Fotografias que Eu Não Tirei

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Recentemente apareceu nas redes sociais uma daquelas trends feitas sob medida para provocar uma crise de meia-idade em qualquer pessoa que tenha sobrevivido aos anos 90. A situação simulada era simples. O filho perguntava ao pai:

— Como você era na década de 90?

E então começava um slideshow com fotografias da juventude do sujeito, devidamente embalado por “Iris”, do Goo Goo Dolls. Achei bonito. Também achei impossível fazer o meu. Não porque eu não tenha vivido intensamente aquela década. Muito pelo contrário. Talvez justamente por ter vivido intensamente demais. Tenho pouquíssimas fotografias daquele período.

Os mais jovens talvez não compreendam, mas fotografar naquela época envolvia uma logística considerável. Era preciso comprar o filme, colocá-lo na câmera, economizar as poses, levar para revelar e esperar alguns dias até descobrir que metade das fotografias tinha saído escura, tremida, com alguém piscando ou com um misterioso dedo ocupando um terço da imagem. Na minha cabeça, não valia o trabalho.

Ah, se eu soubesse como estava enganado.

Por outro lado, fotografias podem ser escassas, mas histórias… Histórias eu tenho. E esta é mais uma do Geison do Velho Testamento.

No final da década de noventa, sextas, sábados e uma quantidade preocupante de domingos eram destinados quase exclusivamente à diversão inconsequente. Encontrava os amigos e o esquenta começava antes mesmo de decidirmos para onde iríamos. Um dos lugares que frequentávamos era o El Rancho, na região do Largo da Ordem. Sempre lotado, cheio de jovens da nossa idade, gente bonita e músicas de gosto bastante questionável que, para minha vergonha, algumas ainda frequentam minhas playlists.

Isso significa que eu era um grande baladeiro?

Sim e não.

A balada propriamente dita ocupava uma posição surpreendentemente baixa na minha lista de interesses. Ia pelos amigos. Pelas conversas. Pelas piadas. Pelas histórias que invariavelmente nasciam quando aquele grupo estava reunido.

E pelas conquistas amorosas?

Aqui existe um compromisso com a verdade dos fatos. Eu não pegava ninguém.

O Geison do Velho Testamento era ainda menos articulado socialmente que sua versão atual. Se hoje às vezes me faltam algumas ferramentas no departamento da malemolência, naquela época o setor atendia das 10h às 10h15. E eu nunca conseguia chegar a tempo. O álcool, entretanto, estava sempre presente. E não. Isso não é motivo de orgulho.

Numa sexta-feira qualquer, lá estava eu no El Rancho, alegre e pirilampo depois de aproximadamente cinco cervejas. Numa escala absolutamente não científica de embriaguez entre zero e dez, eu provavelmente me encontrava em uns seis e meio. E estava de carro.

Era irresponsável? Evidentemente.

É indefensável pelos padrões de hoje e, pensando bem, também pelos daquela época. Mas esta é uma crônica de memórias, não uma tentativa de melhorar retroativamente meu currículo. Resolvi ir embora. Depois de acertar a conta do estabelecimento, fui até o carro e encontrei o tradicional guardador de veículos, figura quase folclórica das noites curitibanas daquela época. Hoje, confesso, não faço ideia se continua sendo.

Assim que me aproximei, veio a certificação oficial:

— Bem cuidado!

Abri a carteira. Tirei uma nota de um real. Entreguei ao rapaz.

Ou pelo menos foi isso que achei que tinha feito.

Entrei no carro e iniciei meu deplorável protocolo particular para chegar em casa. Todos os vidros abertos. Vinte quilômetros por hora. Um cigarro aceso. U2 tocando no último volume para ajudar a manter a concentração. Esse protocolo e as orações da minha mãe. Pela mais pura e tenra sorte, cheguei são e salvo. Desabei na cama porque, apesar de toda a irresponsabilidade da noite anterior, no sábado havia trabalho. A juventude possui essa capacidade extraordinária de receber maus-tratos e, poucas horas depois, apresentar-se novamente para o serviço. Três ou quatro horas de sono foram suficientes para colocar a máquina minimamente em funcionamento.

Como acordei com alguma antecedência, resolvi passar numa padaria para tomar aquilo que, aos vinte e poucos anos, eu considerava um café da manhã nutricionalmente adequado para um verdadeiro campeão: uma coxinha e um refrigerante.

Fiz o pedido, consumi, fui ao caixa e abri a carteira.

E naquele momento minha vida financeira entrou em colapso. É importante explicar que, naquela época, todas as minhas relações econômicas aconteciam em espécie. Eu não tinha cartão. Já havia aprendido da pior maneira possível que entregar um cartão de crédito para mim era uma experiência comparável a fornecer uma metralhadora carregada a um chimpanzé. Eu sabia exatamente quanto dinheiro deveria haver ali. O troco da noite anterior tinha sido um real e algumas moedas. Além disso, havia uma nota de cem reais.

