O Absurdo Precisa Ser Explicado

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Geison Vendramin

Há alguns anos, fiz uma postagem no Facebook.

Uma piada. Daquelas que já nascem absurdas. Escancaradas. Impossíveis de levar a sério. Ou, pelo menos… era o que eu imaginava.

O post era o seguinte:

“Meu filho me perguntou sobre o tal “desafio da baleia”. Respondi que ele deveria desafiar os amiguinhos da escola pra ver quem pegava mais meninas acima do peso. Paz.”

Atente para o detalhe: finalizei com um elegante “Paz.”

Pra quem não lembra, o desafio da baleia foi aquele fenômeno mórbido que, por algum motivo, ganhou status de assunto obrigatório entre adultos apavorados.

À época, meu filho tinha sete anos.

Repito: sete.

Idade em que a maior tensão emocional gira em torno de perder no videogame.
Idade em que “namorar” ainda causa mais nojo do que interesse.
Idade em que qualquer frase com duplo sentido simplesmente… não existe.

Ou seja:

não havia contexto.
não havia possibilidade.
não havia realidade.

Havia apenas o absurdo. E, ainda assim… não absurdo o suficiente. Porque alguém leu aquilo… e decidiu acreditar. E não satisfeito com tudo isso, se indignou… muito!

E aí começou o espetáculo.

Gente revoltada, dizendo que eu estava incitando a violência ao sugerir que meu filho “pegasse” uma menina.
Gente ofendida, questionando como ousava eu, criatura gordofóbica, falar a respeito do sobrepeso de alguém.
Gente que, aparentemente, decidiu fugir das aulas de interpretação de texto, achando ser boa ideia.
E o pior: gente que sequer me conhecia.

De repente, eu deixei de ser alguém fazendo uma piada ruim pra virar um problema moral. Um degenerado. Não pelo que eu fiz. Mas pelo que alguém resolveu imaginar que eu poderia ter feito. E foi ali que caiu a ficha: O problema real ali, não era mais o exagero. O problema foi o exagero deixar de ser reconhecido como exagero.

A gente chegou num ponto curioso da história: o absurdo já não serve mais como sinal de humor. Serve como evidência… como prova produzida contra si mesmo.

No fim das contas, isso diz muito mais sobre quem lê do que sobre quem escreve.

Claro que tentei explicar. Polido e educado — na medida do possível.

Expliquei o óbvio.
Expliquei o contexto e falei da idade da criança.
Expliquei que meu filho não fazia a menor ideia do que era aquilo.
Expliquei que meus valores são absolutamente diferentes da piada que estava ali.
Expliquei, inclusive, que era uma piada.

E esse, talvez, tenha sido o meu maior erro. Explicar! Porque existe uma regra silenciosa que ninguém te conta: quando você precisa explicar o absurdo, é porque ele já foi condenado como verdade. E, a partir daí, não há argumento que salve.

Porque não se trata de entender. Se trata de reagir. A indignação virou reflexo. E a reflexão… um luxo dispensável. Porque pensar dá trabalho. É muito mais fácil e confortável seguir o movimento da manada. (E sim… pode chamar de rebanho, se preferir.) E a manada, quando contrariada, se indigna fácil. Talvez porque, ao contrário do julgamento automático, interpretar exige contexto.

Ou talvez porque a gente tenha se acostumado tanto a procurar problema que, quando ele não existe… PRECISA nascer do mais absoluto nada.

E aí entra a parte mais curiosa de tudo isso. Não foi a piada que incomodou. Foi a possibilidade de alguém não se incomodar com ela.

No fim, ficou uma sensação estranha. Aquele gosto amargo na boca. O gosto da constatação de que a gente não vive mais numa era em que as pessoas não entendem piadas.  A gente vive numa era em que elas escolhem não entender. E deixam isso a cargo de qualquer grupo que considerem moralmente superior.

E talvez esse seja o verdadeiro desafio dos nossos tempos. Não o da baleia ou de qualquer “creepypasta”* da vez. Mas o de sobreviver em um mundo onde o absurdo precisa ser explicado… e, mesmo assim, passa a não ser suficiente.

* Creepypasta é um tipo de história curta de terror, geralmente fictícia, que circula pela internet como se fosse um relato real, criada para causar estranhamento, medo ou inquietação. Muitas vezes compartilhada e adaptada por diferentes pessoas ao longo do tempo.

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