Avanço da IA corrói financiamento do jornalismo profissional no Brasil

Resumos de IA derrubam tráfego e renda do jornalismo

Foto: Lula Marques/Arquivo/Agência Brasil

O avanço da Inteligência Artificial (IA) por meio de resumos exibidos por buscadores na internet vem derrubando o tráfego direto de internautas em sites jornalísticos e prejudicando o financiamento do jornalismo profissional no Brasil. A mudança é atribuída ao comportamento de parte dos usuários, que tem deixado de clicar em links de portais de notícias e restringido a pesquisa aos resumos gerados por IA.

Segundo o texto, o movimento ganhou força principalmente a partir de maio de 2024, com o AI Overviews do Google (resumos em português). Especialistas também apontam potencial impacto sobre a integridade da informação em meio à proliferação de fake news impulsionadas pelas mesmas plataformas que dominam o mercado.

PL 2338 prevê pagamento por direitos autorais

Em tramitação na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 2338 de 2023, conhecido como Marco Regulatório da IA, prevê que plataformas digitais paguem pelos direitos autorais de obras e reportagens usadas pela tecnologia. A proposta é vista como uma possibilidade de fortalecer o jornalismo profissional diante da crise no setor.

Apesar de ter sido anunciada como prioridade do primeiro semestre pelo presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), a matéria não avançou no último semestre. A assessoria do parlamentar informou que aguarda a manifestação do relator, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), e que o projeto deve ser votado após as eleições de outubro por causa do período eleitoral.

Queda de audiência e impacto na publicidade

A Associação de Jornalismo Digital (Ajor), que presta assessoria a 152 veículos on-line no Brasil, afirma que um de cada quatro desses portais perdeu, em 2025, mais de 20% da audiência. A entidade concluiu, em pesquisa, que a queda de tráfego vinda de ferramentas de busca se confirma entre associadas.

Para a diretora de Relações Institucionais da Ajor, Carla Egydio, a redução é “preocupante” por prejudicar a atração de publicidade e o financiamento calculado a partir de “métricas de audiência”. Ela também afirmou que os resumos não oferecem todo o conteúdo das reportagens, o que pode gerar descontextualização e prejuízos ao debate público, além de citar casos de cópia literal do conteúdo, caracterizando plágio.

Pressão de jornalistas, críticas das empresas e apoio do governo

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) tem pressionado pela aprovação do PL 2338, que tramita na Câmara desde março de 2025. A presidenta da Fenaj, Samira de Castro, disse que o lobby das big techs tem dificultado o avanço do projeto e que as empresas querem retirar a parte que trata de direito autoral.

Empresas de tecnologia criticam o texto vindo do Senado e alegam que o dispositivo sobre direitos autorais “na prática, inviabiliza o treinamento de novos modelos locais de IA”. Em nota, organizações empresariais, entre elas a Associação das Empresas de Tecnologia (Brasscom), afirmam que a proposta pode isolar o Brasil no desenvolvimento da IA e impactar investimentos em infraestrutura digital.

O governo federal defende a aprovação do PL. Em audiência pública do Conselho de Comunicação Social do Congresso na última semana, o secretário de Direitos Autorais e Intelectuais do Ministério da Cultura, Marcos Alves de Souza, afirmou que, enquanto a proposta não for aprovada, o uso não autorizado de conteúdo protegido para treinamento de sistemas de IA constitui violação de, ao menos, sete dispositivos da lei de direito autoral.

Cade investiga Google e há acordos privados

Enquanto o Congresso não vota o marco regulatório, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu, em abril deste ano, investigação sobre a conduta do Google e os impactos do uso da IA no mercado de mídia. O órgão avalia se a empresa abusou de posição dominante ao utilizar conteúdos jornalísticos em ferramentas de IA sem remunerar os veículos responsáveis.

Por outro lado, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo fecharam acordos privados com a OpenAI e o Google, respectivamente. No caso da Folha, o acordo ocorreu após o jornal processar a OpenAI pelo uso de seus conteúdos jornalísticos.

Fonte: Agência Brasil. Texto reescrito com base na publicação original.

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