Um ano depois de deixar o Mapa da Fome, o Brasil segue com menos de 2,5% da população em risco de subnutrição ou sem acesso à alimentação suficiente, mas ainda convive com cerca de 6,5 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave. O marco foi alcançado em julho de 2025 e volta ao centro do debate em 2026, com especialistas apontando que a manutenção do resultado depende de políticas públicas permanentes e integradas.
Saída do Mapa da Fome e o tamanho do desafio
Apesar do menor patamar da série histórica, pesquisadores e especialistas ouvidos avaliam que o país ainda precisa combater a fome e evitar retrocessos. Fora os casos mais graves, a segurança alimentar — definida como acesso regular, permanente e suficiente a alimentos saudáveis e de qualidade — é garantida a 77% da população brasileira.
Políticas transversais para manter o resultado
Para o pesquisador Lucas de Almeida Moura, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, o avanço está relacionado à intersetorialidade entre políticas públicas e exige mecanismos que tornem permanentes as estratégias que reduziram a insegurança alimentar.
Segundo ele, o enfrentamento do problema não depende apenas da oferta de alimentos, mas da criação e manutenção de uma estrutura que assegure acesso adequado à alimentação, com garantia de renda mínima, educação, acesso à água, esgotamento sanitário, segurança pública e emprego.
Índice multidimensional aponta desigualdades regionais
Moura é autor do Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar, lançado em janeiro deste ano com dados de 2018 a 2022 e publicado na revista Sustainability. A pesquisa avalia a fome a partir de 12 indicadores de Desenvolvimento Sustentável, em comparações anuais.
Os resultados indicaram piora no cenário nacional em 2022. Santa Catarina apresentou os menores valores médios, enquanto Maranhão, Acre e Amazonas registraram os maiores. Os dados também apontam que a maior parte dos estados do Norte e Nordeste está acima de 50% de insegurança alimentar multidimensional. A proposta dos pesquisadores é atualizar o índice para os anos posteriores a 2022.
Plano Brasil sem Fome e foco na inclusão
A secretária extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do Ministério do Desenvolvimento Social, Valéria Burity, afirmou que a meta é garantir que a alimentação de qualidade seja um direito de todos. Entre as ações com maior impacto na redução, ela citou o Plano Brasil sem Fome, que articula medidas de política econômica e proteção social.
De acordo com a secretária, o plano fomentou a agricultura familiar, reajustou a alimentação escolar, apoiou cozinhas comunitárias e definiu meios para garantir proteção social, trabalho, renda e acesso à alimentação adequada. A prioridade atual, segundo Burity, é incluir quem ainda está em risco de insegurança alimentar em políticas públicas, com apoio a estados e municípios.
Três pilares: desigualdade, proteção social e produção
A professora Semíramis Domene, da Universidade Federal de São Paulo e diretora do Instituto Fome Zero, destacou três movimentos que contribuíram para reduzir a fome: mecanismos de diminuição da desigualdade, fortalecimento das políticas de proteção social e ações ligadas à produção de alimentos.
Ela apontou como fundamentais as políticas de emprego e renda, citando o menor índice de desemprego em 13 anos e reajustes do salário mínimo superiores a 6% a partir de 2022. Também mencionou o fortalecimento do Sistema Único de Saúde, os resultados do Bolsa Família, a modernização do Cadastro Único em 2025 e o Programa Nacional de Alimentação Escolar.
Na produção, Domene ressaltou o incentivo à agricultura familiar e o fortalecimento do Programa de Aquisição de Alimentos, considerado decisivo para o abastecimento.
Bolsa Família, preços dos alimentos e mercado de trabalho
O economista Daniel Duque, pesquisador associado do Ibre/FGV, também destacou o protagonismo do Bolsa Família na redução da fome, ao apontar que o aumento da assistência à renda devolveu poder de compra a milhões de famílias.
Duque observou ainda que os preços dos alimentos desaceleraram em relação à inflação geral a partir de 2023, movimento que se repetiu em 2024 e 2025, com boas safras ajudando a conter os preços. Para ele, a melhora do mercado de trabalho foi decisiva, e a permanência do Brasil fora do Mapa da Fome depende de manter esse cenário favorável. Segundo o pesquisador, até o momento não há indicativos de reversão do emprego.
Fonte: Agência Brasil. Texto reescrito com base na publicação original.