Existe um homem chamado Seit Hartmann. Um homem que ninguém conhece… Pelo menos é isso que dizem.
A única informação objetiva sobre ele é que empresta o rosto e a voz ao projeto musical alemão INNENDRUCK. Fora isso, quase tudo o que se sabe foi reconstruído a partir de relatos de pessoas que afirmam tê-lo conhecido em diferentes momentos da vida. O curioso é que nenhuma dessas histórias coincide perfeitamente com as outras. Talvez seja justamente isso que torne Seit Hartmann tão fascinante.
Dizem que nasceu em algum momento da década de 70, em algum ponto da antiga Alemanha Oriental. Não há consenso sobre a cidade. Alguns juram que foi numa pequena comunidade rural próxima à fronteira polonesa. Outros insistem que veio dos arredores de Leipzig. Há inclusive quem afirme que Hartmann sequer seja seu sobrenome verdadeiro. Um antigo vizinho, hoje com mais de oitenta anos, contou que o pai criava ovelhas e fazia questão de que o menino jamais faltasse à escola. Pela manhã estudava. À tarde ajudava nos campos. Enquanto os animais pastavam, porém, Seit parecia viver em outro lugar.
Sempre carregava um pequeno caderno. Desenhava. Escrevia. Rabiscava frases incompreensíveis. Segundo esse mesmo vizinho, havia algo desconfortável naquele garoto. Não porque fosse agressivo.
Pelo contrário. Era silencioso demais. Como se estivesse ouvindo alguma coisa que ninguém mais conseguia escutar.
Na adolescência mudou-se para Berlim para continuar os estudos. Foi ali que, segundo antigos colegas, conheceu a música que mudaria definitivamente sua vida. Naquele tempo, o muro ainda dividia a cidade. O concreto separava muito mais do que ruas. Separava ideias, livros, filmes, canções e toda forma de livre pensar. O regime fazia o possível para impedir que a cultura ocidental atravessasse a fronteira. Mas existe uma característica comum a praticamente todos os jovens da história da humanidade: quanto mais alguma coisa é proibida, maior se torna a vontade de conhecê-la.
Alguns estudantes passaram então a improvisar antenas artesanais nos telhados dos prédios. Levavam rádios desmontados, fios reaproveitados, componentes soldados à mão. Esperavam o vento certo, a posição certa, o silêncio certo. Às vezes bastava mover o aparelho alguns centímetros para que o chiado desaparecesse e, por poucos segundos, uma guitarra atravessasse o muro. Era suficiente.
Black Sabbath, Deep Purple, Creedence, Ramones, The Who, Little Richard, Beatles.
Não eram apenas bandas. Eram evidências de que existia um mundo inteiro do outro lado. Um mundo que o concreto não conseguia esconder completamente. Essas reuniões clandestinas nunca deixaram de ser proibidas. A diferença era que, em algumas noites, as autoridades fingiam não perceber. Tudo dependia da noite, do bairro, e, principalmente, do humor do oficial encarregado da ronda.
Quando resolviam fazer vista grossa, tudo terminava em música. Quando acordavam do lado errado da cama, alguns jovens acabavam conhecendo centros destinados à “reeducação de comportamento”. Por isso, em determinadas noites, os telhados de Berlim ficavam estranhamente silenciosos.
Ainda assim, dizem que Seit não se intimidava. Toda noite, independente do grau de risco, subia no telhado. Morria de medo de ser descoberto. Ou talvez, como garantem alguns colegas, morresse justamente de curiosidade para descobrir o que aconteceria se fosse. Depois disso, os relatos tornam-se ainda mais nebulosos.
Alguns afirmam que, na noite de 9 de novembro de 1989, Seit ajudou a derrubar um trecho do Muro de Berlim usando uma marreta até as mãos sangrarem. Outros juram que ele apenas observava. Há uma terceira versão segundo a qual ele chegou tarde demais, quando milhares de pessoas já comemoravam. Mas todas concordam num detalhe:
Depois que parte da estrutura finalmente veio abaixo, Seit sentou-se sobre uma pilha de escombros. As mãos estavam cobertas de pó, os joelhos ralados e, entre os dedos, segurava um pequeno fragmento do muro que havia acabado de cair. Ficou ali por horas, em silêncio, tentando compreender o tamanho de uma liberdade que ainda era jovem demais para nomear.
