Pug Gripado

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

O ano era 2023. Minha esposa, Gihane, alimentava havia muito tempo um desejo que eu compreendia perfeitamente, mesmo sem jamais tê-lo vivido: voltar à terra de seus pais. A Palestina. Nos planos, ela e o irmão embarcariam rumo ao Oriente Médio para rever familiares que a distância e o tempo insistiam em manter separados. Dona Soraia já estava lá, matando a saudade de irmãs, tias, tios e dos famosos “brimos e brimas” — palavra que, para quem convive com famílias árabes, dispensa maiores explicações.

A viagem existia há anos no campo das intenções, mas, aos poucos, começou a migrar para o território perigoso dos planos concretos. E quando um sonho deixa de ser sonho para virar projeto, inevitavelmente surge a primeira providência prática: as passagens aéreas. Como bom marido, mesmo sentindo aquele aperto silencioso de quem sabe que uma parte importante da própria vida passará semanas do outro lado do planeta, fiquei feliz em ajudar. Eu sabia o quanto aquela viagem significava para ela, para Dona Soraia e para toda a família. Por isso, assumi a missão de encontrar os bilhetes.

Grande erro. Já contei nesta coluna que meu talento para identificar bons negócios é aproximadamente equivalente ao faro de um pug gripado. Ainda assim, numa noite qualquer de pesquisas, encontrei algo que me fez acreditar que finalmente havia desenvolvido algum tipo de habilidade financeira. Lá estavam elas. As passagens. Por um valor absurdamente menor que qualquer agência havia me apresentado: algo em torno de dois terços do preço praticado pelo restante do mercado.

Meus olhos brilharam. Naquele instante, me senti uma mistura de Warren Buffett com Tio Patinhas. Sem pensar muito — o que, como a vida já me ensinou inúmeras vezes, costuma ser o início de vários problemas —, saquei o cartão de crédito e concluí a compra.

Origem: São Paulo.
Escala na Turquia.
Destino final: Tel Aviv.

Tudo parecia perfeito. Talvez você que esteja lendo já tenha percebido o tamanho da tragédia que se aproximava, porque as passagens foram compradas através da hoje saudosa — e não exatamente pelos melhores motivos — 123milhas.

Na época, a justificativa parecia fazer sentido. A viagem aconteceria dali a três meses. Eu imaginava que aquele prazo permitia à empresa negociar tarifas promocionais, aproveitar oportunidades e repassar parte dessa economia aos clientes. Parecia lógico. Parecia inteligente. Parecia uma excelente ideia — e justamente por isso deveria ter despertado minha desconfiança. O tempo passou. Dois meses, aproximadamente.

Até que, num domingo de fim de tarde, Gihane apareceu na sala com um tom de voz que imediatamente chamou minha atenção:

— É sério esse negócio da 123milhas?
— Que negócio? — perguntei, com a tranquilidade de quem não fazia a menor ideia da bomba prestes a explodir.

Eu confiava completamente que uma empresa que havia vendido um serviço, recebido integralmente por ele e emitido comprovantes faria aquilo que empresas costumam fazer: cumprir o combinado. Ingenuidade bonita.

Pouco depois, comecei a pesquisar. E quanto mais eu pesquisava, pior ficava. Acusações, cancelamentos, problemas financeiros, recuperação judicial e questionamentos sobre a sustentabilidade do modelo de negócios. Para meu absoluto desespero, justamente a modalidade que eu havia comprado estava no centro do furacão. A sensação foi curiosa: primeiro veio a incredulidade, depois a preocupação e, por fim, a raiva. Não da empresa. De mim.

Porque eu tinha assumido a responsabilidade por aquilo. Eu tinha escolhido, pago e dito: “Pode deixar comigo”. E agora precisava admitir que meu lendário talento para identificar oportunidades havia se mostrado, mais uma vez, tão eficiente quanto uma faca feita de gelatina. Para resumir uma novela que se arrastaria por anos: as passagens foram canceladas, a empresa entrou em recuperação judicial, o dinheiro desapareceu e nós ficamos a ver navios — ou melhor, a ver aviões.

Depois de dois anos e meio, ficou estabelecido que os valores seriam devolvidos em suaves parcelas distribuídas ao longo de doze anos.

Sim.
Doze.
Anos.

Eu já tive financiamentos emocionalmente menos longos. No fim, não houve alternativa: compramos novas passagens por intermédio de uma agência tradicional. Muito mais caras, muito mais próximas da data de embarque e muito menos amigáveis ao orçamento. Mas reais. E, às vezes, a realidade custa caro, principalmente quando tentamos economizar nela.

Apesar de tudo, a viagem aconteceu. Gihane e o irmão embarcaram, e seguiram rumo ao outro lado do mundo para reencontrar Dona Soraia. Naquele momento, eu acreditava que o capítulo mais difícil dessa história tinha sido o prejuízo financeiro. Como eu estava enganado. Porque o que aconteceria depois transformaria passagens aéreas, dinheiro perdido e recuperação judicial em detalhes quase irrelevantes.

Mas isso… fica para a próxima semana.

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