AUTUORI ESTÁ OLHANDO PARA O PROBLEMA ERRADO — E O FUTEBOL BRASILEIRO ESTÁ PAGANDO A CONTA

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Tramujas Jr.

Por Francisco Tramujas

 

Paulo Autuori tem uma história que não permite que sua opinião seja simplesmente ignorada.

 

Campeão brasileiro pelo Botafogo em 1995, campeão da Libertadores pelo Cruzeiro em 1997 e novamente pelo São Paulo em 2005, além de campeão mundial com o São Paulo. São conquistas que merecem respeito.

 

Mas existe uma diferença enorme entre ter experiência e ter razão.

 

E é exatamente aí que começa o problema da tese de Autuori sobre os estrangeiros no futebol brasileiro.

 

Em 2024, ele chamou de “absurda” a decisão dos clubes de ampliar de sete para nove o número de estrangeiros que podem ser relacionados por partida. Disse também que preferia trabalhar com jovens brasileiros a buscar jogadores fora.

 

Agora, em 2026, o discurso continua. E isso me preocupa.

 

Não porque Autuori esteja necessariamente errado ao defender a base.

 

Ele está errado ao simplificar a causa do problema. Porque o número de estrangeiros é um indicador. Não necessariamente a causa.

 

E essa diferença, em gestão, é gigantesca.

 

O PRIMEIRO ERRO: CONFUNDIR CORRELAÇÃO COM CAUSALIDADE

Vamos aos fatos.

 

Em 2023, o limite era de cinco estrangeiros por partida. Subiu para sete.

Em 2024, passou para nove. Naquele ano, os clubes brasileiros já tinham 123 estrangeiros nos elencos da Série A, e a mudança ocorreu justamente porque os próprios clubes aprovaram a ampliação.

 

Em 2026, o número de estrangeiros na Série A chegou a 161 jogadores, novo recorde, segundo levantamento publicado neste mês.

 

Então Autuori olha para esses números e conclui:

mais estrangeiros = menos espaço para brasileiros = enfraquecimento da base.

 

Parece lógico. Mas não é necessariamente.

 

Porque falta responder à pergunta mais importante:

 

Por que os clubes querem tantos estrangeiros?

E é aqui que a análise começa a ficar muito mais interessante.

 

O FUTEBOL BRASILEIRO FICOU CARO

Durante décadas, o Brasil foi essencialmente um grande exportador de jogadores.

 

Formava.

Valorizava.

Vendia para a Europa.

O dinheiro vinha de fora.

Só que o mercado mudou.

 

Hoje, os grandes clubes brasileiros possuem receitas muito maiores e capacidade de contratar jogadores que antes seriam simplesmente inacessíveis.

 

O Flamengo, por exemplo, repatriou este ano o Lucas Paquetá em uma operação superior a € 41 milhões, tornando-o o jogador mais caro já contratado por um clube brasileiro.

 

Isso não é apenas uma contratação. É um indicador econômico.

 

O Brasil passou a competir por jogadores no mercado internacional.

 

O Palmeiras investiu € 30 milhões dezenas de milhões de euros em Vitor Roque a cerca de 2 anos.

 

O Cruzeiro fez uma operação milionária de € 30 milhões para trazer Gerson este ano.

 

Ou seja:

o futebol brasileiro deixou de ser apenas exportador de talentos. Passou a ser também importador. E isso muda completamente a lógica do mercado.

 

AGORA VAMOS FALAR DE SALÁRIO

Aqui está a parte que quase sempre desaparece do discurso romântico sobre futebol.

 

Quanto custa um jogador brasileiro?

Não estou falando apenas da transferência.

 

Estou falando de:

salário + luvas + direitos de imagem + bônus + encargos + duração contratual + custo de oportunidade.

 

E o futebol brasileiro criou uma inflação salarial impressionante.

 

Gabigol, por exemplo, chegou ao Cruzeiro com pacote estimado em cerca de R$ 2,4 milhões mensais, considerando salário, direitos de imagem e a diluição das luvas. O contrato de quatro anos poderia representar quase R$ 125 milhões.

 

Everton Ribeiro foi reportado com remuneração próxima de R$ 1,8 milhão por mês no Bahia.

 

E existem diversos outros jogadores brasileiros ou já estabelecidos no mercado nacional com remunerações na faixa de R$ 1 milhão ou mais.

 

Agora faça uma conta simples.

 

Um jogador recebendo:

R$ 1 milhão por mês

custa:

R$ 12 milhões por ano

Antes mesmo de considerar outros componentes do contrato.

Em três anos:

R$ 36 milhões.

Em quatro:

R$ 48 milhões.

E isso é apenas salário.

 

Então talvez a pergunta correta não seja:

“Por que o clube contratou um estrangeiro?”

 

Talvez seja:

“Por que o jogador brasileiro equivalente ficou tão caro?”

 

O ESTRANGEIRO PODE SER O SINTOMA — NÃO A DOENÇA

É aqui que considero a análise de Autuori excessivamente superficial.