Há quem diga que Seit ainda carrega aquele pequeno fragmento de concreto no bolso do casaco. Não porque tenha valor histórico, mas porque serve de lembrança de que todo muro começa exatamente do mesmo jeito: um bloco de cada vez. E que, felizmente, também pode terminar assim. Desde então, jurou a si mesmo jamais permitir que qualquer parede, fosse de concreto, de medo ou de silêncio, voltasse a aprisionar suas ideias.
Depois disso… silêncio. Quase trinta anos de silêncio. Nenhuma fotografia confiável. Nenhum registro público. É como se Seit Hartmann simplesmente tivesse deixado de existir. Até que, décadas depois, surgiu o INNENDRUCK.
Voz grave. Expressão fechada.
Letras sobre culpa, desejo, memória, pressão e tudo aquilo que um ser humano passa a vida inteira tentando esconder. Fora dos palcos, continuam circulando histórias.
Alguns afirmam que é casado. Outros dizem que tem dois filhos. Há quem garanta que leva uma vida completamente comum e que jamais seria reconhecido fazendo compras num supermercado. Nenhuma dessas informações foi confirmada.
Na verdade… existe apenas uma única informação sobre Seit Hartmann cuja autenticidade eu posso garantir.
E foi justamente ela que motivou esta coluna.
Seit Hartmann nunca existiu.
Ou melhor… nunca existiu fora da minha cabeça.
Ele nasceu onde todos os personagens realmente nascem: dentro de uma necessidade.
E cresceu alimentado única e exclusivamente pela imaginação.
Não ajudou o pai a cuidar de ovelhas. Nunca escalou telhados em Berlim. Jamais golpeou o Muro com uma marreta. Mas carrega um pouco de tudo isso porque foi construído com pedaços das coisas que construíram quem eu sou. Minha fascinação pela vertente musical da cultura alemã. Minha adolescência ouvindo Black Sabbath, Metallica, Ramones e Sepultura.
As histórias que vivi. As dores que calei. As ideias que jamais encontravam o tom certo quando escritas em português.
Eu escrevo crônicas.
Seit escreve letras.Eu uso humor para lidar com as minhas cicatrizes.
Ele transforma as mesmas cicatrizes em distorção.Eu trabalho numa copiadora.
Ele canta numa fábrica imaginária.Eu peço licença.
Ele chuta a porta.Passei muito tempo acreditando que artistas criavam personagens. Hoje acho que que não é bem assim. Os personagens nascem espontaneamente e acabam criando coragem para dizer aquilo que seus autores ainda não conseguem. Talvez todo escritor tenha um alter ego. Talvez todo músico também. O meu resolveu nascer na Alemanha Oriental. E cantar em alemão.
No fundo, Seit Hartmann não é o vocalista do INNENDRUCK. É apenas uma parte de mim que encontrou um jeito diferente de contar exatamente as mesmas histórias.
Agora você sabe quem ele é. Ou talvez saiba ainda menos. Porque, desde o começo desta coluna, eu nunca estive apresentando Seit Hartmann. Estive apresentando o homem que mora na mesma cabeça que eu. E, curiosamente…
ele continua sendo um homem que ninguém conhece.
Se, depois de conhecer o homem que ninguém conhece, você quiser ouvir sua voz, o primeiro álbum do INNENDRUCK já está disponível nas principais plataformas de áudio! Você também pode ouvi-lo completo no YouTube clicando aqui.
Além das músicas, também estão disponíveis os clipes de Japanerin e Dein Gesicht im Schicksal. E, para quem quiser mergulhar um pouco mais fundo nesse universo, preparei um encarte digital gratuito com as letras, traduções e informações do álbum. Você pode baixá-lo clicando aqui.
P.S.: Enviei esta coluna para Seit Hartmann revisar. Como sempre, ele preferiu permanecer em silêncio.