Maio de 2003. Uma e quarenta e cinco da madrugada.
Eu estava no escritório travando uma batalha perdida contra a instalação do lendário Windows XuPeta. Quando os olhos começaram a pesar mais que os meus pecados, decretei: chega. Melhor ir para casa antes que meu cérebro desse tela azul.
Criei coragem, entrei no carro e dei a partida.
Não rodei nem três metros.
O mundo virou uma tempestade de luzes vermelhas. O giroflex rasgou a escuridão da rua vazia e dois refletores de luz alta vieram direto na minha cara.
Com a consciência limpa de um jovem trabalhador madrugador, simplesmente desliguei o motor e pensei, com uma calma quase ingênua:
— Ah, nada demais. Só uma checagem de rotina.
Foi então que a porta da viatura se abriu e o policial desceu. Com a arma em punho. Apontada perfeitamente entre os meus dois olhos. A calma virou poeira no ar.
— DEIXE AS MÃOS ONDE EU POSSA VER! — ecoou o grito que fez minha espinha gelar.
Tremendo mais que vara verde em tempestade, preguei as duas palmas no para-brisa. O policial veio caminhando lentamente até a minha porta, a ferramenta do juízo final acompanhando cada um dos meus movimentos.
— Abra a porta! — ordenou.
Tomado por uma mistura de pânico e instinto de sobrevivência, respondi de dentro do carro:
— Abre você!
E ele abriu. Mão no gatilho, olhar cerrado, e começou o interrogatório padrão da madrugada:
— O que você estava fazendo aí? Quem é você? Por que diabos está na rua a essa hora?
Até eu conseguir desenrolar a tese de que chifre não nasce em cabeça de cavalo, a arma não saiu da minha direção um segundo sequer.
Só quando o homem finalmente se convenceu de que eu não era um elemento de alta periculosidade — apenas um coitado surrado pelo sistema operacional da Microsoft — ele baixou ligeiramente o cano. Mas a arma continuava firme na mão.
— Por favor, gostaria de ver seus documentos e os do veículo.
Pálido feito cal e com o tremor já espalhado até pelos dentes, avisei:
— Olha… minha carteira está no bolso de trás da calça. Posso pegar?
Ele acenou que sim. E, por garantia, subiu a mira de novo. Puxei os documentos com a delicadeza de quem desarma uma bomba-relógio. Entreguei tudo. Ele conferiu, guardou o revólver e finalmente me deu alguma trégua. Levei a mão ao peito para verificar se o coração ainda morava ali. Morava. Batendo, numa estimativa bastante conservadora, a uns duzentos por minuto.
O policial me encarou, reparou no meu estado e então soltou, com a maior naturalidade do mundo, uma das frases mais memoráveis daquela noite:
— Mas por que você está com tanto medo, rapaz? A gente é da polícia!
A vontade foi responder na mesma hora:
— Pois é exatamente por isso que eu estou com tanto medo!
Mas, ponderando rapidamente o custo-benefício de passar o restante da madrugada explicando a piada dentro do camburão com destino ao DP, achei mais prudente engolir o sarcasmo e permanecer em silêncio.
Tudo conferido, documentos devolvidos. E por fim a justificativa:
— Quero que o senhor entenda que o procedimento armado, apesar de assustar, é para a minha segurança. Eu não tenho como saber quem é que está dentro do carro até conferir tudo.
Acenei positivamente com a cabeça e com o resto de alma que não tinha abandonado o corpo, respondi timidamente:
—Tudo bem…
Eu fui para casa, ainda trêmulo da cabeça aos pés. Os meganhas foram para o outro. Dizem que a primeira abordagem policial a gente nunca esquece.
Desde aquela madrugada de maio de 2003, eu posso confirmar:
não esquece mesmo.Este texto foi publicado originalmente em 13 de maio de 2003, em um antigo blog que eu mantinha chamado “Blue Living”. Nas próximas semanas, algumas histórias antigas serão retiradas do arquivo e trazidas novamente à luz. Não por acaso. Existe um motivo muito especial para revisitá-las agora.
Continue acompanhando a coluna. Em breve, você vai entender.