Mais colorida

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Como você acompanha minhas colunas semanais, já sabe: resolvi abrir oficialmente os arquivos secretos da minha rotina profissional e inaugurei aqui os já famigerados “Causos da Copiadora”. E, honestamente? Às vezes acho que trabalhar com atendimento ao público deveria dar direito a adicional de insalubridade psicológica e emocional.

Porque existe um tipo muito específico de situação que nenhum curso, treinamento ou experiência de vida prepara adequadamente um ser humano para enfrentar: o diálogo absurdo dito com absoluta sinceridade… as vezes, até mesmo em silêncio.

O sujeito entra na copiadora. Silencioso, sério e carregando uma pasta marrom daquelas antigas, quase arqueológicas. Daquele tipo que parece ter acompanhado processos judiciais desde a proclamação da República. A pasta estava tão abarrotada de papel que parecia prestes a detonar uma pequena explosão por estresse documental.

Ele coloca aquilo em cima do balcão com o peso emocional de quem deposita anos de história, como quem joga uma carcaça recém caçada em cima de uma mesa. Em total silêncio… sem uma palavra sequer.

Começa então um ritual quase litúrgico. Abre a pasta, suspira, revira folhas, separa, reorganiza, muda de ideia e recomeça. Foi assim umas duas ou três vezes.

E eu? Ali, de braços cruzados, observando com atenção e de prontidão para atender qualquer que fosse o pedido. Quem trabalha com atendimento ao público, quando se depara com situações assim, conhece bem esse estado de espírito: fisicamente presente… espiritualmente em posição fetal.

Depois de alguns minutos daquela arqueologia burocrática, finalmente encontra o que procurava: Uma folha.

Uma.
Folha.

Que visivelmente já havia visto dias melhores… parcialmente amassada, levemente rasgada, com aparência de quem tinha sobrevivido a uma enchente, duas mudanças e talvez um pequeno incêndio. Ele coloca o documento no balcão, continuando sem falar absolutamente nada e volta o olhar para mim.

Olho pro papel. Sem falar nada também. Era um documento colorido.

Olho para ele. Queria entrar na mente do sujeito exatamente como ele entrou na minha.

Ele faz menção se dirigindo ao papel, ainda sem emitir som nenhum. Eu poderia facilmente estender a brincadeira, mas a saúde do meu bem estar mental, resolvi quebrar o silêncio perguntando:

— O senhor quer uma cópia?

Ele confirma balançando a cabeça. Estava começando a perceber que o intuito do sujeito fosse entrar mudo e sair calado… talvez um auto desafio do tipo: “Será que consigo que o cara me faça uma cópia só com a força do pensamento?”.

Não que eu quisesse que ele falhasse no seu desafio interno, mas precisei fazer a pergunta técnica obrigatória que o faria obrigatoriamente quebrar o silêncio:

— O senhor gostaria colorida ou preto e branco?

O homem me olha. Mas não é um olhar comum. Era o olhar de alguém em um beco sem saída. Como quem processa internamente um conceito filosófico complexo demais. Como se eu tivesse perguntado algo tipo: “Na sua visão, a existência precede a essência?”

Foram alguns segundos de silêncio absoluto, finalmente abre a boca:

— Colorida? Mas “colorida”… fica colorida mesmo?

Ali, meu cérebro tropeçou. Porque existem perguntas que desmontam completamente a estrutura lógica de uma conversa. Coisa de ter que achar justificativa pra algo que se julga óbvio. Respondi honestamente:

— Hã… sim…

E então ele abriu um sorriso genuinamente satisfeito. Daqueles de quem acabou de descobrir uma tecnologia revolucionária.

— Ótimo!

Me virei para fazer a cópia. Mas, antes que eu pudesse posicionar o original na máquina… veio mais uma pergunta particularmente difícil. A pergunta que me fez perceber que a realidade é um lugar completamente sem supervisão.

— E tem como deixar mais colorida?

Parei. Porque naquele instante, precisei travar uma batalha interna muito séria: a necessidade profissional de permanecer funcional versus a tremenda vontade de coringar e começar a rir descontroladamente.

Respirei fundo e respondi:

— Vai ficar com as mesmas cores do original.

Ele pensou. Refletiu. Pesou prós e contras. Argumentou com as vozes da sua cabeça. Que talvez tenham chegado a um veredito artisticamente insuficiente. E depois de uns 15 segundos ponderando, decretou:

— Então pode tirar preto e branco mesmo.

Fiz a cópia. Entreguei juntamente com o original. Ele ergueu os dois, olhando contra a luz, os colocou lado a lado, me olhou, guardou os papéis socando na pasta de qualquer jeito, pagou e foi embora.

Até hoje eu penso nisso. Porque talvez exista algo profundamente filosófico naquela decisão. Às vezes, a pessoa não quer exatamente qualidade. Ela quer intensidade. Quer emoção. Impacto. Quer que a vida fique “mais colorida”.

E quando descobre que o mundo entrega apenas uma reprodução fiel da realidade… prefere economizar cinquenta centavos e aceitar tudo em preto e branco mesmo.

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