Sempre fui uma criança relativamente talentosa quando o assunto era me machucar. Ao longo da vida já quebrei ossos, colecionei esfolados por todo o corpo, fui transpassado por uma lança, fui fritado por óleo quente e sofri um acidente com uma máquina de serralheria. É justamente sobre essa última conquista que falaremos hoje.
Eu devia ter uns nove anos — uma idade curiosa onde você é velho o suficiente para acreditar que sabe exatamente o que está fazendo, mas novo demais para efetivamente saber.
Era um sábado à tarde. O cenário era absolutamente perfeito e sem perigo algum para uma criança exercitar a imaginação: uma oficina de marcenaria completamente vazia e só minha. O ar tinha aquele cheiro doce, seco e refrescante de serragem fresca, que contrastava com um silêncio pesado.
No centro de tudo, uma serra-fita. Para quem nunca viu uma, imagine uma lâmina contínua, fria e denteada, projetada para rasgar madeira grossa e, eventualmente, partes da mão de um operador desatento. A máquina estava desligada, o que uma pessoa sensata interpretaria como um impedimento. Eu interpretei como um detalhe técnico. Um desafio.
Ao observar a estrutura de ferro, percebi que uma das rodas raiadas podia ser girada manualmente para movimentar a lâmina. Apoiei a mão nos raios metálicos e frios, dei o primeiro impulso e vi o metal ranger. A lâmina começou a correr num ritmo hipnótico. Foi nesse exato momento que nasceu dentro de mim um pequeno inventor — infelizmente, acompanhado de um pequeno idiota.
Girei a roda mais rápido e a serra correu. Interessante. Peguei um pequeno pedaço de madeira no chão, apoiei o pé nos raios da roda, dei o impulso e vupt: cortou perfeitamente. Mais interessante ainda.
Existe uma relação perigosa entre infância e sucesso: quando uma criança faz uma bobagem e funciona de primeira, ela conclui que domina o assunto. Em poucos minutos de tração manual, eu jurava que era um especialista, um mestre da marcenaria.
Foi quando o excesso de confiança resolveu participar da experiência, e o resultado foi previsível.
A madeira escapou e a lâmina encontrou meu polegar com uma precisão impressionante, abrindo o dedo perfeitamente ao meio até o primeiro nó. Não houve dor imediata, apenas um choque gelado. Lembro de olhar para a carne exposta e concluir que a situação havia ficado consideravelmente menos divertida.
Saí correndo para a casa do meu nono. Em segundos, meu pai e ele apareceram e me arrastaram para o banheiro.
Enfiaram minha mão debaixo da torneira e a água fria bateu direto na ferida aberta.
Aquele desconforto cego, um arrepio na espinha que faz perder o fôlego e que só quem já teve um ferimento profundo conhece.
As mãos do meu nono, calejadas pelo trabalho, tremiam visivelmente enquanto seguravam meu braço. Tentando me tranquilizar, ele repetia com uma voz forçadamente mansa:
— Não foi nada, Gésso… — era assim que meu nono me chamava.
Mas bastava ele desviar o olhar para o meu pai, com os olhos arregalados e a veia do pescoço saltada, para mandar um sussurro desesperado:
— Melhor levar pro hospital agora!
Era uma cena curiosa de um avô tentando transmitir calma enquanto entrava discretamente em pânico. Acho que avós carregam esse defeito de fabricação: sofrem mais vendo os netos machucados do que os próprios netos. Já meu pai, estava versado no assunto, afinal, aquela não era nossa primeira visita ao pronto-socorro — nem a segunda, nem a terceira. Eu já tinha uma relação de fidelidade sólida com o estabelecimento.
Quando cruzávamos a porta do hospital, não havia triagem ou burocracia; o pessoal da recepção já nos conhecia. A sensação era de entrar num restaurante onde você é cliente habitual. Mas em vez de o garçom perguntar “O de sempre?”, era a enfermeira gritando para o corredor: “Doutor! Prepara a sala 3! O Geison chegou!”.
O médico examinou o estrago em silêncio. Olhou para mim, olhou para o dedo, olhou novamente para mim e fez aquela expressão que só profissionais da saúde conseguem fazer quando tentam descobrir se estão diante de um acidente ou de um experimento científico malsucedido. No fim, deu tudo certo: o dedo permaneceu no lugar, a cicatriz ficou e a lição também.
Embora, olhando para os acidentes que vieram depois — como a parte da lança —, eu não tenha certeza se a lição foi devidamente assimilada.
Só sei que eu mantinha as metas de sutura daquele hospital no azul. Não me surpreenderia se existisse uma ficha minha com a observação:
“Cliente Frequente. Verificar a invenção da semana e preparar os pontos.”