Nobel da economia diz que impacto da IA no emprego é superestimado

Nobel diz que impacto da IA no emprego é superestimado

Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

O vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2010, Christopher Pissarides, avaliou em 17 de julho de 2026, no Rio de Janeiro, que o temor de um desemprego em massa provocado pela inteligência artificial (IA) é “superestimado” quando se observa o quadro geral da macroeconomia. Segundo ele, a tecnologia tem atuado mais como ferramenta de assistência ao trabalhador do que como vetor de substituição de mão de obra.

A análise foi apresentada durante a 25ª Conferência da Society for the Advancement of Economic Theory (SAET), realizada no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). Pissarides afirmou que casos pontuais de demissões ganham grande visibilidade, especialmente em empresas de tecnologia, mas representam um impacto pequeno no conjunto da economia.

IA muda funções e cria novas demandas

De acordo com o economista, a IA tende a alterar tarefas e funções, e não necessariamente eliminar vagas. Ele citou o aumento de demanda em áreas tradicionais, como a construção civil, e a criação de postos relacionados a segurança, manutenção, robótica, equipamentos e análise de dados de programas.

Habilidades ficam obsoletas mais rápido na tecnologia

Pissarides também discutiu a velocidade com que habilidades profissionais se tornam obsoletas em um ambiente mais tecnológico. Uma pesquisa liderada por ele analisou a probabilidade de um trabalhador precisar de novos treinamentos após oito anos no mesmo cargo e concluiu que quem atua diretamente com tecnologia é mais impactado pela urgência de aprendizado contínuo.

Já profissões ligadas à educação e ao cuidado humano, como professores e enfermeiros, não registraram mudança drástica nas habilidades exigidas após quase uma década, segundo a análise apresentada.

Concentração regional e risco de estagnação salarial

Apesar do otimismo em relação ao volume de empregos, Pissarides demonstrou preocupação com a distribuição geográfica e financeira dos ganhos. Para ele, a IA tem funcionado como força centralizadora de riqueza. Dados citados em sua pesquisa indicam que cerca de 60% dos investimentos em IA se concentram em grandes metrópoles e polos de elite, como o eixo Londres-Oxford-Cambridge, no Reino Unido, o que ampliaria a divisão econômica entre regiões.

O economista também apontou que empregos mais imunes à automação, como hotelaria e enfermagem, podem sofrer com precarização e salários estagnados, por dependerem do contato humano e não apresentarem saltos de produtividade via algoritmos. Nesses casos, segundo ele, a remuneração pode depender de recursos do governo, e a falta de orçamento público pode agravar o problema.

Reforma no ensino e “aprender a aprender”

Pissarides defendeu uma reforma nos sistemas de ensino e criticou a especialização precoce nas escolas. Para enfrentar a era da IA, disse, a melhor estratégia não é dominar um código técnico específico, mas “aprender a aprender”, combinando ciências exatas com uma base em ciências sociais e humanidades.

Conferência reúne nomes da teoria econômica

A 25ª Conferência da SAET é descrita como um encontro internacional dedicado à teoria econômica e segue com palestras no IMPA até sábado (18). A programação inclui, além de Pissarides, James Heckman e Lars Peter Hansen, além de outros pesquisadores citados no evento.

Nesta edição, há ainda uma homenagem aos 80 anos do economista brasileiro Aloisio Araujo, pesquisador emérito do IMPA e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), que destacou a importância do formato presencial para o intercâmbio de ideias e a discussão direta de artigos ainda não publicados.

Fonte: Agência Brasil. Texto reescrito com base na publicação original.

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