 

Um clube possui orçamento limitado. Tem uma folha salarial máxima.

 

Precisa contratar dez jogadores. Encontra um brasileiro pedindo R$ 1,2 milhão por mês.

 

E encontra um colombiano, uruguaio, argentino ou paraguaio com características semelhantes por uma remuneração significativamente menor.

O que um gestor deveria fazer?

Contratar o brasileiro porque nasceu aqui?

 

Ou analisar:

performance × custo × idade × potencial de valorização × adaptação × risco × retorno esportivo?

 

Isso se chama gestão de ativos.

 

Não xenofobia.

 

Não patriotismo.

 

Não preferência ideológica.

 

Economia.

 

E O ATHLETICO É UMA BOMBA NO ARGUMENTO DE AUTUORI

Aqui está a parte que considero mais difícil de explicar para quem sustenta que estrangeiro necessariamente mata a base.

 

O Athletico tem uma das maiores concentrações de estrangeiros do futebol brasileiro.

 

Em 2026, chegou a escalar oito estrangeiros em uma mesma partida, recorde dos últimos 14 anos do Brasileirão.

 

Mas olhe o outro lado.

 

Apesar dos 11 jogadores estrangeiros do atual elenco, o clube também possui 8 jogadores formados ou desenvolvidos pelo próprio clube.

 

Arthur Dias.

Léo Derik.

Claudinho.

Dudu.

João Cruz.

Chiqueti.

Mycael.

Riquelme.

 

A própria cobertura do GE no início da temporada listava diversos desses jovens no elenco principal ou entre os jogadores que poderiam ganhar oportunidades.

 

E, em junho, o Athletico tinha Arthur Dias com 17 jogos, Dudu com 13, João Cruz com 12, Léo Derik com 10 e Chiqueti com oito no Brasileirão.

 

Então vamos destruir uma simplificação:

O Athletico tem muitos estrangeiros. Verdade.

 

O Athletico abandonou a base por causa deles. Os dados não sustentam essa conclusão.

E TEM MAIS: O MELHOR EXEMPLO ESTÁ NA CAMISA 9

Kevin Viveros. Colombiano.

 

Contratado pelo Athletico por US$ 5 milhões, aproximadamente R$ 27,5 milhões na época e salário muito menor do que R$ 1 milhão.

 

Foi o investimento mais caro da história do clube.

 

Na Série B de 2025, marcou nove gols e foi importante no acesso.

 

Em 2026, tornou-se artilheiro do Brasileirão e já havia chegado a 11 gols em 17 jogos antes da pausa para a Copa. No início de agosto de 2026 são 14 gols em 21 jogos no Brasileirão da série A.

Hoje, depois da retomada do campeonato, continua sendo uma das principais armas do Furacão.

 

Então temos uma situação curiosa: um estrangeiro ocupou uma posição que poderia ser de um brasileiro.

 

Mas, em contrapartida, esse estrangeiro:

  • Foi contratado por valor relativamente controlado;
  • Entregou gols;
  • Ajudou no acesso;
  • Virou artilheiro da Série A;
  • Valorizou o ativo esportivo do clube;
  • e não impediu que jogadores da base recebessem minutos.

 

Isso não significa que todo estrangeiro seja bom. Significa que nacionalidade não é critério suficiente para avaliar uma contratação.

 

O QUE AUTUORI ESTÁ IGNORANDO?

Ele está ignorando a estrutura de incentivos.

 

Se contratar um brasileiro custa caro demais, o clube procura fora.

 

Se o estrangeiro entrega mais por menos, ele será contratado.

 

Se o jogador da base for melhor e mais barato, ele terá espaço.

 

É assim que funciona qualquer mercado competitivo.

 

E existe outra variável que quase ninguém coloca na equação: CUSTO DE OPORTUNIDADE.

 

Se o clube gasta R$ 1,5 milhão por mês em um jogador de 32 anos, ele está deixando de investir esse dinheiro em:

  • Categorias de base;
  • Scouting;
  • Ciência de dados;
  • Infraestrutura;
  • Formação;
  • Contratação de jovens;
  • Remuneração de outros atletas.

 

Portanto, talvez o problema da base brasileira não seja o colombiano ganhando espaço.

 

Talvez seja o veterano brasileiro custando uma fortuna.

 

O PROBLEMA NÃO É O ESTRANGEIRO. É O MODELO DE GESTÃO.

E aqui entra uma coisa que me incomoda particularmente na fala de Autuori.

 

Quando ele diz que prefere trabalhar com jovens, eu concordo.

 

Quando ele diz que o excesso de estrangeiros pode reduzir oportunidades, é uma hipótese legítima.

 

Mas quando transforma isso em explicação principal para os problemas de formação, ele pula etapas fundamentais da análise.

 

Porque precisamos perguntar:

Quanto cada clube investe na base?

Quantos atletas chegam ao profissional?

