Tarifaço deve ter efeito limitado na balança comercial brasileira

Tarifaço dos EUA deve afetar pouco a balança do Brasil

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deve ter efeito limitado na balança comercial do Brasil, segundo especialistas ouvidos. Ainda assim, a medida tende a atingir segmentos da indústria exportadora, ao alcançar itens com maior valor agregado e dificultar o remanejamento de mercados por empresas mais dependentes do comprador americano.

A análise foi divulgada em 20 de julho de 2026, em Brasília. De acordo com os especialistas, o impacto agregado deve ser menor porque as medidas do governo Donald Trump atingem 18% das exportações brasileiras para o mercado estadunidense e porque os Estados Unidos representam hoje uma parcela menor das vendas externas do país.

Comércio bilateral recua e déficit permanece

No primeiro semestre de 2026, o Brasil importou US$ 1,5 bilhão a mais do que exportou para os Estados Unidos, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). O déficit brasileiro se manteve apesar do encolhimento do comércio bilateral desde o ano passado.

As trocas comerciais entre os dois países somaram US$ 36,4 bilhões no semestre, queda de 12,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. As exportações brasileiras recuaram 13%, para US$ 17,4 bilhões, enquanto as importações caíram 12,5%, totalizando US$ 19 bilhões, o que resultou em déficit de US$ 1,5 bilhão.

Em junho, as exportações cresceram 3,7%, alcançando US$ 3,47 bilhões, movimento sustentado pela alta de 11% nos preços médios, apesar da queda de 6,6% no volume embarcado.

Efeito deve se concentrar na indústria

A pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Lia Valls, afirma que o tarifaço dificilmente mudará o desempenho agregado da balança comercial brasileira. Segundo ela, os efeitos devem ser mais microeconômicos, concentrados em empresas e setores industriais mais dependentes do mercado americano, como máquinas, equipamentos, madeira e calçados.

O presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, também descarta impacto relevante sobre o superávit comercial e ressalta que o maior prejuízo tende a recair sobre a indústria nacional. Para ele, as novas barreiras podem favorecer concorrentes internacionais, ao abrir espaço para outros países em segmentos de manufaturados.

Tarifas e produtos atingidos

As tarifas foram impostas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento usado pelos Estados Unidos para aplicar medidas comerciais unilaterais. Embora a alíquota-padrão seja 25%, em 24% dos produtos atingidos ela chega a 50%, por se somar a tarifas anteriores.

Entre os setores mais afetados estão aço, alumínio, automóveis, máquinas, equipamentos, calçados e produtos de madeira. Já aeronaves, componentes aeroespaciais, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja ficaram de fora das sobretaxas.

Retaliação divide opiniões

O governo federal estuda recorrer à Lei da Reciprocidade Econômica como resposta, mas os especialistas apontam poucos benefícios em uma retaliação. Lia Valls avalia que o Brasil não tem capacidade de impor perdas relevantes aos Estados Unidos e sugere denunciar a medida e levar o caso à Organização Mundial do Comércio. José Augusto de Castro também considera a retaliação ineficaz e defende que o comércio internacional é feito por negociações.

Motivações políticas entram na disputa

Na avaliação de Lia Valls, a escalada tarifária passou a incorporar argumentos políticos, especialmente porque o Brasil tem déficit comercial com os Estados Unidos. Segundo ela, temas como decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), a regulamentação das plataformas digitais, o Pix e políticas ambientais passaram a ser usados como justificativas para ampliar as sanções comerciais.

Fonte: Agência Brasil. Texto reescrito com base na publicação original.

Compartilhe:

WhatsApp
X
Facebook