O Irmão da Sandy e a Opinião de Mãe

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Lá pelos idos dos anos 2000, meu visual começou a caminhar para o que é hoje: um cabelo levemente espetado, bagunçado com extremo cuidado e planejamento milimétrico. Mas nem sempre foi assim. Na minha adolescência, eu ostentava algo que não chegava a ser um corte tigela, mas passava raspando. Eram fios extremamente finos, loiros e lisos. Pedindo a devida licença poética para parafrasear o Caco Antibes, meu cabelo era algo que lembrava os campos de trigo balançando ao sabor do vento em algum condado germânico.

Eu penteava aquela relíquia com extremo esmero, abusando do gel de farmácia para construir e conservar um topete que eu jurava ser invejável. Como já confessei por aqui, minha percepção e minha malemolência nunca foram coisas que se pudessem definir como aguçadas. Principalmente quando o assunto era minha autoimagem. Eu vivia na mais perfeita e pacífica ignorância estética.

Tudo mudou aos 19 anos. Eu estava no quarto, assistindo à TV em uma noite qualquer, quando meu irmão Gelerson entrou para pegar alguma coisa. Ele parou na porta, olhou fixamente para a minha cabeça por alguns segundos e soltou:

— Cara, você nunca pensou em mudar o cabelo?

A pergunta me pegou de jeito. Mudar? Como? O que fazer? A resposta divina brotou da própria TV, que estava ligada naquele exato momento. Na tela, o Junior — o irmão da Sandy — ostentava o corte mais modernoso da época: as laterais da cabeça raspadas em um degradê progressivo e o topo cuidadosamente, intencionalmente bagunçado.

Acho que foi a decisão mais rápida da minha vida. No dia seguinte, eu já estava na cadeira do barbeiro tentando explicar o corte. Depois de falhar fragorosamente na descrição técnica, me rendi à vergonha e dispensei os detalhes:

— Faz igual ao do irmão da Sandy.

O profissional entendeu o recado, deu o seu melhor e entregou um visual totalmente diferente de tudo o que eu já tinha experimentado. Ao levantar da cadeira, eu me sentia um novo homem. Repaginado, reconstruído, reformado e, pela primeira vez em muito tempo, genuinamente bonito. O corte foi um sucesso absoluto entre os amigos. Todos concordavam que o estilo despojado finalmente combinava comigo.

Havia apenas uma voz dissonante em todo o hemisfério sul: Dona Vilma, minha mãe.

Ela era tão apegada ao penteado tradicional do seu primogênito que fazia questão de frisar, em toda oportunidade, o quanto preferia o visual de antes. E a opinião de mãe, como todos sabemos, tem um poder silencioso de minar as nossas certezas.

Alguns meses após a mudança, numa fatídica sexta-feira, eu estava me arrumando para ir para a balada com os amigos. Já estava pronto, perfumado e vestido, quando olhei no espelho e cometi o erro crucial de dar ouvidos à voz da minha mãezinha. Peguei o pente, o pote de gel e esculpa o velho e vistoso topete de outrora, perfeitamente armado e blindado contra o vento.

Ao chegar no ponto de encontro, meu grande amigo Voiler olhou para mim, travou os olhos na minha testa e questionou, sem qualquer cerimônia:

— Cara, o que aconteceu com o seu cabelo? Dá um jeito de desarrumar isso aí, pelo amor de Deus.

— Putz… é que a minha mãe falou que estava bonito assim — justifiquei.

O que aconteceu em seguida entrou para o folclore das nossas amizades. O Voiler fez um movimento instintivo, cruzando os antebraços sobre o estômago e começando a se agachar. Ele literalmente dobrou os joelhos até quase encostar no chão de tanto rir. Chorou. Enxugava as lágrimas e apontava para o meu topete petrificado, incapaz de formular uma frase completa.

Eu, que não sabia onde enfiar a minha cara de vergonha, comecei a esfregar as mãos na cabeça ali mesmo, tentando bagunçar da melhor maneira possível o penteado que eu havia executado com tanto cuidado.

A intenção que nossos pais têm conosco é sempre a melhor do mundo, mas nem sempre é a que funciona na vida real. Os tempos mudam, os penteados evoluem e as opiniões também precisam acompanhar o fluxo.

Descobri naquela noite que o afeto tem uma lente muito própria, capaz de enxergar beleza naquilo que o resto do mundo já considera uma peça de museu. No fim das contas, a maturidade também passa por isso: entender que algumas coisas outrora belas acabam ficando datadas.

Para caminhar em sintonia com o próprio tempo, às vezes é preciso deixar o passado no espelho e aceitar que a vida — assim como o cabelo — fica muito melhor quando a gente se permite desarrumar.

Dona Vilma continua torcendo por mim exatamente do mesmo jeito. Mesmo quando minhas escolhas estéticas são discutíveis. O que, convenhamos, aconteceu mais de uma vez ao longo da vida.

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