Quantos minutos recebem?

Quantos são vendidos?

Qual é o retorno sobre o investimento da formação?

Qual é o custo da folha profissional?

Quanto custa contratar um jogador brasileiro equivalente?

Quanto custa contratar um estrangeiro?

Qual é a taxa de sucesso dessas contratações?

Qual é o impacto financeiro?

 

Aí sim teremos uma análise.

 

Sem isso, estamos apenas discutindo preferências.

 

E TALVEZ AUTUORI ESTEJA PRESO A UMA VISÃO DO FUTEBOL QUE JÁ NÃO EXISTE

Essa é a parte mais dura.

 

Autuori tem mais de 40 anos de futebol. Mas experiência também pode produzir um efeito colateral:

transformar aquilo que funcionou no passado em uma lente para interpretar o presente.

 

Ele foi campeão brasileiro pelo Botafogo em 1995.

Libertadores em 1997 pelo Cruzeiro.

Libertadores novamente em 2005 pelo São Paulo.

 

São conquistas gigantescas.

 

Mas já se passaram 21 anos desde sua última Libertadores e três décadas desde seu Campeonato Brasileiro.

 

Nesse período, o futebol mudou completamente.

Mudou o dinheiro.

Mudou o scouting.

Mudou a preparação.

Mudou a tecnologia.

Mudou a governança.

Mudou a receita dos clubes.

Mudou a relação com a Europa.

Mudou o mercado de transferências.

Mudou o perfil dos investidores.

Mudou até a composição dos elencos.

 

E talvez seja exatamente isso que um grande líder precisa aprender:

Experiência é patrimônio. Mas experiência sem atualização vira viés.

 

O MAIS IRÔNICO É QUE O PRÓPRIO AUTUORI ESTÁ NO FORTALEZA

Em agosto de 2026, Autuori está no Fortaleza, na Série B. E, curiosamente, poucos dias atrás, depois de um gol de Lucas Emanoel, jogador promovido do sub-20, voltou a defender espaço para a base.

 

Ótimo.

 

Mas então precisamos transformar discurso em KPI.

 

Se a base é prioridade:

quantos jogadores sub-20 chegarão ao profissional?

Quantos minutos terão?

Quantos serão titulares?

Quantos serão vendidos?

Quanto o clube economizará em contratação?

Quanto será gerado em receita?

Porque gestão não pode terminar na frase bonita.

 

Tem que chegar no indicador.

 

E ESSA É A DIFERENÇA ENTRE OPINIÃO E ESTRATÉGIA

Opinião:

“Tem estrangeiro demais.”

 

Estratégia:

“Qual é o custo por minuto jogado, a contribuição esportiva e o potencial de valorização de cada atleta, independentemente da nacionalidade?”

 

Opinião:

“Estrangeiros prejudicam a base.”

 

Estratégia:

“Qual é a relação entre número de estrangeiros, minutos de atletas formados na base, investimento em formação e vendas de jogadores?”

 

Opinião:

“Precisamos usar mais brasileiros.”

 

Estratégia:

“Qual brasileiro entrega o melhor retorno pelo capital investido?”

 

É uma diferença brutal.

 

NO FINAL, O FUTEBOL É UMA EMPRESA DISFARÇADA DE PAIXÃO

E paixão não paga folha salarial.

Não paga dívida.

Não paga transferência.

Não paga comissão.

Não paga estrutura.

E muito menos garante resultado.

 

O gestor precisa equilibrar:

performance + custo + risco + desenvolvimento + sustentabilidade.

 

Se um estrangeiro entrega 20 gols custando uma fração do salário de um brasileiro que entrega 10, o problema não é o estrangeiro.

 

É o preço do mercado brasileiro.

 

Se um garoto da base é melhor, mais barato e tem potencial de valorização, ele deve jogar.

 

Independentemente de quantos estrangeiros estejam no elenco. E se um clube possui 11 estrangeiros e continua colocando jovens da sua formação em campo, talvez a tese de que “estrangeiro mata a base” precise ser revisada.

 

Não estou dizendo que Autuori esteja errado em defender a formação.

 

Estou dizendo algo mais incômodo:

Ele está tentando explicar um problema complexo com uma variável simples.

 

E isso não é estratégia. É miopia analítica.

 

O futebol brasileiro não precisa necessariamente de menos estrangeiros.

 

Precisa de melhores gestores.

 

Gestores capazes de entender que o jogador é um ativo.

 

Que salário é custo.

Que base é investimento.

Que contratação é alocação de capital.

Que scouting é inteligência competitiva.

 

E que nacionalidade, sozinha, não deveria ser KPI de performance.

 

Porque no futebol, como nos negócios, o mercado não pergunta onde você nasceu.

 

Ele pergunta:

QUANTO VOCÊ CUSTA, QUANTO ENTREGA E QUANTO PODE VALER AMANHÃ?

 

E talvez seja justamente essa pergunta que esteja faltando na análise de Paulo Autuori.

 

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