Os Imortais

Foto de Geison Vendramin

Geison Vendramin

Existe uma mentira que contamos para nós mesmos desde crianças: a de que algumas pessoas nunca vão morrer. Os imortais!

Não porque sejam biologicamente diferentes. Mas porque ocupam um lugar tão permanente na nossa memória que simplesmente parece impossível imaginar um mundo sem elas.

Quando eu era adolescente, Ozzy Osbourne já era o Ozzy Osbourne. Johnny Cash já era o Johnny Cash. Stan Lee já era o Stan Lee. Eles nunca pareceram pessoas comuns.

Eram instituições. Monumentos. Como montanhas. Você simplesmente cresce acreditando que elas sempre estiveram ali… e que continuarão ali para sempre.

Até que, um dia, o celular vibra. Uma manchete. Um post na rede social com uma foto em preto e branco. E pronto. Mais uma montanha desaparece do horizonte. Confesso que, há cerca de um ano, a morte do Ozzy me pegou de um jeito que eu mesmo não esperava.

Não era meu parente. Nunca apertei sua mão. Ele sequer sabia da minha existência. Mesmo assim, senti um aperto sincero. Estranho, não? Como é possível sofrer pela morte de alguém que nunca conhecemos?

Passei um tempo pensando nisso. A conclusão a que cheguei é que talvez a gente não chore exatamente pela pessoa. A gente chora pela parte da nossa vida que ela habitava. Ozzy não era apenas um cantor. Era aquela presença orbitando as ideias de um adolescente de camiseta preta descobrindo que guitarras também podiam soar como serras elétricas. Era a fase em que eu acreditava que cabelo comprido combinava comigo.

Spoiler: não combinava.

Era a época em que eu passava horas ouvindo Black Sabbath, Faith No More, Metallica, Pantera, Sepultura… Como se cada riff tivesse sido composto exclusivamente para incomodar meus pais (o que nunca aconteceu).

Johnny Cash me apresentou uma melancolia bonita.

Lemmy me ensinou que envelhecer não obrigatoriamente significa ficar comportado.

Stan Lee povoou minha cabeça com heróis muito antes de Hollywood descobrir que eles davam bilhões de dólares.

E Ozzy… Bom… Ozzy me mostrou que era possível ser completamente imperfeito… e ainda assim absolutamente inesquecível. Talvez seja justamente isso que mais admire nele.

Ozzy jamais tentou parecer elegante. Jamais tentou parecer um exemplo. Nunca vendeu a imagem de homem impecável. Era exagerado. Caótico. Contraditório. Errava em praça pública. Caía. Levantava. Caía outra vez. E seguia sendo… Ozzy.

Há uma honestidade curiosa nisso.

Com a morte dele, percebi outra coisa. Cheguei naquela idade em que meus heróis começaram a morrer. Isso muda alguma coisa dentro da gente. Porque cada despedida dessas funciona como um lembrete silencioso. Se eles partiram… nós também partiremos.

É uma percepção desconfortável. Mas curiosamente ela também traz uma paz inesperada. Essas pessoas cumpriram suas missões.

Deixaram discos. Livros. Quadrinhos. Filmes. Entrevistas. Memórias. E, principalmente, deixaram marcas. Um tipo de marca que poucas pessoas conseguem de fato. Deixaram pedaços de si espalhados pelo mundo.

Influenciaram milhões de completos desconhecidos espalhados pelo planeta. Inclusive um sujeito de Curitiba que nunca conheceu Ozzy Osbourne pessoalmente… mas que, durante boa parte da vida, teve sua trilha sonora embalada por aquela voz inconfundível. No fim das contas, talvez a verdadeira imortalidade seja essa.

Não viver para sempre. Mas continuar existindo dentro da história de pessoas que sequer sabemos que existem.

Estou começando a entender que existe um momento da vida em que deixamos de colecionar novos heróis e passamos a nos despedir dos antigos.

Descobri isso no dia em que senti saudade de alguém que jamais soube que eu existia. E, sinceramente… acho que esse talvez seja um dos maiores elogios que um ser humano pode receber.

Mesmo que tardiamente, obrigado pela trilha sonora, Ozzy.

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