choque do Petróleo: inflação explode (>200%).

1985 – Fim da Ditadura: dívida externa >US$ 100 bi, inflação crônica.

1989 – Hiperinflação: >1.700%, moratória da dívida.

1990 – Collor confisca poupança, inflação segue em 1.600%.

1994 – Plano Real: criação da URV, estabilização da economia.

1998 – Inflação <10%, Brasil retoma credibilidade.

 

Lições da História

A inflação galopante foi, acima de tudo, herança maldita da ditadura militar.

 

A extrema direita (Jânio e Collor) sempre vendeu soluções fáceis que terminam em estelionato econômico e tragédia social.

 

A estabilização real só veio com uma construção democrática, técnica e responsável: o Plano Real.

 

A mídia, em especial, mostrou-se seletiva: quando governos de direita erram, o tom é brando; quando são de outra vertente, a crítica vira espetáculo.

 

O Brasil só venceu a hiperinflação quando decidiu encarar a realidade, com ciência, política e responsabilidade. O confisco de Collor foi a mentira mais cruel de uma longa lista de promessas falsas. A verdade é que só a democracia — com seus debates, tensões e pactos — foi capaz de devolver ao povo o direito de confiar no futuro.

 

 

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