Espera

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Como prometido na semana passada, continuo a história da viagem que a Gihane fez ao Oriente Médio em 2023. Convenhamos: tudo já tinha começado errado. Primeiro vieram as passagens compradas justamente na empresa que resolveu entrar em recuperação judicial poucos meses depois. Se eu fosse uma pessoa minimamente atenta aos sinais da vida, talvez ali já tivesse desconfiado de que aquela viagem ainda me renderia alguns fios de cabelo branco.

Mas nós dois sabemos que perceber sinais nunca foi exatamente meu superpoder.

Resolvida a epopeia das passagens, finalmente chegou o grande dia. No dia 1º de outubro de 2023, um pedaço importante de mim embarcou no Aeroporto de Guarulhos rumo a Tel Aviv, com escala na Turquia. Gihane e o irmão finalmente realizariam um sonho antigo: rever tios, tias, primos, primas e todos aqueles parentes que, na família árabe, parecem brotar espontaneamente de qualquer esquina.

Estatisticamente, dizem que é mais fácil sofrer um acidente de elevador do que um acidente aéreo. Como sempre gostei de confiar na matemática quando ela joga a meu favor, acompanhei a viagem relativamente tranquilo.

Ela chegou. Foi recebida pelos tios, tias, pelos incontáveis “brimos” e “brimas” e por toda aquela hospitalidade que faz qualquer visitante sair de lá acreditando que ganhou uma segunda família. Enquanto isso, eu permanecia em Curitiba.

Administrando a casa. Dois adolescentes. Roupa para lavar. Almoço. Janta. Copiadora.

E tentando convencer a mim mesmo de que doze dias passam rápido.

Passam mesmo.

Até deixarem de passar. Na manhã de sábado, dia 7 de outubro, pouco depois das sete horas, o telefone tocou. Era ela.

— Oi, amor! Tudo bem? Estou em Amã visitando as tias. Começou um conflito lá em Israel… mas não precisa se preocupar. É mais uma daquelas brigas de vizinhos. O pessoal aqui já está acostumado.

Confesso que a tranquilidade da voz dela me tranquilizou completamente. Confiava muito mais na serenidade da Gihane do que na minha capacidade de interpretar qualquer manchete internacional. Passei o sábado inteiro trabalhando. Nem ousei sentar em frente ao computador. À tarde vieram os afazeres domésticos. À noite assisti a um filme para relaxar. Mais tarde ela ligou novamente.

Tudo parecia absolutamente normal.

No domingo, a rotina continuou. Mais tempo com as crianças. Mais tarefas da casa. Mais um capítulo da série favorita na TV numa tentativa de fazer aqueles dias passarem um pouco mais depressa. Até que, por volta das sete da noite, chegou uma mensagem do meu irmão Gerson.
“Cara… não vamos medir esforços para trazer a Gih de lá. Tem que ser agora. As coisas estão muito feias. Vi uns vídeos horríveis do que aconteceu.”

Pronto. Era exatamente o que eu não precisava ler.

Levantei.
Fui até o computador.
Liguei o monitor e cometi um erro que me acompanha até hoje.

Comecei a procurar notícias. As imagens que encontrei eram muito diferentes daquela “briga de vizinhos” descrita pela Gihane. Eram cenas que prefiro não descrever. Basta dizer que, ainda hoje, algumas delas insistem em reaparecer quando fecho os olhos.

Naquela noite não dormi.

Quando o relógio marcou duas e meia da manhã, fiz as contas do fuso horário. Lá eram sete e meia. Arrisquei uma ligação. Ela atendeu ainda na cama com uma calma que, sinceramente, eu não fazia ideia de onde vinha enquanto eu estava completamente desesperado em Curitiba, era ela, do outro lado do mundo, quem tentava me tranquilizar.

Explicou que continuava em Amã, na Jordânia, consideravelmente distante do epicentro do conflito. Disse que todos estavam bem e que a maior preocupação, naquele momento, era outra. O voo de volta que estava marcado para o dia 12, havia sido cancelado.

Os bombardeios em Tel Aviv haviam fechado completamente o aeroporto. A partir dali, começou um dos períodos mais longos da minha vida. Os dias seguintes foram de espera.

Espera por notícias.
Espera por mensagens.
Espera por ligações.

É curioso como o tempo funciona nessas horas. O relógio continua andando normalmente. Mas a cabeça passa a contar os dias em boletins de notícias.

Só que estamos falando da Gihane! A rainha absoluta do desenrolo. Acompanhada de um batalhão de parentes que, suspeito seriamente, compartilham o mesmo gene árabe especializado em negociar, improvisar e resolver problemas impossíveis.

No fim das contas, eles conseguiram reorganizar toda a viagem. Na madrugada do dia 15 de outubro, finalmente ela voltou. Fui buscá-la na casa do irmão. Quando a vi saindo pelo portão, abracei aquela mulher por um tempo que não sei medir… nem queria! Naquele abraço percebi uma coisa curiosa: A distância entre Amã e Curitiba pode ser medida em quilômetros. Já o alívio… esse não cabe em unidade nenhuma.

Fomos para casa. Dormimos. Na manhã seguinte, tomávamos café enquanto ela começava a contar tudo o que havia vivido. Foi então que ela olhou para mim e disse:

— Você vai achar que eu sou maluca…

Na mesma hora pensei:

“Lá vem…”

Ela continuou:

— Mas eu não vejo a hora de voltar para lá.

Fez uma pequena pausa. Sorriu e completou:

— E levar vocês junto.

Ainda bem que ela avisou que eu ia achar aquilo uma loucura. Porque achei mesmo. E continuo achando. Mas conhecendo a Gihane como conheço…

…tenho quase certeza de que essa história ainda não terminou. E, sinceramente, espero que eu consiga perceber os sinais antes de comprar as passagens.

Compartilhe:

WhatsApp
X
Facebook