Não é segredo: eu sou um cara desatento.
Mas não é aquela desatenção simpática, quase charmosa.
É um negócio mais sério. Coisa de sair de casa com o celular na mão… e voltar pra buscar o celular. Procurar a chave do carro por cinco minutos… segurando ela. Abrir a geladeira, esquecer o que foi fazer ali… e ainda assim fechar como se tivesse cumprido a missão. Minha mente, às vezes, parece terceirizada e gerenciada por uma empresa bem incompetente.
Em determinada fase da minha vida, eu voltava da firma caminhando. Por decisão. Na tentativa de cumprir aquela obrigação moral silenciosa de “ser mais fitness”.
Aquela caminhada que você faz mais para a consciência do que para o corpo. Fone de ouvido, audiolivro, música… qualquer coisa que ocupasse o pensamento enquanto o corpo cumpria tabela.Num desses dias, momentos antes de sair, minha esposa ligou:
– Amor, passa na farmácia e compra um negócio pra mim?
Como havia uma no caminho, pensei: perfeito.
Desvio mínimo. Marido funcional. Como dizem os americanos: “Happy wife, happy life”.
Entrei na farmácia ainda imerso no áudio e nos meus próprios pensamentos. Passei por um rapaz de capacete. Na hora, achei curioso. Mas logo racionalizei:
“Deve estar com pressa… vai que a mulher dele também pediu alguma coisa.”Segui em frente. Fui direto para as gôndolas procurando o produto.
Nada.Procurei de novo.
Nada.Decidi pedir ajuda e, como não tinha ninguém ao redor, me dirigi ao fundo da loja.
Foi quando vi, à minha esquerda, uma senhora caída no chão. Minha reação foi imediata – e, dentro da minha lógica, absolutamente correta:
“Eu não sei ajudar… melhor chamar alguém.”Ou seja, reconheci minha completa incapacidade prática diante da situação e parti em busca de quem realmente soubesse o que fazer. Até aí, tudo certo. Cheguei ao balcão do fundo. Lá estavam uma criança chorando, uma mulher visivelmente nervosa e dois atendentes, todos agachados atrás do balcão.
Uma cena, no mínimo, estranha. Mas, ainda assim, minha prioridade era outra.
Tirei o fone e mandei:
– Vocês podem me ajudar? Tem uma senhora caída ali…
*BANG!*
O som do disparo não interrompeu apenas a frase. Interrompeu toda a linha de raciocínio.
– Eles já foram! – gritou alguém lá da frente.
E foi nesse momento que tudo fez sentido.
O capacete.
A farmácia vazia.
A senhora no chão.
As pessoas escondidas.Eu tinha acabado de entrar, caminhar, observar e interagir dentro de um assalto à mão armada…
Sem.
Perceber.
Absolutamente.
Nada!Saí da farmácia tremendo. Caminhei os últimos metros até em casa tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Pensando em tudo que poderia ter dado errado. Pensando que as orações que minha mãe e minha sogra fazem constantemente, mantém meu anjo da guarda, de prontidão 24 horas, fazendo um trabalho excepcional.
Porque aqui embaixo… a empresa que administra minha cabeça claramente não faz.
Cheguei em casa. Contei tudo para a Gihane. Ela ficou em choque.
Eu também.
Até que veio a pergunta inevitável:
– Tá… mas você trouxe o que eu pedi?
Não trouxe.
E foi ali que a situação atingiu seu ponto mais absurdo. Porque eu sobrevivi a um assalto armado… mas falhei na única missão que me foi dada.
E talvez esse seja o verdadeiro problema. A gente anda pela vida assim.
Com fone no ouvido.
Explicando o óbvio.
Ignorando o essencial.
Interpretando tudo errado com uma confiança admirável.Prestando atenção em nada.
E, sendo honesto… isso talvez seja mais comum do que parece.