Meu orçamento para dois fins de semana!

Cem reais naquela época faziam milagres. Era dinheiro suficiente para garantir várias noites de diversão.

Olhei novamente para a carteira. Lá estava ela.

Linda.
Imponente.
Solitária.
A nota de um real.

A realidade me atingiu como um saco de mijo arremessado do terceiro andar. Em cheio. Cirúrgico.

MALDITO FLANELINHA!

Eu não havia dado um real ao sujeito. Eu havia dado cem. E o cidadão, aparentemente tomado por uma discrição profissional admirável, não considerou necessário mencionar o pequeno equívoco. Durante alguns segundos fiquei indignado. “Nem para me avisar!”

Depois pensei que, no lugar dele, talvez também não avisasse….

Ah! Quem eu quero enganar???
Eu avisaria.
Claro que avisaria.

Ainda bem que nunca fui flanelinha.

Restava agora um segundo problema. Eu tinha acabado de comer uma coxinha e um refrigerante e possuía exatamente um real para honrar o compromisso. Por sorte, já era conhecido da moça do caixa. Expliquei a situação, provavelmente desejando ser engolido pelo balcão. Ela disse que eu poderia pagar depois. Fui trabalhar, passei no banco assim que pude, saquei dinheiro e voltei para quitar minha monumental dívida gastronômica.

Mas os cem reais… Esses tinham adquirido liberdade. Naquela noite de sábado, voltei à cena do crime. Ou melhor, do equívoco. Não para me divertir, mas para procurar o sujeito. Nada do rapaz.

Dei algumas voltas pela região. Nada.

Imagino que cem reais tivessem proporcionado ao nosso empreendedor do estacionamento informal condições financeiras suficientes para conceder a si mesmo alguns turnos de folga. Naquela semana também não houve mais balada. Como se ensina em um antigo provérbio chinês econômico:

Tá duro, dorme.

Na semana seguinte, porém, retornei ao El Rancho. Dessa vez, com orçamento curto, nada de exageros. Duas cervejas e uma água com gás pra gastar a infame taxa de consumação. E, quando estava indo embora, ouvi aquela voz:

— Bem cuidado!

Parei.
Olhei.
Era ele.

— Você!

O sujeito me encarou sem entender.

— Cara, você não se atreva a me cobrar novamente para estacionar aqui! Eu tenho passe livre eterno agora! Porra! Eu te dei cem reais por engano na semana passada e você nem falou nada!

Ele imediatamente incorporou a indignação de um homem injustamente acusado.

— Eu? Não! Você está me confundindo. Não peguei cem reais de ninguém!

Vieram justificativas. Explicações. Declarações sobre caráter, honestidade e provavelmente alguns capítulos inéditos de sua biografia. Interrompi:

— Cara, eu não estou pedindo o dinheiro de volta. Sei que já era. Só quero que você coloque a mão na consciência e não me cobre mais. Eu já te dei um dinheirão!

Ele ficou alguns segundos em silêncio. Olhou para mim. Depois para o horizonte. Coçou o queixo com a concentração de quem tentava resolver uma equação de segundo grau com duas incógnitas. Finalmente abriu um sorriso.

— Tá bom, chefe! Hoje eu não vou cobrar.

Hoje.

Descobri naquele instante que minha generosa contribuição prévia não havia adquirido o passe livre eterno. Tinha comprado, no máximo, uma diária. Entrei no carro. Quando abaixei o vidro, o sujeito ainda pediu:

— Tem um cigarro aí, chefe?

É claro que arrumei um cigarro… e ainda acendi pra ele. Puxou a primeira tragada e, antes que eu partisse, despediu-se:

— Vai com Deus, chefe!

Fez uma pequena pausa.

— E vê se não dá mole assim de novo!

Fui embora rindo, num misto de nervoso e vergonha de mim mesmo. Aquela foi provavelmente a coisa mais próxima de uma confissão que eu receberia. Nunca mais vi os cem reais. E, durante muito tempo, essa história permaneceu guardada apenas como mais uma das inúmeras idiotices praticadas pelo Geison do Velho Testamento.

Até que vi aquela trend. “Pai, como você era nos anos 90?”

Foi então que percebi por que não conseguiria responder à pergunta com um slideshow. Tenho poucas fotografias daquela época. Não existe uma foto daquela noite. Não tenho uma imagem do El Rancho lotado. Dos amigos reunidos. Do meu carro estacionado na rua. Do flanelinha. Da padaria na manhã seguinte. Muito menos daquele jovem imbecil abrindo a carteira e entregando ao guardador de carros o orçamento inteiro de dois fins de semana.

Na época, eu achava que fotografar essas coisas não valia o trabalho.

Hoje daria um bom dinheiro para ter algumas dessas imagens.

Talvez até mais de cem reais.

Talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois, eu escreva estas crônicas.

Elas são as fotografias que eu não tirei.

E algumas, aparentemente, custaram caro para revelar.

Compartilhe:

WhatsApp
X
Facebook